Monday, January 23, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 11, 12 e 13 (integrais)



11. A MAIOR CARESTIA

Louriçal, quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

A maior carestia é a vida.
A morte é de borla – não é graciosa, mas é de borla.
Uma dedada branca sobre azul-azulejo: nuvem no céu – traça-a a carvão uma silhueta de ave.

12. PELO CORPO NATURAL

Leiria, quinta-feira, 3 de Agosto de 2011

Sou pelo corpo natural do Mundo.
Alinho os rios, versejo as aves & as árvores.
Reconheço à chuva os seus direitos naturais invernosos, mesmo em pleno Estio, como este ano já tanto aconteceu.

13. X DO ARÍETE

Leiria, segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

I

Aves muito puras confirmam a muito pura manhã do mundo. São de uma negrura que reitera o grande branco da luz. O meu compromisso é para com elas, aqui em baixo, onde renasço para morrer. Este tem sido um ano de peripécias ornitológicas: sim, também eu voo e sou negro eu também à face branca do azul, entre verdes. Azulejo-me, é o que é. Iço-me cedo do tálamo, vou ao terraço fumar em contemplação de terceiro-andar (eu alto, portanto, e portanto eu ave) das em baixo humanas formigas madrugadoras que dos arrabaldes rumam ao pequeno-comércio do centro da Cidade. Toco faces recordadas, rosto-evocações. Fumo os meus mortos. Muitas vezes os bebo também: tomai-me, este é o vosso Corpo. Mortos muito puros etc.

II

Não mais não querer quem quero,
que do desejo a morte à pessoa mata.
Eu era um lince na Malcata:
ora domesticado gato sou: e pouco fero.

III

Agora que nos não tocamos já na orla litoral, podemos agora falar mudamente na pressa lenta do envelhecer.
Repara: há um quarto de século nos conhecemos.
O que aí vem, virá terminalmente.
Cada um por si, frequentaremos estações de serviço onde servem bifanas temperadas a gasóleo, casamentos de encosto resignado eriçados nunca de rosas nossas, cada um(a)
por si,
sem mim,
por ti.

IV

Aríete não bélico cravo
à porta levadiça do teu baixo-corpo lento.
E de mim saindo por ti me adentro.

V

Deveríamos já talvez termos voltado a ser nós
num filho de nós feito em mútua voz.

VI

Pelas margens dos rios-páginas
venho-te sendo o guarda-rios.
Quanto te amo & quero, tu imaginas:
nas mornas noites, nos dias frios.

Parece que somos agora florestalmente,
nem crer quero quão tempo perdido
foi por nós, nós, que somos gente
de margem-rio: passaramente.

VII

(Preciosa lentidão uso na alba das mãos,
que do gelo conhecem a pétrea fotografia.
Encharco-me, eu sei, mui mais que deveria.
Mas amo as filhas e os irmãos.)

VIII

Pode um país de parolos ser amado
pela boca, onde a Língua?

Pode.

IX

Nunca quis ser contemporâneo do meu próprio corpo. Habito outras esferas. A minha verdade é feita de solecismos todos mentais: perfume de flores secas, fímbrias litorais (e literais) que azulam espumas e coruscantes dorsos golfínhicos, a trança da Avó embrulhada em papel-de-seda numa gaveta morta de fenecido psyché, amêndoa de enrijecido açúcar em ida Páscoa não crida – e outras coisas que tais da ’inda contemporânea vida.

X

Tenho acumulado palavreados, falatórios não.
Sou mais pela natureza-viva dos azulejos.
Ensino-me técnicas de restituição, falatórios não.
Táctil, preênsil, dúctil, dócil até, penso e calo.
Falatórios,
não. 

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