Monday, February 12, 2007

Sociedade com o da Barba e Outras Coisas

Fotografia: Nazaré, 1958, por Gérard Castello Lopes
(Edições 19 de Abril, Lx.)


Sociedade com o da Barba


1. I Presume

Agora é tudo antes de morrer.
Nem sempre assim foi.
Quase nunca antigamente se morria.
Se até os mortos enciclopédicos viviam.
Parecem um pouco mais mortos hoje,
os defuntos das enciclopédias.
Os exploradores da nascente do Nilo.
As cadelas Lassie e Laika.
O senhor Charlie Chaplin.
Agora é tudo quotidiano.
O que de nós se quotidianiza em sustento.
O que de nós damos em sustento ao quotidiano.
As sopas, o lavar da roupa, o despejar dos bacios,
o que nunca dizemos a ninguém
por acharmos que não é verso.
O que de nós morreu em vida.
E o que a vida em vós se fez voz –
para que no-lo digam – vós
que não falais já,
Lassie, Charlie, Laika.
E Mr Stanley e Dr Livingstone.

2. Miroir

Negoceia-se a preço de reflexo estanho
a própria cara, a ruga indiciadora,
a barba negligente.
Tudo é espelho e tudo é gente.

E s’ o estranho s’ insurge no ’stanho?
Se o outro (a outra) aumenta,
tirando do sério a própria antig’ ancestralidade
verificável na factura, por pagar, dos móveis da sala?

E se aquilo que o mesmo espelho não mesmeriza nem
devolve, por pagar, a esmo do eu-istmo?

Istmo aquilo, istmo aqueloutro:
nous vous en prions d’accepter nos excuses,
pode tocar desde que não abuse.

3. Ode das Batatas Alheias

É sempre uma alegria verificar a tua tristeza.
O que me devias em sexo e me não pagaste em géneros.
O que faltou dizer, aquando da seminal interrupção.
As tuas batatas, por outro compradas,
postas à tua, que não minha, mesa.

4. Sociedade

Tão perto do rio assavam carne. Eram dois irmãos, aberto a loja tinham depois de lançadas as poupanças de seus, quase de repente, falecidos pais. Um arranjou mulher, que cozinheira quis ser. Era esse o da barba. O outro, não: nem barba, nem mulher. Só sociedade.

5. Tanto

Às vezes, o sol dói-me
como um anúncio de emprego
a que falho o limite de idade
por cima,
dois anos.
Ou nem tanto.

6. Rapace Passa

A águia do coração voa baixo
nos centros comerciais, hodiernamente.
Há coisa de 20 anos, ou século e meio,
rapinava doutra maneira
ventrículos vísceras versículos
de caixeirinhas de ourivesaria.
Mas século – ou década – não é dia.
Águia voa, águia passa.

7. Colorau

Um clarão cor-de-laranja sitiou o termo da rua. A minha Mãe tinha mandado ao minimercado a comprar uma especiaria terminal qualquer. Eu demorei-me. Fiz bem, embora o não soubesse: demorando-me, pude apreciar, um pouco mais só de tempo, dois ou três mortos que depois não eram vivos como então. Era colorau, a necessidade.

8. (…)

9. Bleuâtre

A escuridão económica dos pobres de espírito,
essa noite de tostões abatida na pessoa,
não permite à alma de Adérito
ser grande coisa, sem números, em Lisboa.

A tristeza taxativa do albicastrense
que veio ser taxista em Lisboa
dá-lhe noite de tostões, batida a pessoa –
que espírito não estudado não pertence

nem a si mesmo. Só à merdita
de morar lá na DamaiAmadora.
Mais matrimónio de gaja. Comedora.

Se ao Sul não chega quanta Coimbr’ aqui vai,
nem Coimbra merece ser perto do Sul.
Le ciel est une merde, quando é do céu que ela cai.
O céu é verde. A merda é azul.

10. (…)

11. (…)

Caramulo, noite de 2 de Fevereiro de 2007




Outras Coisas

Nós

Nós somos homens e mulheres.
E gatos e pardais.
Somos estátuas de terra.
No aquário da cabeça, barbatana
o peixe da alma.
Gato, pardal, peixe.
E homem e mulher.
E as luzes públicas na privada noite,
longe, além, sinalizando
os caminhos sem rumor
que outras mulheres, outros homens e animais
devassam para comer, dormir,
aquecer, derivar, alhear.
Somos nós – somos nus.
Já a mentira nos não sublinha.
Temos aprendido tantas coisas.
Temos aprendido tantas coisas à nossa custa,
que a nossa custa é a única aprendizagem.
O vento escreve-nos árvores na face.
O mar comove-nos como um baptizado.
Barcos e carros sulcam as noites
apreensivamente.
Gado beija a terra, través a erva.
Aquela rapariga tem algo a dizer –
mas estamos fechados até segunda-feira.
O restaurante paquistanês vive de
clientela divorciada,
baralha-e-torna-a-dar.
Quando for Verão, corações doentes
sofrerão de asfalto.
Cuspiremos pedacinhos de gelo,
de dentes, de frases.
Aviões levar-nos-ão até a respiração,
à vista espumando branco no azul,
altos como moscas.
O salão de chá tornou-se banco.
Nós reencontramos a ausência sempre.
Só de nós nos não ausentamos,
que o eu é uma corda de nós.

