18/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 140 a 145 (com lamúrias hipocondríacas, o 140 & o 141)

© DA.



140

Quarta-feira,
17 de Março de 2021

    Mundos paralelos: no automóvel estacionado em frente, um rapaz-pai com seu bambino na cadeira-de-segurança atrás. A jovem mãe foi lá dentro à hipermercearia, enquanto, à sombra, a esperam os dois homens da sua vida.
    A luz da manhã (que acaba) vem hoje envolta em celofane térmico superior, parece-me, a vinte graus centígrados. O azul da abóbada é prístino, lavo nele os óculos pitosgas. Sim, saí hoje de novo ao mundo a que os outros chamam seu também. Ando muito saído. Para mais, é quarta-feira, pelo que vou logo (17h30m) ver o meu Irmão.
    Prefiro horas mais frescas, frias até. O envelhecimento tem-me tornado mais vulnerável à caloraça. Por seu lado, o militante tabagismo que (faz em Setembro próximo quarenta anos) tenho diligenciado a preceito não subsidia o refrigério. Outro achaque recorrente: a região do ombro direito, cuja articulação range à maneira de gonzos de mosteiro abandonado. O costado é-me uma placa de ferro. O pé-esquerdo padece de clareza funcional, fazendo-me marchar de esguelha como algum arrependido do comunismo. De resto, quase tudo muito bem.
    Há semanas que não levo de cabo a rabo uma leitura integral. Tenho borboleteado por volumes já antigos, sobretudo relendo coisas que estreei há três décadas, e mais até. Não gasto pressa. Sou nisso mais sensato do que outrora.
    Foram-se embora os três: moço-pai, moça-mãe, bambinito de ambos. O veículo (Ford Focus escarlate) lá vai trotando como manso cavalicoque. Levam resolvida a matina. E eu, a minha: tratado está o papel a que, aliás, poderia ter dado despacho ontem. Acto facílimo. Pela tarde nova, cumpre-me fazer a dactilografia das linhas de ontem, via & vida em curso. E as bolachas? Comprei hoje as bolachas, lápis frescos, um ramo de verdes, um chouriço & uma farinheira. Livro nenhum.

141

De algia constante no costado,
fácil não é factura de sonetos.
Por este andar, não chego a ter netos:
o ’squeleto me anda avariado.

Derredor o pescoço, ranjo todo.
Um joelho já trago carcomido.
De tanta idade ter, ’inda me fodo:
de tanto me foder, estou fodido.

E eu que corri já bons oitenta metros
em nove vírgula quatro segundos!
Moço mestre fui de mundos & fundos

e a Satanás rosnei vades & retros!
Dorido o corpo todo. Tão dorido,
que, se não fodo alguém, sou eu fodido.

142

    Solar alacridade do panorama, luz de paleta múltipla, beleza impessoal do mundo à vista. Tenho lápis novos, sim – mas é com uma ponta antiga que escrevo, descobri o tôco no bolso do casaco, vetusto este também já. Venho de particular excursão a ver um Irmão: amendoeira que flor deu já – e Abrunheiro chamada. Pouca alacridade, afinal.

143

    Já não pertence à roda dos vivos o cavalheiro Lurdo Rebelo Pais Pelica, cabeleireiro de boa-fama nesta Cidade às vezes triste. Levou-o uma infecção pulmonar assaz agressiva. A moléstia devorou-o em quatro dias, sem aparente índice prévio.
    Muitos anos antes de tal fatídico desfecho, Lurdo exsudava alegria-de-viver. De propensão petisqueira, era vê-lo amiúde manjando nas melhores tabernas da Baixa. Jaquinzinhos, ossos, favas-aporcalhadas, meia-desfeita – sempre com broa-de-milho & sempre com vinho, que era tinto-maduro sempre.
    Sexualmente, era bífido; pessoalmente, um encanto. Eu quase namorei uma de suas ex-mulheres, a Branca, que aviava lápis & pés-de-alferes na papelaria-tabacaria do senhor Germano.
    É morto ora Lurdo Pelica, tem bem menos graça esta Coimbra que tantos tanto amamos. A minha geração vai subindo à Conchada do não-retorno. Moda recente, o crematório de Taveiro a muitos volve cinerários. Um de cada vez, a sua, enfim.
    A melancolia torna-me por vezes portador da pena de sobreviver a cavalheiros da estirpe de Lurdo Rebelo Pais Pelica. Depois, felizmente, passa-me a toleima. Agora que andamos todos de máscara, mais olhos-nos-olhos é que V. digo: Viver não é a pior coisa possível antes da morte. Ou, por náutica alegoria, assim: Antes de Titanic, ir sendo Beagle. Digo eu mui sozinhamente, agora que Lurdo etc.

144

Vi-o em penumbra.
Radiosa tarde porém era.
No pátio, os gatos gordos.
Uma estátua de pedra suave.
Pardais na figueira velha.
Serventia de terra mole.
Não havia fala a mais.
Nem muito que repetir.
Deram as seis da tarde.
Já tinha tudo emalado.
Faço por pensar menos nisto.
Distrai-me olhar o comércio.
Arrumo coisas já arrumadas.
Separo roupa por estações.
Há muito não vou ao mar.
Por enquanto, lido com isto.
Calçado em boa ordem.
Caixas apetrechadas de restos.
Faz sentido não buscar sentido.
Ando nisto há muitos anos.
Vi-o senhoreando alheia praia.
É outra a maré, outra a lua.
Versos já nos uniram, não ora.
Estes são meus apenas, sim.

145

Revoam folhas por chão alheio.
Faço de conta que as conto.
Só a morte nos iguala a todos.
Diferimos por natureza, é tudo.
Ninguém conta as folhas.
As árvores não as paginam.
Não faço contas – nem as presto.
Quase m’apetece lamentá-lo.
Passa-me depressa tal quase.
Mais simples, mais rico.
Menos verso, menos rasto.
Vai-se pela diferença sem amparo.
Encontramo-nos nos matraquilhos.
Lembrar é político, desassossega. 

