Wednesday, February 14, 2007

O Interior do Frigorífico (Tercetos da Possibilidade)

Podemos ser, desde que fora do real,
o que quisermos. Não podemos ter.
Podemos apenas ser.

Isto é um rio. Isto é um tacho de arroz
de marisco. Isto é uma bicicleta. Isto
é um sinal de trânsito. Isto vamos ser.

Isto é uma sala. Outros animais a
devassaram antes. Podemos tê-los
sido. É mais ou menos igual.

Próstata e vesícula casam-se e
suportam-se anos a fio. Tudo
em nome do coração.

A mulher que passa a ferro vem duas
vezes por semana. Vem, passa, vai
– e só depois passa. Como tudo.

A cozinha é (torna-se) uma nave espacial
às quatro da manhã, quando te levantas
para um copo de água e desces em Marte.

O interior do frigorífico: necrotério
de corrupções mimosas sobre que
planas, águia do consumo.

A quantidade de vivos que ambos vimos
hoje. Tudo com sua próstata, tudo com
sua vesícula. Tudo a ir-se.

Maravilhas do passado: em gesso,
coçando as costas com palha-de-aço.
Disponíveis, informativas, mortas.

Um homem com mais reumático que uma cancela.
89 anos. Tomador de sua cevada,
atirador de sua brejeirice. Zé. Ou Manel?

Sempre me vos dirigi a sério.
Agora estou a ser o homem da montra.
Passa um carro, passa como tudo.

Sabes aqueles filmezinhos porcos
que em pequenos víamos? Porcos,
tigres, gazelas, corvos, tudo – e falavam.

Um homem era a namorada de outro homem.
À noite, ia para casa e ralhava à mulher.
Depois, voltava a namorar.

Em Bucareste, há crianças que parecem ser octogenárias.
Remexem o lixo. Em Londres também. Em
Paris também. Em também em também em também.

Eu agora vou ser o corpo que se amoranga
todo num beijo à raparigananás
que alpercebi sozinha na rodoviária.

Cada uma de nossas cabeças é um retrato.
Desunhamos a vida raspando a cercadura.
Só mortos ficamos bem na moldura.

A tonelagem naval destroça o chão do mar.
Aspron Wesley, 22 anos, Royal Navy.
Liz Harley espera ainda por ele. Sentada.

Os livros outonecem nas madeiras.
O leitor também, entre regressos.
Uma só partida, uma só estação.

Nos olhos com que olhamos, o símio,
o peixe, o cavalo, o porco, a cabra,
a vaca, o periquito. Só o corvo não.

As luzitas inimputáveis: casas na noite,
candeeiros que exclamam, carriscos,
isqueiros contrariando a chuva.

S. José, Coimbra, 1979.
Minocas, Louriçal, 1991.
Em também em também em também.



Caramulo, noite de 13 de Fevereiro de 2007

No comments: