Thursday, March 22, 2012

Rosário Breve nº 251 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 22 de Março de 2012




Da cardial claridade

O dia é hoje de uma claridade total, que o revérbero dos vidros dos carros e das janelas mais ’inda holofotam. É tudo uma grande piscina de ar azul-ferrete, ao cimo do que nem uma nuvem sequer. À madurez da manhã, os campos que cintam a Cidade estendem panos verdes melhorados por veias de água esmaltada a madrepérola. Muitas árvores estão em fruta. Um rapaz vende batatas, morangos e flores-de-cemitério à beira da estrada, não longe já da Ortigosa. Sente-se ao longe a ânsia serena do oceano, que volve atlânticas a espera e a esperança.
Por cá, o Rio Lis gargalha de patos. Desempregados solitários e ribeirinhos patinham em silêncio suas mesmas silhuetas – e são as primeiras sombras que recebo da terça-feira mais recente do mundo.
Uma pessoa nem sempre desgosta de estar viva nisto. O pano de relva separador do ir-e-vir da Avenida verdeja viçoso tal uma rapariga rubra. Ao pináculo do meio-dia, o mundo é diáfano como uma seda caída aos pés de um vaso de cristal cheio de leite materno. Os dobrões de um sino veneram a qualidade érea e aérea da eternidade possível. E um restolho de pombas municipais movediça-se pelo chão vivo do Largo, a cuja travessia me ocorre a seguinte rosa-dos-ventos:
a Oriente, o casario cristão caia a luz forte. A Cerâmica abandonada teima em subir ao céu o desemprego das duas chaminés, as quais exclamam uma dignidade pernalta e triste de cegonha;
a Ocidente, sabemos que as bestas do ultracapitalismo não desarmam nem nos amparam a loja, mas também que crianças brincam com cães em jardins-parques, comboios reúnem famílias em apeadeiros tão domésticos quão pátios de latada, bandeiras de pórtico de hotel cosmopolitam a utopia da unificação do género humano: e que algum homem com alguma mulher refazem a este preciso instante um amor para lá da minha compreensão e do nosso engenho, mas não da vossa suspeita;
a Norte, uma colisão de ligeiros faz formigar as fosforescentes formigas dos agentes de trânsito. Mirones especam para ver se há mortos;
e a Sul, a Sul estão o meu leitor e a minha leitora, que, a esta última página chegados, dobram o jornal e o abandonam na mesa do café, onde outros olhos e outras mãos hão-de desfolhar a rosa-dos-ventos desta crónica.

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