Sunday, August 07, 2005

Febre

Umas sombras cruzam com rapidez o olhar, turvando por pedacinhos de segundo a claridade e a disposição das coisas mundiais.
No pulso, o batuque cardíaco everesta gráficos abruptos, o que não mata mas desassossega.
Na abóbada, lá onde o porão sobe em curva para acomodar a noz mental, bobines de sonhos emaranham-se pelo negativo, projectadas à noite para revelação dos vários papões do dia.
No tudo, uma quietude embaciada no viver.
Externos, os incêndios lacram o sol, debandam as aves, timbalam os coelhos e desenrolam as inócuas serpentes portuguesas, tudo quanto é bicho do mato vindo morrer à estrada por onde silvam uivando sirenes vermelhas e homens fardados de serapilheira azul e de caras vermelhas como rubis congestionados empoleirados em machados e mangueiras.
Perto desta paragem, há um rio que não corre.
Adormeceu apodrecido como um rodapé ilegível.
Os peixes já nascem cozidos.
Libelópteros iridescentes heliçam-se à pele morta da água, raspando as patinhas uns aos outros.
A luz queimada raspa os últimos pinheiros.
Um sono de febre toma os últimos homens.

Eu poderia dizer, apenas, que me não tenho sentido muito bem.
Mas um bocadinho de literatura também não ofende para fora nem agrava para dentro.



Tondela, num mau domingo, 7 de Agosto de 2005

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