Monday, January 16, 2012

ACTA DA MANHÃ TERRITORIAL DE SEGUNDA-FEIRA, 16 DE JANEIRO DE 2012


ACTA DA MANHÃ TERRITORIAL DE SEGUNDA-FEIRA, 16 DE JANEIRO DE 2012

Leiria, manhã de segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

À solidão duplicada do espelho, fazendo ao rosto a raspagem da barba, nem sempre dou comigo do outro lado.
Por vezes, o Canhoto é o escritor que não cheguei a ser.
Outras vezes, o marinheiro que todos os homens deveriam ter sido, uma vez na vida ao menos: ou menos.
Outras ainda, Ele sou quem se prepara para, raspada a barba e ungido o rosto de fresca loção, perorar sobre António Nobre a mancebos de colégio não-jesuíta.
Uma vez (uma única vez), Ele fui quem lavou e levou um rio de montante a jusante mercê de uma singular ideia justa, hidráulica e motriz.
As mais vezes, porém, sou eu: em chateza bidimensional, canhoto na mesma mas mais olheirento e de dentes piorados pelo fumo, pelo café e pelo utente hábito de maus versos.
E entre o um de cá e os uns (zunzuns) outros de lá, a coincidência chega quase a ser pura, descontada a realidade e o rumor da televisão na sala entretendo gata e mulher, que são para-quem, afinal e só, raspo a barba e repito a loção.

*

Dia ontem fechado como um punho escuro foi mas
hoje não, que o sol dá colecta larga e justa, como gostas.
Uma sorte de indiferente alegria nas coisas:
brilhos irisando peles e demais superfícies expostas.

Recorde e acção ao tempo mesmo, a recordação
bem tenta toda virar-se para amanhã, essa eventualidade.
Escrevo as minhas coisas, não chateio ninguém, na verdade,
que isto é sozinho desbarato, não a revolução.

Percussão tambora nas fontes da cabeça,
sinais de fumo da boca tabágica à meça
de mãos multiutentes do tudo-quase-nada, diz,

da vida: ei-lo-me, ao meteorologista desencartado
que o anonimato recobre de suave verniz,
ao sol da esplanada, e de código esmaltado.

*

Às serras do meu País tornou a neve
que dura se faz, tão dura e tão leve,
que à leviana vida endurecida se coteja,
algo que se vê cair e se não beija
nem mima, antes se vê tornar de cima
às baixas serras do ser,
neve ave leve nave:
que nem apetece morrer
mas cair só
e só viver.

Neve, caspa de Deus, Esse que a tudo e todo mais mata
quão mais nefelibata.
Não cuido porém por ora do tempo matador,
que esta é só da neve elegia:
ao dia undécimo de Fevereiro, creia-me o senhor,
do ano que foi 1983, a nova era que havia
sobre toda a Coimbra um denso nevão,
que vo-me-lo recordo, aos que estavam e ’inda estão,
na formosa Cidade a neves não usada.
Parecia, como o pessoano mito, um tudo que era nada:
mil vezes branca, branca de lavada,
puríssima ovelha alva mil vezes tosquiada.
Eu dormia, era tão cedo:
meu Pai, a medo,
quis dar-me a neve toda
como se fôra já a minha boda.
E era.
Mas caiu já a neve
e já meu Pai caiu.
Era no meu tempo mais leve.
Não estava frio.

Hoje a leve neve se fez futura.
É branca e é pura.
Mas é mais dura.

*

A esta do dia doçura perderei
qual da noite a amargura, bem no sei.

*

Positivas pessoas de mim diversas
vejo que existem por estes meandros.
As mulheres são ginas (e algumas, perversas),
os homens são andros (e alguns, malandros).

Positiva gente, cuja mentira
em verdade não mente.
Gente apenas que o Tempo tira
de, ente, ser não mais um dia que já foi gente.

*

RECORDAÇÃO DE COIMBRA

O meu pior terror sempre foi chegar a uma idade em que se me inevitabilizasse escrever qualquer coisa chamada Recordação de Coimbra. Hoje está a acontecer. Como se tanto honesto estudo e tão denodada porfia me não mais valessem, ao cabo do vital dia, que valer pouco mais que um torga ou um doutoreco maçon. Isto não pode naturalmente ser nada de bom. Ainda assim, vejamos, quanto pode a um homem a valer o ser, em recordação ao menos, de Coimbra:

Tónico Mondego
volta ao Salgueiral
lua sem sossego
dando no Choupal

A tenra cabrinha
e o cordeiro terno
sofrem no inverno
saudades da ervinha

Silentes canais
que o comércio vão
abre aos demais
que de menos são

Lá do alto a Torre
recorda a quem passa
que viver é graça
e que tudo morre

Velho Calhabé
velha Cruz de Celas
ínsuas amarelas
mesmo aqui ao pé

E na Guarda Inglesa
pois tudo é passagem
assalta a certeza
do Tempo em voragem

Vindas foram vão
por a Estação Velha
vêm já não são
quanto se assemelha

ao pobre Anto Nobre
ao ruivo Antero
que a neve recobre
dum silêncio fero

“Asas escritoras
do verso do vento”
gaivotas senhoras
dum branco lamento

Terra de meus Pais
e das cheias vãs
que ao Bolão sem mais
molhavam manhãs

Descendo a d’Aveiro
’té Casa do Sal
Conchada primeiro
sem por bem nem mal

clara Santa Clara
que às Lajes permite
brancura que emite
uma cal tão rara

Ora mais não lembra
quais recordações
que as tem Coimbra
uns anos depois

de tudo ter sido
que vier a ser
nela o ser nascido
e nela morrer

Mas bate truz-truz
(quem ora será?)
i por Santa Cruz
ao deus-não-dará

P’la Rua do Corvo
Bota-Abaixo triste
sentir é estorvo
esquecer não existe

Era a Ideal
e a Lufapo era
a vida afinal
não pode ser espera

Amanhã será
novo ontem por certo
Coimbra se dá
o longe mais perto.





3 comments:

Anonymous said...

Muito bem, Daniel.
E, atenção, creio que foste (és) muito mais escritor ainda do que julgaste/julgas. Foste (és) uma estrela preciosa para os teus contemporâneos e, desconfio, um Sol inteiro para os vindouros. Falta terem-te lido... E, já agora, a tua obra ainda está (muito) por completar.
Abraço.
JJC

Alice Sequeira said...

pelo manifesto hábito de bons versos e com a gratidão por me ter sido dado a ler, registo aqui o meu abraço*

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

És um santo homem, doutor, embora não doutor da Igreja.