Thursday, November 16, 2006

As Áleas Sombrias

1
Quantas palavras te sobram ainda, novas?
Sabes que os temas (os fantasmas) permanecem.
Não sabes que palavras eles recriarão.
Aqui comigo, sentado, permanece também.

2
Aprecio a falta de medo das tuas palavras.
Gosto do teu desfuturo: tristeza e gás.
Gosto da desirmandade dos teus objectos:
parecem-me crianças velhas, petrificadas.

3
Aos pés da cadeira, as meias partidas de cansaço.
O dia foi-lhes duro, andaram muito.
Acabaram voltando sobre si mesmas.
Metafóricas por negras, por o lasso canhão.

4
Tu estás de pé à beira da lagoa de estanho.
A Lua e os carros devassam o bosque.
Animais fotocopiam-se em filhos, ritos.
E tu abusas da vida e abusas dos fritos.

5
Gosto do teu sexo rapace, rapaz, alto.
Dispenso bem a tristeza das gasolineiras.
Voltarás porém a elas, andante.
E à economia como à glotologia.

6
Com esses que a terra há-de comer, viste:
o marido de regresso, a euforia esponsal.
Imagens fascinantes, muito puras, eidéticas.
Tu viste coisas que o Diabo não desgravou.

7
Tu falas fundo como se uma faca foras.
Tu já entraste em abandonados sanatórios.
Quando repetes a vida do teu Pai – sorris.
Quando não repetes – sorri a faca.

8
Tu agora como sempre, ainda, novo.
A consolação da criança, o cão amável.
O estômago glauco de melancolia.
E as badanas de água nos livros de sal.

9
Os parentes ainda novos, desejando ainda.
As fábricas todas-todas em laboração.
Nada disto que agora, tu sabes.
Mais o senhor Araújo da Escola de Natação.

10
Do casamento contrariado do senhor do restaurante,
sabes também. Que só não leva no cu para
não perder clientes, o amor-de-Mãe (Angola, 1967),
o respeitinho, um lugar na lista de vereação.

11
Quantas palavras, vês (vê), te sobravam ainda,
afinal. E permaneces; e continuas; e dizes:
este é o corpo do meu poema: toma-o tu,
dizes-me. E eu bebo-o em sangue, não é nojo.

12
“Tempos do caneco”, ouves dizer a um homem.
Fala da guerra que foi, lamenta esta paz
delicodoce, exemplifica com dedos-números.
Ele fala – tu ouves a música dos pulmões.

13
O ouro é a graça. A Lua é a prata.
Gosto do teu coração vertiginoso, do teu coração-cantor.
Gosto da tua morte: gás e tristeza.
Serás uma petrificada, velha criança.

14
O caracol cosmogónico como uma azeitona,
um búzio, um ominoso recado maternal
com erros de ortografia: “estam ovos no
frigerifico, não enchas o fugão de gurdura”.

15
O carinho disto. O desejo de morrer e o de viver.
As áleas sombrias: os dedos dos pés daquela
mulher lavada que cortejaste sem sucesso,
mas uma filha. Da puta, segundo as más-línguas.

16
Maravilha, tanta palavra. Tanta nova palavra.
Recombinável aditernum, a sacana.
Como cifra económica, como perpétua puta:
a palavra nova: lagoa, estanho, fotocópia.

17
Sim, permaneço sentado. Não me deixes, só.
Ouço o marulhar dos teus intestinos.
Injecções proteicas alfinetam-te as intestinais vilosidades.
És um homem num café serrano, só.

18
Quando as moedas de escudo eram de níquel.
Lembra-te lá. Isso dói-te? Lembra-te.
O pedinte tocou a porta, a Mãe abriu-a.
Ela deu um escudo, pediu de troco cinco tostões.

19
O teu Pai assistiu ao vento de 140 km/h na recta da Adémia.
Quatro figuras protegiam-se do vento com mata-cães.
O teu Pai recordou, quase até o fim, dos quatro:
os pés chinesando sob os chapéus, ao vento vital.

20
Todas as combinações riscadas: Tottenham,
1970, Elias Rodrigues Faro, Picoto, Canino,
Dourado, senhor Sacramento, Brochiminete,
Chicha, Shartela, Miguel, Sharp, Underwood.

21
Lembra-te da tua primeira dignidade:
quase não foste um apedrejador de pássaros.
Depois, mataste. E continua-lo, riquinho.
A tristeza em Lisboa: nenhum barco colonial.

22
Era que já todos tinham vindo, amor (Guiné, 1969).
Uma alface à contraluz no slide do teu irmão.
O sabor da primeira desinocência nos dentes.
Matt Marriott pretibranqueava a amargura.

23
As pessoas já morriam antes de haver telemóveis.
Conseguiram encontrar-te para to dizer, não foi?
Foi. E tu compareceste. E tu permaneceste.
Daí a devassidão dos estanhos, das lagoas, da Lua.

24
Não era a vulva. Não era o dinheiro.
Era a parte de trás do prédio, mais isso.
A tua criança estava ali em ti, adulta muito.
Muito cedo, digo. Cedo de mais, digo também.

25
Reparaste decerto já que te não anuí razão?
Sim, que a não tens. Nem o contrário dela.
Estás vivo: o papel fixa isso.
Estás a morrer: o papel idem.

26
Aos domingos de manhã, os pedintes e os tremoços:
o mundo à porta; e as moedas de dez tostões.
Só não me entregas o que não podes.
Eu estou a falar do futuro, deixa.




Caramulo, noite de 13 de Novembro de 2006






5 comments:

Paula Raposo said...

Sem palavras...tudo me parece perfeito.

Anonymous said...

"do real e do imaginário
a cabeça que entra e sai
é motivo extraordinário
de quem se vem com um ai

e quem chupa morde e sua
com toda aquela paixão
quem se entrega de alma nua
é uma mulher de tesão"

JP Gonçalves said...

Problemas?!...

Fanette said...

"textos regressam": o prometido não é devido? {}

Paulo G. Trilho Prudencio said...

ufa!!!... e escreve como respira.