17/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 134 a 139


134


Terça-feira,
16 de Março de 2021

    Ouço vozes.
    Não alucinadamente.
    A máquina fá-las falar.
Um homem chamado Guilherme Botas, defunto há muito. Outro: Eduardo Veras, prisioneiro há vinte anos por autoria-intelectual de um triplo-homicídio. Interessa-me escutar como entoam a sua oratura. Bastantes mais fazem procissão pelo adro da minha atenção. Não vou por simpatias ou repugnâncias: toda a entoação me interessa. Osvaldo Tura, cultor de messianismos de pacotilha. Jonas Salgado, topógrafo de ofício, escultor de miniaturas por íntimo chamamento. Penélope Trina, historiadora de trânsito urbano. Adriana Bosque, carpinteira, figueirense de nascimento, daqui tão perto. Galeria acústica rica – não me sinto só.
    Massiva correspondência é facilitada pela maquinaria hodierna. Joga-se muito no pano-verde dessa ilusão. Ouço vozes de gente que se perdeu sem autocrítica no turbilhão da propaganda. Gregório Seixas, pai-de-família, aterrorizado por desconhecido abismo desde menino. Somos vizinhos intermurados. A tempo, percebi que é possível aprender sempre – não tudo, enfim, mas muito do que as vozes versam. A senhora Clementina Rodrigues lava a igreja há quarenta e cinco anos. Não se lhe conhece um suspiro, um arrependimento, uma ambição, um despeito. O Jesus dela é lavável. A voz dela não treme nem brada. A menção a Clementina faz-me recordar um homem suave, civilizado, adepto de literatura-detectivesca, que era padre católico. Chamava-se Saul Olival, era já anoso quando, por duas vezes, conversámos. Não era expansivo. Era, antes, algo melancólico. Referi-lhe & recomendei-lhe a bibliografia de Nicolas Freeling. Ele manifestou-me genuína gratidão. Estas pequenas coisas dão valor vocal à existência. O que se disse – mas sobretudo o como se disse. Tudo documenta a qualidade eterna da efemeridade. Do crime à esmola, da tara à bondade, do segredo à interrogação, da escada à poça.
    Celeste Vargas, desde florita, dança.
    Na praça, entre o espelho-de-água & a loja verde.
    Cãezitos curtindo o sol, pombas filmando o chão.
    Nomeio as vozes na ilusão da pró-inteligibilidade: Gil Marta, livreiro; Adelina Montarroio, doceira; Apolo Tambor, oleiro; Virgílio Sames, piloto; Abel Parque, fotocopiador; Telmo Rios, agrimensor; Hilária Botelho, hoteleira; Selma Filipe, herbanária; Celestita, dançarina. Todo este povo audível vozeando sentidos. Ninguém parece imune à perversidade. A virtude é menos atraente, parece. E as ambulâncias, de vez em quando, rasgando a noite aos gritos, urrando uma pressa que alvoroça, gélido azul, gume vozeado. Topónimos próximos & distantes mapeiam mentalmente a prodigiosa quimera da una diversidade do mundo. Sara Martins, de Alcoentre; Sabine Kaltz, de Wien; em Tentúgal, Abílio & Justina, em Tacoma, Michael & Lorraine. Alguém lhes é de sangue. Algo sonham. Alguma coisa temem. De muitos se recordam. Talvez até projectem. Eucaliptos na aridez do acesso ao deserto. Ângela Silva, de Setúbal, enfermeira-geriatra, ela mesma já entradota. Ouço-a falando à porta do prédio com Fernando Mendes, o carteiro. Fecho os olhos para ver as palavras que trocam. É o meu jogo favorito. Sempre foi. Sê-lo-á sempre.

135

    Acabei saindo um pouco, fiz-me por a tarde meã à Cidade. Ainda o prolongado esvaziamento faz dela uma espécie de estrangeiro. O sol é largo, até o frio foi exilado. Haver gente, há. Não se dá todavia bulício. Bate o sol na despojada quietude aldeã da dita Lusa Atenas. Acabei não trazendo moedas suficientes para o que me propunha. Vou ter de escolher: bolachas ou lápis?
    Em pleno Março meado, as sombras refrigérias da Sereia dão-se-me com a bondade de sempre. Não é mau, estar vivo través seus panos oxigenados. Torno depois volta por Celas, Bissaya Barreto (ex-casa do meu Irmão Zé, mais sítio do malogrado doutor Moura Relvas), Afrânio Peixoto, Olivais, Espírito Santo-que-Deus-tem. Ter por aqui vivenda – não seria a minha pior ideia. Tovim. Ares altos, luz supina. Elísio de Moura, Solum/Calhabé. Conheço isto, reconheço-me nisto. A este in loco pertenço. É tão minha identidade quão o nariz que levo à cara. Já decidi: guardo o moedame, nem lápis nem bolachas, hoje.

136

Sento-me em pedra talhada, miro um palácio de remotos afonsinhos.
Já aqui tenho escrito, mais vezes aqui assentei praça redactora.
Até aqui, vi alguns mendigos: quebrados, barbados, sozinhos.
E mulheres de sacos-compras, raça invicta, reproducriadora.

Mascarilhada galeria destes dias claustrais & pandémicos.
Toda a gente quer Abril, ao sol de remoçada liberdade.
Macilentos, os semblantes nunca foram tão anémicos.
Eu ando de ferrugem óssea, anquilosa mobilidade.

Tenho autocarro às seis (dezoito, pela volta redonda).
Não tenho é vint’anos, sigo ao triplo de tanto.
Inexiste do Tempo quem s’evada & s’esconda.
É Ele o vero único global esperanto.

137

Cedros, ciprestes:
labaredas prestes
a fulminar o céu.
(Antes ele que eu.)

138

    Correu para o ralo a terça-feira – sem que me tenha sido possível resolver as ridicularias contemporâneas, de que é exemplo-mor a “linguagem inclusiva de género(s)”. Puto que pariu tal merda politicamente-cu.

