Saturday, February 10, 2007

AlfaBotto



1. O H. de Julho

Um bife frito com feijão verde cozido, num dos definitivos Julhos do nº 36, primeiro e segundo andares, da Rua Maestro David de Sousa, Figueira da Foz. Com H. Década de 70 do outro século.

2. O B. de Verão

Bolas-de-berlim rechonchudas de fritura com sua suculenta tira purulenta. Gelados de espicha-creme de framboesa química.
O Verão dantigamenteralento.

3. O M. de Exemplo

Quanta delicadeza nos sobra,
ao cabo de um dia mais,
gasto-entregue, o dia,
ao sorvedouro de dias chamado
pensamento?
Alguma seja, a delicadeza, ao
mínimo de nossos
mores exemplos.

4. O T. de Serenata

Lu’ álgida trem’ argentina.
Transparece, Sé.
Só se for prata.
Dá-me recados, menina.
Comparece à serenata.

5. O V. de Bondade

Boa é a chilra água do Mondego.
Algarve é pobrinho, peidoso e alarve.

6. Os NN. de António

Ai quanto, António Botto,
terás sofrido, então outrora,
a hora do shemale e do escroto,
perante que a Pátria corou e cora.

Levar e dar – tudo é cristão.
Só, infiel, a Pátria é que não.

7. Os DD. de Felicidade

Dizem, os pobres, que são pobres os poetas
– e pior: que são tristes e não viris.
Mal sabem (quem no-lo diz), os patetas,
que é só um modo de ser feliz.

8. O A. de AlfaBotto

Se um homem quiser,
sempre que um homem quiser
– ser mulher –,
ninguém tem nada (no cu) a ver com isso.

9. O Z. de Gazela

Sofássábados à tarde, ramerrando,
séries de ciências naturais.
Homem é bicho rebuscando
co’ comando o reino dos animais
que, fora dele, mutuamente se leopardam e agazelam.

10. O L. de Oliveira

Ao Senhor da Serra
subiu Carlos de Oliveira.
Jogou no Febres.
Abelha e chuva.
Serra.
Senhor.

11. O U. de Queiroz

Lavada, fresca, limpa, branca, clara,
perfumada janela
– se a olhaste tu, José Maria,
lá do céu.

12. O Ê. de Francês

O senhor Napoleão era pequenino e parvo,
mas nem com tudo isso era francês.
Corso foi, apenas.

13. O R. de Amarelas

Que mãozitas (com que cola?) estreliciam as janelas
da primária (dessa escola) que são belas e amarelas?

14. O G. de Portugal

Bols’ ácida funda (estomacal)
agita gases e despesas
de caves de Portugal.

15. O J. de Canja

Pela luz laranja
dum entardecer boreal
a prometida manja
era uma canja
de galo natural.
Faltou-me-nos o Ernesto
e eu se ainda presto
conto agora à malta
o quanto nos-me faz falta
à canja o Ernesto.

16. O Q. de Arqueiros

Diz-me outra vez, por favor, o favor do futuro
anunciado no mesmo dia do regresso das
barcas a Alcântara.
Os arqueiros-morteiros.
Os iriagranadeiros, as ceras-de-chorar-por-mais,
no Sabugal como na Jamba.
Samba, samba, que já’ lmoças.
Dá um peido e pinta-o de amarelo.
Água de colónias: ordem e progresso.
Por favor: tu ris-te mas a História é triste.

17. Os SS. de Best-Seller

Só os pastores deveriam comentar
o best-seller e os milhares
que o consomem.
Quem melhor que o pastor
para explicar cornos e rebanhos?

18. O C. de Escotilha

Submarinamente dormimos.
Faz de escotilha
a janela do quarto.
Emprestamos os nossos olhos
aos tubarões cegos
que, través de nós, passam
sem nos olhar.

19. O Y. de Cyrano

Também a mim aconteceu já o encargo
de por outro escrever a quem queria
própria.
Mas deixei-me
dysso.

20. Os OOO. de José Afonso

Natureza de albatroz vegetariano,
de humano andorinho:
mar primaveril, lupa de sal.
Em baixo nos via,
só de frente nos olhava.

21. O F. de Teleférias

Em menino, enquanto não era Julho e
H. me não levava para o 36
da Maestro David de Sousa,
gostava muito do Janeiro europeu
que a TV me dava:
saltos na neve e crianças nórdicas,
sky e ski, feéricos teleféricos,
oxigénio frio e boas, quentes roupas
de Inverno.
Julho chegava.
Ao sol da praia,
perante o mar escaldado,
eu repensava a neve januária.

Vim para a poesia por causa disso:
para estar, nunca tendo estado.

22. O X. de Enxuto

Entre o bar e o barbitúrico
o escroto e o escorbuto
o tolo e o telúrico
o chato e o enxuto:
tudo é nosso em estado bruto.

23. O I. de Poesia

Arte brutal.

24. O K. de Mikhail

Bulgakov conclui,
poucos dias antes da morte própria
(der eigene Tod tão cara a Rilke)
Margarita e o Mestre.
Mas conclui.

25. O W. de Somewhere

Trabalhar todos os dias e todas as noites,
a vida toda, para ser,
no final do Concerto de Paris,
Keith Jarrett em
Somewhere Over the Rainbow.

26. Os PP. de Despedida e de Para Quem

Quando, como agora acontece, concluo um trabalho,
pergunto-me (quase sempre, nem sempre): – Para quê?
Não obtendo (nunca, mas nunca) resposta,
evito a pergunto sequente.

Caramulo,
tarde e noite de 1
e tarde de 2 de Fevereiro de 2007