Friday, February 02, 2007

Mr Raymond e o Arroz entre Barcos - histª 58 do Anoitecer ao Tom Dela

1
Um jardineiro português apanha o comboio para Bristol às 6 e 45 de uma madrugada fria e chuvosa. Chama-se Raimundo, mas é tratado, com gentileza aliás, por Mr Raymond. Mr Raymond trata de todos os jardins particulares de Victoria Road. Às 4 da tarde, a noite inglesa alastra já como tinta preta por tudo o que existe. No comboio de regresso, Mr Raymond volta a ser Raimundo, português de Elvas que de Elvas saiu há quarenta e três anos rumo a Buenos Aires.

2
Raimundo era Garcia e padeira na metrópole da Prata. Aprendeu jardinagem, desenvolveu a arte e fez dela seu novo ofício. Os bons serviços prestados no jardim da embaixada britânica em Buenos Aires proporcionaram-lhe um convite particular para Bristol. Aceitou, tendo embarcado para a Inglaterra no dia 1º de Fevereiro de um ano que nunca cuidou fixar.

3
Nunca se habituou ao chá, beberagem que para ele continua associada à indisposição gástrica e à febre gripal. Em compensação, gosta de uma perna de carneiro assada e de sanduíches de pepino. Compensa a nostalgia dos tintos alentejanos com carrascão chileno e brancos californianos. À chuva perpétua de Sua Majestade, a essa já se habituou, benigna que é para a população colorida dos jardins de Victoria Road.

4
Mr Raymond já foi a Brighton, a ver o magma de estanho a que os Ingleses chamam mar. Comeu um gelado enjoativo de mirtilo e passeou sem metafísica ao longo das esplanadas de madeira apodrecida pela morrinha em pó que nada acrescenta à eterna maré baixa daquele Atlântico improvável. Em criança, Raimundo foi levado a ver as praias de Lagos, ao Sul do país a que nunca voltará.

5
Mr Raymond é um sexagenário atraente. O azul dos olhos do jardineiro envelheceu bem, adquirindo a pátina clássica dos painéis de azulejos. Mas é sobretudo nas suas mãos masculinas que a simetria estabeleceu para sempre uma formosura ímpar e par. Mora em Victoria Road a viúva de um carteiro. Chama-se Mrs Stonehead. Nome próprio, Gladys. Tem quase 70 anos, mas não esconde a ninguém o quanto gostaria de morrer assinando Mrs Raymond Garcia.

6
O problema de Mrs Stonehead é que Mr Raymond adquiriu, involuntariamente embora, a parcimónia por assim dizer sacerdotal dos solteirões de longo curso. Raimundo habita um rés-do-chão suburbano a 24 minutos de comboio de Victoria Road. A casa de Raimundo é quarto, saleta, cozinha e casa-de-banho. Não tem jardim.

7
Raimundo digere bem e dorme muito bem. É verdade que lhe acontece sonhar com as praias algarvias, essas safiras engastadas no ouro das rochas verticais de Lagos. Isso costuma acontecer-lhe sobretudo no decurso do breve e insípido Verão inglês. Mas depois tudo isso passa, como tudo. Uma vez por mês, Mr Raymond vai ao futebol e depois ao pub. Da última vez, o Bristol City recebeu e bateu o Stoke por 2 a 1. Foi um jogo tão morno como o par de canecas de cerveja preta que depois engoliu no Golden Lion’s Arms.

8
Mr Raymond nunca se esquece de levar consigo, todas as frias e chuvosas madrugadas de segunda a sexta, um pacote de arroz. Pelos jardins particulares de Victoria Road vai libertando os bagos, de conluio estratégico com os pássaros friorentos e miúdos que o identificam ao longe. A ideia de Mr Raymond é associar o direito ao arroz com o dever da caça à lagarta. Os pássaros cumprem a parte deles. Também os pássaros, como Mrs Stonehead, gostam muito das mãos de Mr Raymond.

9
Foi de barco que o ex-padeiro Raimundo Garcia veio de Buenos Aires para Inglaterra. Todos os homens quiseram, pelo menos uma vez na vida, ser marinheiros. Raimundo não é excepção. Ainda hoje compra revistas com o mar fotografado. Mr Raymond já prometeu a si mesmo que, na reforma, há-de ir aos mares do Norte da Europa a ver os barcos grandes. Certa manhã, Mr Raymond caiu na asneira de confessar esse propósito à sempre atenta e solícita Mrs Stonehead.

10
É claro que a viúva do carteiro lhe pediu para ir com ele. Com gentileza, Mr Raymond explicou-lhe que tal não poderia ser, que era um projecto demasiado pessoal para não ser solitário. Mrs Stonehead perguntou então a Mr Raymond se havia alguma coisa na vida dele que não fosse solitária. Mr Raymond respondeu-lhe que sim, que havia na vida dele uma coisa não solitária. Mrs Stonehead quis saber qual.
– O arroz – respondeu Mr Raymond.
Mas a velha senhora, ao contrário dos pássaros de Victoria Road, não percebeu.


Caramulo, tarde do 1º de Fevereiro de 2007

2 comments:

Provoc said...
This comment has been removed by the author.
Paula Raposo said...

Sensacional! Gostei desta história.