139

    Anda uma pessoa na rua. Impediram o trânsito automóvel, escavações de saneamento em curso. Tem chuviscado a intervalos. Ainda decorre a manhã. Num quintal de vivenda próspera, o pinheiro-manso parece um urso molhado. A luz é mercurial. Muita gente a acha deprimente – mas não esta pessoa. A esta pessoa, interessa saber como está a avó. A velhota tem estado doente. Vai a pensar nela quando entra na pastelaria para tomar uma bebida quente. No momento em que lhe trazem a meia-de-leite, desaba a monção. Correrias trôpegas, inabilidade de guarda-chuvas, interjeições chocarreiras. Isto tanto pode ser a vida toda quanto a vida parecer metade de uma manhã. Outra pessoa cuida da velha senhora. É paga para isso. Tem feito um trabalho limpo. Há um par de dias que a avó não fala. Tenta mas não pode. É o crepúsculo dela. Meia-de-leite-pão-com-manteiga-três-euros-&-dez. Seiscentos-&-vinte-escudos-dos-antigos. Toma-&-embrulha. Autocarro da linha 7. Em poucos minutos a verá.
    Queria falar-Vos hoje, ainda, de outras figuras. De Manuel Damião, que trabalhou sempre: balconista de informações, guarda-nocturno, ajudante de motorista, servente de pedreiro, explicador de Latim-Grego, nadador-salvador. Casou-se já depois de ter (des)feito cinquenta anos. A senhora dele, senhoria de dois prédios, precisava de um auxiliar, condoeu-se do seu ar de urso à chuva, o seu ar de pinheiro-muito-manso. Correu bem a Manuel Damião, não pode dizer-se que não.
    D. Julião Sarmento, outra figura da minha caderneta. É operado na terça-feira naquele hospital privado ao pé do antigo observatório meteorológico. Tiram-lhe o baço, não sei se mais alguma coisa. Com outros nomes, outros empregos, outras condições, tem sido meu amigo toda a vida adulta. Espero que lhe corra tudo bem. Andava amarelado, má cor quando não de flor.
    Cão velho, quase cego, dormindo na varanda. Que memórias lhe ladrarão na bruma? Que lhe dá Morfeu?
    Impilo meus aludes. Gravura de habitação com telhado de colmo. Estado colabescente do muro de terra coalhada de pedra. Na noite estabular, a quietação dos cavalos em recolhimento – como monges de paz com o Ser-Orado. Mansidão das esferas astrais, qualidade etérea do esquecimento. Viúva mais de quarenta anos, ainda assim a velha Cristina manteve em labor a azenha que peça a peça o homem da vida dela ergueu a favor da água. Flicto os meus nós.


16/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 131 a 133


© DA.


131

Segunda-feira,
15 de Março de 2021

    Jaime Cristóvão Alano Leifilho leva hoje as filhas à escola. A corrente segunda-feira é de sol aberto través o vazio regulamentado. As crianças vão contentes. De seguida, Jaime vai à loja Galho & Dardo. Entra pelas traseiras do estabelecimento. Retira da secretária alguns pertences pessoais, deixa o resto como estava. Na volta, abastece-se de mercearias para a semana toda. À tarde, vai ver a mulher. Cama 13, Enfermaria 0-2, 4.º Piso. Leva-lhe malmequeres de sentinela a uma rosa singular & amarela. É um arranjo bonito. Idália, esmaecida, gosta muito. Jaime já foi buscar as meninas. Bacalhau gratinado no micro-ondas. Televisão até às dez & ¼. Chichi-cama.
    Paulo Rogério Planta Franklin desenha a carvão: duas crianças com um cão. Descalços os três. Lanterna, barril, alpendres de tábuas sujas. Pessegueiro em contrafundo. Outro desenho: casal de cegos à esmola, acordeonista ele, ela de trela a um pastor-alemão. Paulo gosta de cães. De pessoas também, mas menos.
    Talvez Leonardo Miguel Pestana Igrejas venha a ter saudade deste par de anos. Não sei. Quem sou eu para saber? Aliás: quem sou eu? Que é ser?
    Leonardo Miguel Pestana Igrejas trabalhou muito na reorganização dos escritórios cuja firma é sita na Fernão de Magalhães. É trabalhador dedicado, sempre foi. E leal desde a medula. Teve boa-criação dos idos pai & mãe. Reforma-se por idade legal em Maio próximo. Que é ser Leonardo? Não sei.
    Jorge David Jonas Veludo tem a varanda de casa oferta ao rio. As ferramentas, arrumadas por ordem de utilização, na garagem-oficina. Pouco-nada-zero lhe importa o muito-tudo-milhão que digam & maldigam de seus feitos & defeitos. É conforme a seu caminho como à sua caminha. Nada mais, nada menos

132

Ainda o rumor de existências alheias dá fruto em escrita
Ainda alguma vida faz por si mesma em plano-aberto
A noite é de frequência diária, a ninguém engana
Cada um com seus tarecos mais ou menos prestes.

Ainda algumas ruas farei em modo través-bosquete
Malficiente o dia em que o não puder assim a sós
Sigo as regras sobrevivenciais de unhas roídas, sim, mas
Mas a palavra-justa ainda acontece, hei só que labutá-la.

133


Cultivar & negociar baunilha em Madagáscar.
Isso foi caminho de Rafael Monteiro.
Seis anos, tudo bem; ao sétimo, a doença.
Era maleita sem contemplação nem piedade.
Regressaram-no de avião muito à pressa.
No antepenúltimo dia, exigiu a alta, quis voltar.
Voltar à aldeia original, ali adormecer de vez.
Faz-lhe o irmão a vontade, solícito André.
Rafael desliga-se de tudo na terça-feira, 23h15m.
André vai a Madagáscar, liquida o negócio.

Rafael não pode trabalhar o Tempo, já não.
André nunca quis deixar Portugal, isso nunca.
Também ele é produtor agrícola, única parecença.
André porta diversa índole, mais quieto cariz.
É bicho solitário, não o atrapalha a solidão.
Tratou dos assuntos do irmão o mais limpamente.
Tem uma meia-irmã com quem se não dá.
Rafael tem campa perto da dos pais.
Alma decente, vagueia ao luar ultra-romântico.
Fantasma, cheira vagamente a ilha & a baunilha.

