Monday, February 12, 2007

Sustos, Prazeres e Desejo de Clementina - histª 59 do Anoitecer ao Tom Dela



1
Em casa, por meados da manhã, Albertina Amorim retira os cortinados da sala para que na lixívia tomem cores novas que ajudem toda a gente a levar de vencida o Inverno que se aproxima. Ao lume da cozinha ferve com brandura uma galinha com nome próprio que ainda ontem esquadrinhava pelo quintal com ar de filósofo peripatético. Albertina retira de um sacão os cortinados – e, de um sacão, rompe pela sala o fulgor atómico da manhã que não brilha já para Clementina.

2
Na mesma manhã, um pouco antes (mais precisamente, no momento em que Albertina Amorim degolava a galinha), Carlos Alberto Cavaleiro fazia jus ao nome içando as nádegas gordas ao assento da motorizada. Atrasado uma hora para o emprego, Carlos Alberto deu-se a si mesmo perdido-por-cem-perdido-por-mil e não foi trabalhar. Fez tossir a motorizada rumo à beira-rio, onde abre portas um café de horário non-stop frequentado pela fauna pessoal que remanesce da noite e dos ofícios da noite.

3
À hora a que, em vão, guinchava o despertador de Carlos Alberto, o polícia Ernesto Branco Peres despia a farda na sala de cacifos da esquadra. Ernesto tinha vivido uma noite sem registo e sem ocorrências, a ponto de sentir, sem palavras embora, que a noite parecia não ter ocorrido. Em troca, a manhã começava ocorrendo. De novo civil, Ernesto Branco Peres foi tomar o pequeno-almoço à beira-rio.

4. Às 5 e ¼ da madrugada, quando o arvorado Peres cabeceava de sono em odor de santidade perante o aparelho de rádiocorrrências, a técnica de amor urbano Gracinda dos Anjos Costa, mais conhecida no milieu por A Cachucha, batia os saltos altos no passeio empedrado que separa o asfalto da avenida da porta de vidro das Ferragens Antunes. Passou o carro do lixo, numa revoada de aroma que arrastava consigo os insultos mansos dos dois homens pendurados atrás como macacos escatológicos. Gracinda foi jogando snake no visor do telemóvel até se cansar. Cansou-se e voltou para a pensão sem um único cliente feito toda a noite.

5
Hora e meia, mais ou menos, antes de Gracinda recolher sem glória nem cêntimo ao quarto de pensão iluminado apenas pelo retrato da filha, o patrão do Café Beira-Rio bocejava sem angústia perante um maço de facturas atrasadas. De seu nome Evaristo Licínio Elói, é homem que gosta de berloques de ouro. É um risco acrescido à profissão de risco que leva na vida. Ter uma pulseira de ouro mais grossa que o braço não parece ajuizado em sede de café aberto todo o dia e toda a noite. Mas Evaristo gosta muito de ouro. Sobretudo de, em hora morta como esta, iluminar com ele os débitos aos fornecedores.

6
Evaristo pega no turno à meia-noite, hora a que Isabel e Márcio despegam. A cozinheira e o balconista são irmãos, mas funcionam como casados. Partilham emprego, casa e contas. Nem sonham casar-se por fora, cada um para seu lado. Isabel já esteve junta com um tipo da Rodoviária, mas o fulano ou foi para o Brasil ou morreu nalguma viela sem código postal, dá no mesmo. Márcio só gosta de mulheres nos filmes, quando fazem de sofridas em papéis muito trágicos por causa dos homens que as abandonam depois de gozadas e usadas.

7
Pela janela da cozinha, sendo as nove, 9 e ¼ da noite, Isabel entrega a bandeja inox de bifanas quentes a Márcio, que as despeja na guarita do mostrador do balcão. Há quem jante bifanas e penalties de traçado, como são os casos de Ernesto e de Gracinda. E de André Gomes Porto, médico de urgência sempre que pode para ganhar mais uns cobres, que isto não está bom nem para doutores.

8
Às sete e meia da tarde, rigoroso como um destino ou uma má notícia, chega a casa, para jantar rápido e sair depressa, Horácio Amorim. A mulher tem o comer pronto. Horácio ladra um comentário áspero sobre a sujidade dos cortinados da sala. Albertina ouve e regista, enquanto deita na mesa, como a um menino fumegante, a posta de bacalhau. Horácio volta a ladrar:
– Outra vez bacalhau?

9
Albertina nem olha para as costas de Horácio saindo de casa. Se lavar a louça depressa, a telenovela devolverá a Albertina tudo o que é preciso: os sais minerais da utopia, a largueza respiratória de Ipanema, o dulçor sem gramática do acento carioca, a paixão mediada dos outros. Mas, hoje, Albertina quase nem ouve, embora olhe, a catártica descoberta da traição conjugal desfechada por Ivanildo a Rôsemére. Não ouve porque acaba de decidir matar a galinha. Só porque estás farto de bacalhau, Ivanildo.

10
O mundo é um pátio terriço cheio de minhocas, caracóis e talos de couve. O mundo é uma alegria. É bom dormir a sesta no torpor calorífero do ovo. É bom que o cão se cale. Assusta-me a ténia alta dos aviões a jacto e a tosse da motorizada do Carlos Alberto. Mas só isso me assusta. Só queria que as espigas de milho dos cortinados da sala da minha senhora fossem a sério.

Caramulo, tarde de 2 de Fevereiro de 2007

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