Sunday, January 15, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 3, 4, 5 e 6 (integrais)



3. COPA

Leiria, sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Exerço agora nas tardes camisas bem lavadas para que, limpo e escorreito, o meu tronco sugira que a minha cabeça é uma copa, não um copo.

4. NOGUEIRA

Guia, entardenoitecer de sábado, 16 de Julho de 2011

À boca da noite, uma nogueira penteia-se à brisa fria. É ao cabo de um dia fosco, fusco, pesado, baixo, de esponja-morrinha sem o imóvel relâmpago do sol. É uma árvore formosa e grande, como a noite mesma que se prepara para inscrever.

5. UM POUCO ANTES DISTO

Leiria, terça-feira, 19 de Julho de 2011

Cruzei a praça vazia ao começo da tarde sem auspícios, vinha e ia pensando que se morre, que se morre um dia mas que as águas ficam, as águas que ficam para eternamente contar o mundo, contar em número de tempo inumerável e contar em história ilegível para nós, pois que um dia morremos, morremos e não mais abordaremos a hemorragia de cristal das fontes, o olho parado das barragens, a cronometria hídrica dos rios, a vidente cegueira evidente dos mares.
Não é triste que assim seja e venha a ser, tantas vezes já nos aconteceu morrer, soltas da Mãe as águas, as tais que, elas apenas, contam.

*

Não quero acabar por saber que os animais gritam, quero apenas que falem, que digam o que o corpo deles pensa do mundo que os nasceu e os matará – e os fará gritar um pouco antes disso.

6. COZINHAS E PINHAIS

Leiria, manhã de quarta-feira, 20 de Julho de 2011

1/

É sob um azul muito puro que hoje escrevivo o dia, o sol parece um olho de criança deslumbrada e alumbrante, restam-me as horas de por diante.
Partilhamos lado-a-lado o destino dos cães, cozinhas e pinhais perfumam a atenção que fragmentamos pela realidade virtual dos outros (os sonhados vivos, os amados mortos).
Os leques, os bosques, a claridade (a clara idade) de Junho, o esmigalhador de areia & arroz do Grande Ampulhetador: ou uma manhã à salbabugem do mar, resguardadas as crianças em toldos de listras coloridas.
Em cafés povoados de homens cabisbaixos como reses pastando, cumpro cerimoniosamente a minha vocação de guardador de gardénias & caixões: estival e hiemal ao tempo mesmo.
Das colmeias o furioso açúcar escrevo cegarregamente, açucenamente. Vivo em puro transe de pureza, um pé órfão fora da fímbria terminal do lençol, ao sol.
Por terem havido laranjas, os dentes rangem mordendo o pão, estas coisas da infância (de)moram (n)o coração.
(Isto da poesia é uma expectoração.)
(Mas metafórico é cada um meu dia por causa da poesia.)
Todos queremos que os mortos durmam, desde que (nos) não morram.
(Escrevo sob mui puro-púrpuro azul, acaba-se sempre por dar (n)as vistas.)

2/

Safra de safiras e magno mogno: La Nuit, ela-mesma. Em plena tarde minha a que pertenço como uma mulher que de cima o homem rés-de-chão.
(Passa-se isto este Verão.)

3/

Causas puras e puras casas de mulheres sem dono nem sono vigiaram longamente quanto punhal e pinhal dominei ao arrepio-frio da minha atenção.
Merendei em & com algumas, sob tílias fresco-ramalhosas aos zéfiros inimputáveis dos setembros. 

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