15/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 130

© J.D.A.


130

Domingo,
14 de Março de 2021

    O corrente domingo é de sol aberto través o vazio decretado. Não é dia para, vinda a noite, ir de wine-&-dine com alguém. É antes de pantufar pijamamente pelo tugúrio próprio. Tem a sua graça, apesar de tudo. Não é necessário forjar aparências frustes. É mais de ir anotando minúcias que à mente sobrevêm. Como aquela de 1977, durante a solar Volta a Portugal. Terá sido esse o ano de Adelino Teixeira? O Tio Alberto era vivo. Passados três anos, já não. É muito ano, muita década ardida já. Planos para o Verão que se segue? Nenhuns. É deixar arder. Vi ontem uma série de imagens narradas sobre a terminação física de Miles Davis. O grande músico sofria. A morte livrou-o de quaisquer dívidas ao sofrimento. Temos a música dele ao dispor, liga-se a máquina e ela jorra impetuosa. É muito boa, a música de Miles Davis. O Tio Alberto não era músico. Foi cesteiro de boa qualidade. Atravessou a vida como quem vai ali ao deserto sem ao menos uma garrafa de água. Sei isso. Mas é domingo, o sol faz do mundo paleta, tudo parece mais ou menos bem, para uns mais, para outros menos. Olho de seguida o rosto de Rainer Maria Rilke. É visão forte. Está ali olhando-nos vivamente. É um gigante. Vou de quando em vez às páginas dele. Regresso sempre saciado. Penso nele como quem vê um homem passando a ponte fluvial. Alguém num quintal amanhando plantio. Outro domingo, um desses domingos de há cem anos, quando aquele rosto se movia em a bruma. Como pó-de-ouro, minuciosa poalha-áurea, o rosto do poeta Rilke infiltra-se, tal recordação, no catálogo espectral que me acompanha. É onde há muito residem o Tio Alberto & o músico Miles D. São seres interiores. Posso referi-lo em alguma conversa pertinente – mas não hei de momento quem a quem possa tal interessar. Estou sem planos para o Verão – mas pretendo, ainda este mês, ir a compras mínimas: lápis novos, claro; dois isqueiros; cargas de tinta-permanente; bolachas (canela, limão, baunilha, maria); meias de lã; algum livro. Distraio-me – e então surge a gravura da mulher com gato ao colo, em fundo a barraca onde vivem ambos. A mulher semicerra o olhar, o animal dorme em aura de santidade. Os anos entre mim & a gravura põem-se a bater a cauda, espuma esparadrapa pepitas baças, farrapos & traças, o Tempo é doido, uma pessoa pode perder-se nele como ante um muro sem depois. Ao longe (mas não demasiado longe) alcanço o cume onde viceja a antiga Póvoa do Pinheiro. Já entardenoitece sem regresso nem remédio. Já me ocorreu mirar estas paredes. O jantar está garantido. Li o topónimo Swansea num conto de Rachel Gould intitulado Thucydides. Agora, porém, são estas linhas mesmas que leio convosco. Um homem negro pergunta qualquer coisa a um recepcionista de pensão (quartos ao dia, à semana, ao mês, à década). Um branco grisalho veste o casaco, que é azul, de bom corte, amplo, próspero. Tudo isto partilha a solidão do domingo. Não há que (nem como, aliás) ter pressa. A morte, tal o jantar, oferece garantia. (E garantia não é contracção de garanhão com a irmã-da-mãe-ou-do-pai.) Vi o rosto de um catedrático de Letras, hoje extinto mas à data da fotografia moço ainda. Esse jovem professor sorri. Era linguista, estudei por o manual dele há quase quarenta anos. Monteverdi já soou no pequeno gabinete onde dactilografo os manuscritos possíveis. Também a bela luminosa Damrau já cantou. Outra coisa: desde anteontem que o meu telemóvel recebe condoídas & solidárias & carinhosas mensagens lutuosas. Parece que o pai de uma senhora T.B. morreu. Pai dela, não meu. Ora, alguém deve ter distribuído o meu número por essa malta toda. Não conheço a nova órfã, não conheci o senhor seu pai. Conheci o meu, que se re-uniu a seu irmão Alberto há quase 27 anos (Abril próximo, dia 24, redondos 27). Já me fazem sorrir, estas mensagens perdidas de alvo. Ainda respondi a algumas – mas continuam outras chegando. Quando o meu Pai morreu, eu não tinha telemóvel. Não se multivulgarizara ainda tal penduricalho. O telefone era fixo como as estátuas & as árvores & os remorsos incontornáveis. T.B. & eu sabemos como é não olhar para cima. Só o Tempo pode servir de soro-fisiológico, por assim dizer, a tal tipo de luto. Ou então Karlheinz Stockhausen em modo Erwachen para violoncelo, trompete & sax-soprano. A máquina dá. E o auto-retrato de Albrecht Dürer. Tudo encontra um lugar – até o esquecimento, parece. Até o ex-domingo, no cemitério dos dias.





14/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 124 a 129

© Mário Eloy


124

Sábado,
13 de Março de 2021

    Não é obrigatório estabelecer comunhão (= comunicar), seja com quem for, por dá-cá-aquela-palha. Antes o silêncio a tudo pondo em-pratos-limpos. Antes não dar-com-os-burros-na-água, sobretudo se águas-de-bacalhau. Antes bracejar alto-lá-com-o-charuto.
    O parágrafo anterior é apenas divertimento. Não é comunicação. Complicar & simplificar encontram-se em vãos-de-escadas que fedem a mijo – nem todo de gato.

125

    Luzia deveras luzia, ela sim, toda de luz.
    Esplêndida moça, grácil raparig’ameninada.
    Olhá-la era ver derredor mais nada.
    Luzia, cândida rosa, Luzia Maria de Jesus.
    Não sei que seja (des)feito dela. Sei que outrora se casou com um rapaz do Minho, ouvi que se descasou sendo já mãe de três ou quatro mamões, mais não sei. Há boatos. Um, que fez vida em Lisboa nas tabernas cujas noites duram décadas. Outro, que se amasiou de um engenheiro da Câmara de Penela, irmão do presidente vitalício da mesma. Tretas, tudo tretas. Gostaria de sabê-la bem, recasada ou não, rica ou remediada. Tem na minha lembrança um lugar de favor. Gosto dela luzindo. Sombra lhe não deito, mal lhe não quero, bem sim.
    Vem, sim, à lembrança sua passagem.
    Era, sem andor, seu andar de imagem.
    A luz a cegos voluntários oferecia.
    Santa & boazona, boazinha & Luzia.