Trabalho

Este trabalho é para fazer agora,
estes agor’ anos.
Não há mais saída.
Contribuo disparando a tosse das palavras
enumeradoras, listas-coisas
que a semântica revolve
como uma betoneira.
É tudo a sério.
Se alguém fez aquele jardim,
eu tenho de fazer este.
O caso contrário é a ruptura,
o exílio, a entrega e a humilhação.
E isso pode – mas não tem de ser.

Escassez

Nem sempre
quase nunca aliás
andam anjos
sublinhando
nossas vidas escritas
em ortografia
de repartição pública.
Ele há uma grande
escassez antropológica
(ena, antropológica!)
de anjos.
Cada pessoa
é
um incêndio ontológico
(ena, ontológico!)
mas não podem
eles
os anjos
acudir a todos os
fogos.

Senhoras de Sacavém e Whiskies Idem

Também eu já regressei a casa depois de revistos o porto comercial e as mercearias mosqueadas de nortafricanos que regateavam citrinos entre senhoras de Sacavém e whiskies idem. Já fiz isso.
Já tentei ter – e por instant’ anos tive – o lume da salamandra ajudando a canja e o pernil de porco a dourar-se no serão nutritivo.
Já aleijei a memória alheia. Sim, já fiz isso também.
Já pratiquei o bem.
Só queria, em contraponto, ter percebido. Ter percebido a tempo de nenhum já nem outrora algum. Ter apenas percebido a tempo.

Não é possível.

Caramulo, tarde de 6 de Fevereiro de 2007

Verbiversos

Tenho todo o tempo para enganar-me,
nenhum tempo para que me enganem.
O tempo do primeiro verso é porvir.
O tempo do segundo verso é passado.

As Trutainhas

Nadavam gordas e prósperas,
as putas das trutas,
sob as nódoas furta-cores
do óleo do barcos.
Ainda nadam: quando as sonho.
Caudalam frémitos alimentícios:
limpas porcas da água.
Desprezam suas espinhosas parentes de ninguém:
as tainhas.
Amam à distância salmões de cinema.
Com limão, melão e presunto,
são excelentes bestunto e unto,
as putas das trutas.
Aparecem em restaurantes improváveis,
grelhadas por brasileiros que
não puderam mais ser
futebolistas de carnaval.
São servidas a casais improváveis
e desamáveis, em folga de turno
de filhos.
As trutas são bonitas e putas e intocáveis
como mulheres vistas num comboio.
São quase azuis, as trutas.
E são feitas de água tridimensional,
efeito especial de Deus
em água doce e distraída
de arquitecto de bichos.
Eu falo das trutas para não dizer
recordações caudalosas,
cegos investimentos natatórios
da carne e do leite-de-figo.
Eu falo das trutas,
chamo-lhes putas
– e mais não digo.

O Vento Traente

O vento trazia, adágio, palavras de outros ares, outras (p)aragens. Eram soluços, nalguns casos. Digo: mulheres electrodomésticas ao fogão, queixando-se de quão antónimos são os teores das revistas de cabeleireiro às vidas delas, de cada uma delas, a vida (a truta). Escutando-as a elas e ao vento, tornei-me deveras minucioso, direi até que estenógrafo. Faço sempre isso. O vento zune nas casas afiadas de aflição. Os que vão emigrar, esses estão ainda nas casas absortas de cal, ao vento. Eu escuto o rumor do vento na cal. Eu escuto. Eu poderia escrever para uma dessas revistas um desses ventos, ao vento devolvendo, lento, o violento rumor das vidas, das trutas.
Promete-te que, o que o vento trouxer, tu escutas.

E depois fala-me das trutas.

Firma ou Cena

Quando o actor famoso morre e é celebrado morto pela agência funerária televisiva mais próxima, o pano não desce nem sobe. Está tudo – e tudo está – sempre em cena. Parece que nada é nunca a sério. Representação é procuração comercial, aliás. O vero palco do actor é nas costas do actor: aí dá ele cu e coração por comércio e procuração.

Entretanto, sobe o pano.

Carne-Oficina

Enorme, sobe o bebé
ao piso da assistência social.
Tem olhos e buracos:
é um animal.

Redondo, róseo, catolicizável,
o bebé não é amado mas é amável.
Merece a fruta d’ oiro ser nutrida?
Merece a puta-coiro ser lambida?

Não, não, não, não – e nada disso.
Uma coisa é fiambre. Outra é chouriço.

Caramulo, noite de 7 de Fevereiro de 2007

1 comment:

Manuel da Mata said...

"Já pratiquei o bem", diz o Daniel. E eu a pensar que ele pratica o bem quotidianamente, mesmo quando é mais cáustico e abrasivo.
Sei de fonte segura que nunca será um santo. A sua poesia tem outra filiação.