Thursday, March 08, 2012

Rosário Breve nº 249 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 8 de Março de 2012


© Pawel Kuczynski



Sem dias

Imaginemos, por absurdo, que chego a casa e digo assim à minha senhora “– Olha, a situação está e é má, mas tu dá-me cem dias. Vais ver que eu em cem dias pago tudo, resolvo tudo, saneio tudo, limpo tudo, que eu sou o Senhor e nada nos faltará, passando nós de nabos a nababos num ápice de meras catorze semanas.”
Imaginemos, pois, que eu era absurdo ao ponto de não apenas firmar como afirmar e até acreditar nesta manhosa intrepidez de onzeneiro da banha-da-cobra doméstico-político-palradeira. Que (nos) aconteceria?
Acontecer-nos-ia isto: que, passados seis anos (ou seja, mais de dois mil dias depois; ou seja, mais de 20 vezes os tais cem…), eu não apenas não teria pago, nem resolvido, nem saneado, nem limpado, nem sido o Senhor, nem nos desnabificado, como ainda teria astronomicamente inflamado o pus dos calotes ao merceeiro, ao sapateiro, ao encadernador, ao peixeiro, ao veterinário, à bruxa, ao padre, à Casa do Benfica, ao homem do gás, ao livreiro, ao carpinteiro, ao canalizador e à sociedade do euromilhões da tasca da Rosa – e como, ainda por cima, já só viria dormir a casa dia-sim-dia-não, daqui aumentando em mim as possibilidades mais cornúpetas e a ela, à minha senhora, as veleidades mais ladydianescas.
Por ser, enfim, absurda de mais, porra para a imaginação! Mas os/as leitores/as sabem muito bem a que (e a quem) quero eu chegar. Estive folheando o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2010. É literatura pelo menos tão deprimente quanto aquela a que determinado figurão autárquico, não sem aliás o dote da invejável lisura da irrelevância, se dedica tão afanosa e tão esterilmente e tão operético-vadiamente.
Ó santarenos: cem dias vezes seis anos são uma eternidade mais cabisbaixa ainda do que o reboco do scalabitano casario ribeirinho do Alfange e muito mais incontrolável do que os gangues de gatos empoleirados nos transbordantes contentores de lixo daquela e das outras artérias da cidade e do concelho.
Vale-me que a minha mulher se não chama Santarém, mas Graça. Só que eu, por desgraça, não sou Chico. Nem esperto.

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