126

    Uma saída feliz – aquela para lá das colinas, essas derradeiras que raiam ao horizonte a foz da montanha. Íamos no Peugeot 404 azul que o Ramiro Parteiro emprestara ao filho. Este, ao volante, ia muito concentrado na tarefa. Ao lado dele navegava o Ícaro Mota. Atrás, éramos o João Joca, o Bimbas Mateus & moi. Lá fomos para bandas de Aveiro. Fizemos Ílhavo, as Gafanhas, ainda rolámos o nosso pedaço. Na volta, almoçámos na Malaposta. Era para ter sido na Mealhada, mas foi na Malaposta. Vimos gajas fugazes atracadas a outros, que nem Peugeot tinham. Vimos a fímbria azul do mar sob um sol verde, ferrete o sol duro. À passagem por Portunhos, desatou a chover. Arribámos a Ançã, fomos a casa do Godolito, o bravo Lito do FerryAço. Bebemos vinho, comemos presunto, queijo, broa & nozes. Nisto, fez-se noite. Bebemos café com cheirinho na Cidreira. O J.J. ficou na Póvoa do Pinheiro, o Bimbas em Antuzede, o Ícaro ficou na Adémia dizendo que ainda tinha de ir à cera, o Mirito & eu no Loreto. O século era outro, o milénio também. E só eu & o Bimbas estamos vivos. Já não saímos nem somos felizes.

127

    Esta teria sido uma boa noite para passear. É fria, vivificante, limpa. Não pode ser de passeio: continua o mundo em a prisão-preventiva chamada confinamento. Parte do serão, usei-o ouvindo: Vivaldi, Händel, Bach, Paredes (o filho). Ele ainda há caminhos em casa. Modos de ir, ficando. E modos de ir ficando.

128

Território aberto ao nevão de seis dias íntegros.
Solidez escura da mata esparsa sarapintando.
Fria antiguidade impiedosa deste mundo.
Com as altas fundas silveiras estelares: partilha.
Uma pessoa pode aqui existir sem algemas.
Plantas & minérios trabalham em cumplicidade.
Cada animal é por aqui verso cursivo.
Nada que enganar-se, nenhum pagamento.
Uma noite, à face do lume domesticado, fala-se.
O abrigo abriga quatro, desde Janeiro aqui estão.
Conta um o que ouviu no entreposto central.
Um afogado que andava ao salmão, parece.
Deveria ser caloiro nestas solidões, em solidão se foi.
Assim vamos todos – sentencia outro.
Mais salmão sobra – um terceiro.
Eu sou o quarto, e calo-me.



129



Destes dias, ao menos se guarde algum testemunho.

Sobra-nos tinta, papel nos não falta ainda.

Temos de mais deixado andar, correr, fugir, não-ser.

Tão exíguo o rasto é de doentes sem raízes.

Semblantes esmaecidos, muitos há a janelas quebradas.

Em arredores portuários, figurinos ao frio se inclinam.

Não acusemos a sorte, a falta dela, dela a indiferença.

Seja a demora o que nos pensa.







13/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 122 & 123

© DA.


122

Sexta-feira,
12 de Março de 2021

Os anos, que tudo levam, algo vêm trazendo.
Tenho-lhes dado, aliás, alguma ajuda.
Zero de autocomísero-deus-me-acuda.
Lucros alheios não me fazem ir perdendo.
Sob o lanço da via-rápida, entre pilares,
estava o evangélico-apocalíptico rapaz.
Queria anunciar-me Jesus vencedor de Satanás,
em cartaz pichado de letras espectaculares.
Tive pena dele mas por instantes breves só.
De meus pecados vivo em mui avara poupança.
Não tocam os dedos o que o olhar alcança.
De resto, lama é lama, ao sol é pó.

123

Mimi das Neves, alva flor da minha rua,
de inocentes, leves mãos de princesa.
Lembrança grácil, a minha, de sua
maturada natura, madura natureza.



12/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 118 a 121

 



118

Quinta-feira,
11 de Março de 2021

Era pelo aclive elevadiço ao pico geodésico.
Dava no funcho o favónio frígido benfazejo.
Tudo vinha ao dispor sem ânsia ou desejo.
E sã nos era a mente ao modo físico.
(Foram estas quatro linhas o que disse às vizinhas.)

119

Quando em ouro sangrava o poente
E em casa os Pais me ainda eram vivos

Passando de cinco a dez-réis de gente
Já da Beleza meus olhos cativos

Vivi talvez então éter-idade
Morrer nem era então necessidade.

120

    A estalagem do porto abria portas toda a noite, muitas vezes Rama & eu lá fomos às tantas para grandes canecas de café com pão-escuro, queijo de cabra, manteiga fresca, por aí. Fora, a água murmurava nas ilhargas dos barcos represados. Estivadores & marinheiros, professores reformados, mulheres-de-aluguer, um que outro poeta-pintor – tal era a fauna mor. Rama aí conheceu Beatriz, com quem se entendeu & foi feliz. Eu continuei só – mas só até este caderno, onde encontro quem me entenda a narração. Ou não.

121

    Li parte do manuscrito que Ângelo deixou em envelope destinado a Noel. É pungentíssimo. Deixa dele contas feitas consigo mesmo. Noel quis que lesse parte dessas linhas. Das que não li, nada lhe perguntei. O respeitinho continua a ser muito lindo. Noel & eu somos velhos agora, Ângelo permanece excruciantemente moço. Várias vezes, o luto quase liquidou Noel. Ele conseguiu força. Não vale a pena escavar mais.


