Monday, August 01, 2005

Sete Fragmentos da Totalidade Impossível


1. Os senhores Araújos, Cerqueiras, Fernandes, Santos, Paivas, Ferreiras, Borges, Gomes, Quintanilhas, Amados, Venturas, Chapas: todos vivem, morrem e chovem.

2. À noitinha, pelo fresco, o casal gordo vai à festa da vila. Ela leva um banquinho de campismo para esborrachar as nádegas durante o chô do pcantorimba. Ele vai de sandálias de plástico, descuidado o negro das unhas muito crescidas e muito amarelas de condutor TIR. Eles não questionam a felicidade, logo são felizes. É deles, o Verão.

3. Uma pessoa gosta daqueles e daquelas a que chama 'seus'. E, gostando-os, pertence-lhes.

4. À hora do chá, um saco de bolos secos sobre a mesa da cozinha. Rumor de fundo, a rádio regional. Instalação de moscas no ar quieto. A luz puntiforme filtrada pelos estores escorridos. Agosto de giz.

5. Quase tudo implica um combate, que devém incessante. Salvaguardam-se uns poucos instantes, à sombra espessa da árvore do jardim que não plantei.

6. Um grande chapão de sol na relva crestada. Boceja o cão magro que se deitou à sombra do muro riscado de rápidas sardaniscas. Os caixotes de lixo repletos e esbeiçados de cartão, restos de peixe, sacas do Continente.

7. O resto é ter cuidado com as evidências: elas não gostam de nós.


Pintura: Golconde, de René Magritte
Texto: Tondela, tarde de 1 de Agosto de 2005

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