PARNADA IDEMUNO - 114 a 117



114

Quarta-feira,
10 de Março de 2021

    Já a bruma do entardenoitecer obnubila da serrania as encostas – menos uma, torrada ainda do ouro-poente. Deste longe, parece lambida por língua ruiva. É bonito & fugaz, mormente em se retornando a casa empós de visita a um par doente. A pátina mercurial já é ora senhora de tudo. Vou de boleia pela finitarde, traçamos na diagonal a Cidade. Já pretéritas, visita & serrania.

115

    Trata-se de hora & meia, menos de duas horas sempre, fora desta casa. Avisam por telefone, um gajo está pronto, sai-se. O objectivo da ronda foi traçado de véspera pela – chamemos-lhe assim – capitania. Há só que atingi-lo, dá-lo por terminado, voltar para casa, esperar uma semana que o telefone volte a movimentar este tão pequeno mundo.
    Começou por um repasto de queijos, enchidos & salsichas grelhadas em casa de V.P. Foi essa a única vez que o sueco se deixou ver. A despesa dessa expedição corria por conta dele. Sabe-se hoje que houve lucro a roçar os 400%, metade para Estocolmo, metade para Lisboa.
    Não é fácil nem difícil. Um pouco de risco mortal uma vez por semana, menos de duas horas para atacar, apresar, eliminar, recolher, salvaguardar, entregar, voltar para casa. O pagamento da operação é feito à vista de & em contado vivo. Convém frequentar o centro de emprego, manter a inscrição, continuar a pedir o subsídio ínfimo.
    Cadeirão na saleta, mesa baixa ao lado esquerdo, bolachas na mesa, chá-gelado, malga de massa com carne, fruta. Televisor com aplicações-net. Filmes, documentários, muita bola. Poucas vezes, uma cerveja. Nada de vinho, nada de brancas, nada de branca. Telefone só para receber a chamada.
    Há vidas melhores? Tratai da V.ª.

116

    Américo Virgílio Nóvoa Relvas, nosso vizinho há quarenta anos, morreu ontem em sua casa. Expirou durante a sesta, a filha só deu pelo facto quando se achegou a ele de jantar na bandeja. O funeral é amanhã de manhã.
    A filha é Olga e única. Casou-se com o dono do Café ao fim da rua, moram na sobreloja do estabelecimento. Tem a vida organizada, o marido é Joaquim e trata-a com decência.
    O senhor Relvas tinha um BMW 2002 branco. Era encarregado de produção da Porcelânea, ganhava bem, reformou-se antes de a fábrica falir, é vê-la hoje em lamentadas ruínas. Estava reformado há dezassete anos, ainda gozou alguma coisa, ainda bem, era boa pessoa.
    A mulher fugiu-lhe quando a Olga andava na segunda-classe. Ela também trabalhava na fábrica, encantou-se com & prendeu-se de um fulano operador das muflas. Toda a gente entristeceu, ninguém o desrespeitou.
    A fugitiva era Ordália, nome ironicamente justo, convenhamos. O fulano dos fornos não aparelhava bem do juízo. Partiu-lhe ambos os braços, mais do que duas vezes lhe rachou a cabeça & lhe belenensizou os olhos. Ela lá conseguiu livrar-se dele. Não sabemos mais nada, acho eu.
    O gajo era Teodoro. Formosa cabeça, vistas claras & marinhas à Paul Newman, gestos dançarinos, lábia pegajosa. Dava-se com ciganos. E incendiava pinhais no Verão por ter a pica de ver os bombeiros desbancando o perigo ante os operadores de câmara das têvês.
    O dono do Café trata o BMW do senhor Relvas como trata a mulher, dá gosto vê-lo ao domingo a lavá-lo, aspirá-lo, dar-lhe mimos, ir nele ver a Académica, seja no Calhabé, seja fora.
    São vidas, não sabemos mais nada, acho eu.

117

Pouco o olho.
A bem o faço, mas pouco.
Do mesmo provimos, ao mesmo rumamos.
Tudo é prónubo da dissipação.
Somos idênticos todos, nenhum porém igual.
Falo-lhe ainda.
Pouco lhe digo, mui pouco.
A bem o faço, mas rouco.


11/03/2021

Cem anos de nascido. VIVA PIAZZOLLA!


 Astor
Piazzolla nasceu há cem anos.

Mar del Plata, 11 de Março de 1921 Buenos Aires, 4 de Julho de 1992

PARNADA IDEMUNO - 110 a 113

 

© Wim Wenders

110


Titubeio & tartamudeio: gestos & sílabas.
Faz parte do processo, a todos comum que envelhecem.
Algo afinal busco, procuro, demando, sondo.
Entretenho o tempo, todos o fazem.
Sem pílula-dourada que não a de cada verso, sim.
Foi o Oswald? Foi o Oswald sozinho?
Quantos autoproclamados messias ainda?
Por que nos é dado tempo?
Por que nos é dado tão pouco tempo?
Não digo que não seja bonito – é bonito, o mundo.
Por que o habitamos? Hidrogénio e mais quê para quê?
Nos lares, os velhos vão desligando-se de cabos.
Desemaranham-se, dão de caras com o rectilíneo.
Pensais que alguém traça deles o azimute irrisório?
Sim, todos manipulamos imagens.
Fingimos muito que não, aceitemos que sim.
A pureza ainda mora algures.
O chato é quase nunca ser humana.
Não te olhas Guy Burgess ao espelho?
Conímbriga pavimentada sob água fresca: chegaste atrasado, Zé.
O fiorde como traçado a esquadro, primeiro gelo: onde já, Raul?
Dar o tempo à necessidade do livro, Manuel, dar-lhe calma.
É-me agora impossível recuar, ir para Matemática ou Direito.
Nisto estou como isto sou.
Trema o que tremer, tema o que temer.

111

Segue tido por aleatório
quanta cousa causa não mostra.
Quão livre é o nosso arbítrio,
mostra-no-lo, talvez, o efeito.

112

    António Coelho, o Perna-Branca, vivia então em Penafiel, era electricista-auto, não ganhava mal. Luís Tomás vinha ter com ele sábados à tarde, iam ver o jogo dos juniores, merendavam depois na Gracinda Curta. Entretinham depois o tempo no Clube, jogavam a sueca com o preto Sanhá & o amarelo Oliveira. Era pelos anos 80/XX. O Perna-branca não era casado, o Tomás tinha já deixado a Júlia.

113

    As leiras eram muradas a pedra, a mesma com que ergueram & sustiveram a casa. O celeiro, de madeira robusta. Por não frequentar o templo, a família era malquista – mas só até certo ponto, pois assim o decretava a fortuna financeira daquele senhorio. Árvores, milho, gado, moagem.
    Enquanto o senhor respirou, manteve-se una a existência. Filhos & genros foram comendo, fatia a fatia, do bolo herdado. A viúva-senhora morreu amargada. A pedra das leiras foi roubada sem pudor pelos jornaleiros. A casa ainda foi altiva por sessenta anos, evacuada porém como o porco do São Martinho.
    Sou um dos netos: nada me restou. Criou-me uma senhora da Beira Baixa, vaga prima do senhor. Frequentei o quinto-ano da escola comercial. Fiz a tropa em Mafra, alistei-me na GNR, estou reformado há sete anos. Quase não li. Vejo filmes que esqueço antes de irem meios. Não sonho – a médica diz que me não acredita, que toda a gente sonha, como se eu não fosse gente como toda a gente. Não tem importância.
    Tenho uma horta pequena na traseira da casa. Murei-a a tijolo caiado. Também não vou à igreja. Por me não ter casado, não deixarei nem viúva nem amargura. Tenho sempre dois cães. Quando morrem, dão-me novos, dessas que as cadelas parem sem pedir licença ao prior. Há vidas piores, suponho. Quem sabe se não a V.ª mesma.

10/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 106 a 109

© René Maltête



106

Terça-feira,
9 de Março de 2021

Emerso da áspera travessia do dia,
sai na noite sem freios nem carris.
Viver foi já coisa que soía
subir quantos fossem alcantis.

107

    Paulo Valério Marca Santana, sábio. Ei-lo em sua voltinha higiénica por Celas-Olivais-Penitenciária-Botânico-Calhabé-Cidral-República-Sereia-Celas. Anos nisto. Reformados dos seguros, casa própria na Rua Augusta, costumava ter sempre cão, a morte do último desgostou-o de vez, está mais sozinho do que alguma vez. Desjejua com água morna pitada de orégãos. É vê-lo depois, muito cedo, na pastelaria para café-com-leite-bolo-de-arroz. Não lê jornais desde que estes deixaram de ser escritos em Português. Não tem televisor em casa nem perde tempo a ver as dos sítios públicos. Vota nas eleições todas, ele lá sabe em quê ou quem. Esteve a um triz de ingressar no xadrez associativo do Ateneu. Não o fez por aquele núcleo ser frequentado por certo ignóbil de antanhos abaixo-de-cão. Tem tabuleiro em casa. Vence & perde suas partidas com o espelho. Não lhe sinto particular diferença para connosco, digo, que idêntica sabença praticamos.

108

    A corrente terça-feira abre-se em sol democrático sobre o vazio regulamentar da conjuntura. O Presidente toma posse em Lisboa, visita o Porto, galas restritas em o pequeno País. Estive lendo um francês em caixa-alta a metrópole-capital do seu país-em-estrela. O tipo sabia escrever. Pouco retenho todavia: mais do que conta, interessa-me o como conta. Vozearias internas não me assuntam, mais me tocam. Sinfonia não se canta.

109

     Pode acontecer o sofrer-se de crónica & anacrónica adolescência até já entradote em décadas. Não é bom – mas tenho visto tal acontecer. Também já mirei crianças amadurecidas. Tudo é em-vida.
    Valores vácuos emaranham o entendimento, deterioram a orgia. Aquelas pessoas-terminais na Golden Gate Bridge. Podemos vê-las terminando(-se). Está em filme. Valores vácuos etc.
    Super-homens? Existem. Superumanizaram-se mercê do logro. Penetram pelas fissuras da razão. Esvaziam a manada. Subvertem as tendências. Irmanam o racista ao anti-racista. Até o agnosticismo profanam. Incutem a imitação. Fazem adorar o Papagaio.
    Tirante isto, porém, tudo bem.


PARNADA IDEMUNO - 105


105

Segunda-feira,
8 de Março de 2021

    Época de geral prisão-preventiva.
    Estaleiro demorado a céu-fechado.
    Pulsão de vida ainda viva.
    Velas sopradas no salão-de-fados.
    Ouve-se o trabalhar da máquina na curva que dobra a azinhaga. Amendoeiras florescem na mesma, vinte anos depois (+ quatro dias) daquela tragédia de Entre-os-Rios. Aguentar. O filão de coisas por aprender nem horizonte tem, de tão imensurável. Isso é beleza. Como esta janela, que nega sem resposta a solidez opaca da parede. Aí sim, sem cárcere.
    Frederico, gentil namorado de Virgínia,
    é quem faz as sandes na cantina.
    Suporta humilhação & ignomínia,
    a vida é par de dias que fulmina.
    Pai viaja com filha entre-guerras. A melhor época, na recordação da vida quando velha, é a que vai de 1919 a 1932. Fazem a Itália profundamente, de pastores a coliseus. Fazem a Suíça mais alpestre. Nenhum queijo de França lhes é desconhecido. Planeiam o Japão – mas o pai adoece em 1933. Hitler toma o poder. A filha traz o pai para Portugal: Caramulo, a criação do visionário doutor Lacerda. Margarida, moça-de-cozinha, faz amizade com a bela turista. Esta aprende Português, já lê João de Deus, diverte-se com o Eça, dá longos largos amplos passeios pela serrania. O pai recupera um pouco, vão tomar o barco a Lisboa, sulcam o Atlântico, arrenda vivenda na sweet New England. O senhor morre aí, era o princípio de Novembro de 1940, a um mês da infâmia em Pearl Harbor. A rapariga é mulher, dá lições particulares de francês, italiano, alemão. Ninguém a requer para mestra de castelhano ou português. Partilha a casa com uma enfermeira oriunda Wichita, Kansas. Em 1950, deita a derradeira orquídea na campa do pai. Sobe ao Canadá francófono. Aí publica o primeiro original: Les Grand-Messes du Coeur. Discreto sucesso, suficiente todavia para alertar o bom gosto de Dilland & Viarco, Edt. Até à sua morte, menina de novo, a mulher publica em exclusivo para esta chancela de Montréal. Empilha os clássicos da sua pena única: L’Écrou; La Fournée; Mon Chien Aristote; La Mémoire sans Méridien; Si Papa s’Endort.
    Tenho, Feliciana, tua lembrança
    gravada a ferro na pedra.
    Medra em mim desesperança.
    A tristeza não se cansa,
    baila, dança, requebra, alquebra.
    É-se imperador de seu quintal interior. Não me parece que mais que isso haja a declarar em sede de conservatória predial & finanças. Conta-me certa página de um homem que na juventude se juntava a amigos, assavam peixe na praia, tomavam de conquista a noite que tomba sobre o mar, derredor o lume pasmavam saciados, incônscios então de que o mesmo lume ardia o Tempo mesmo. É amanhã internado um Carlos Alberto de minha particular simpatia. Ou foi-o hoje, não sei bem. Temo próximas notícias relativas à condição física desse cavalheiro. Estes lances mesclam-se-me na sintaxe.


09/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 100 a 104


100

Domingo,
7 de Março de 2021

    A cada terça-parte de cada dia, é-nos concedida essa inocência chamada sono. Dividida pois em três, a existência dorme em vulnerável perdoável ingenuidade. Com os anos, tenho aprendido mais um pouco dessa arte tão involuntária quão inevitável. A parecença (o parentesco, mesmo) do sono com a morte tem milénios de fortuna no filão literário. Penso hoje que o cinema é, também, a materialização dessa imaginação – ou imagem-acção. Anteontem & ontem, dormi em moção, por assim dizer. A espectacular lógica do absurdo impôs-se-me sem resistência possível minha. Assisti a essas películas em modo de alter-eu. Inocente, vulnerável, perdoado – fui de novo astro-útero-nauta, digamo-lo. Nada – felizmente – recordo de tais enredos com muitos pés & muitas cabeças. A manhã nova repôs a realidade em o sítio curial. Pus-me logo provendo às triviais necessidadezinhas do quotidiano – higiene, alimento, café forte, tabaco maravilhoso. A luz estabelecia a cartografia óptica. À distância-poente, a ânsia do mar invisível. Bem mais perto, o país das garagens, dos gerânios da vizinha, do lixo humano deixado a coalescer imundícies em coalizão imunda. Nada perdi de quanto poderia deixar escrito. Um trecho de parede precisava de ser lixiviado a preceito & a pano. Assim procedi. A limpeza pôs-se logo cheirando. Arrumei tarecos de louça, talher de amestrado metal, peças de fruta em peanha, mercearia até então dispersas. Tinha uma mensagem na maquineta infoaudiovisual. Respondi ao comunicante. Já circa meio-dia, fui tomado de uma urgência sem pressa: a de, pela multienésima vez, ler aquele soneto do Pessanha em que ele pede à mãe que não ande mendigando por esses casais. A máquina atirou-me entretanto uma mensagem mais. Também a esta respondi. Troquei gentilezas, nada de grave. Devo entretanto ter adormecido, sonhando escrever que durmo.

101

    Recordo a mansão toda em granito
    exposta ao sol-d’inverno na infância.
    Já então de recordar era perito,
    então não havia ainda distância
    do porvir ao volvido em transumância.
    Talvez V. esteja falando da alva da década de 70/XX. Sim, por aí. A aparição da grande casa demora-se-me. Jamais vi alguém nela entrando ou dela saindo. Ou seja: nem de fora a frequentavam fantasmas. Era uma construção do XIX. Sólida como um desgosto vitalício, concreta como o papel em que a escrevo – assim era. Resistia ao frio daquela parte do mundo com a obstinação dos seres longamente desejados. De propósito, nunca investiguei o clã que a habitou. Quem me levou a tais bandas, aliás, a levar-me não torna. É verdade que estive a uma unha de vai-não-vai para proceder a sós a tal revisitação. Não o fiz. Há meio-século que me sou esse rapazito ante granito. Trabalho ora mais para o mármore.

102

    Outra verdade tão portátil para mim quão a minha sombra mesma: à medida que aumento o pecúlio escrito, mais o palavreado me sabe a silêncio de espelho. Um homem não fala quando raspa a barba – mas pode pensar na eventualidade de escrevê-lo de maneira tal que o silêncio se faça ouvir.

103

    A Vila, em outro inverno. Há trinta anos, digo. Desertava-se muito cedo as ruas gélidas. Eu tinha lá casa, trabalho, demora. Trinta anos, parece mentira. Da pedra subia fumo. Todas as famílias tinham alguém emigrado. O mor do censo era de velhos. Cuidavam dos netos como do gado – sabiam o que faziam. Eu também, talvez, então.

104

Vou com o Armando de carro na noite de Janeiro.
Não sabemos se aonde vamos os amigos dele estão ou não.
É por uma estrada de pinhal litoral, o mar é cerca.
Temos a cassette dos Deep Purple no California Jam/1974.
É noite sem lua, sofrível o frio, não somos velhos.
Chegamos, as pessoas estão, é uma casa encarnada.
Há na esquina um estabelecimento de café com bilhar.
Juntamo-nos ali, vêm vinho, queijo, bolos-de-bacalhau.
O Armando & os amigos falam o que têm a falar.
Entretém-me o filme da sessão nocturna.
É aquele clássico da narração póstuma, Sunset Boulevard.
Revoada de gente café adentro: ensaio de cavaquinhos em pausa.
O filme termina com aquele grande-plano, tudo bem.
O Armando paga a despesa de todos, tudo bem.
Na volta, sinto-o contente com a vida.
Não terá muito: nem de vida, nem de contentamento.
Vou ao funeral dele no Março seguinte.
Espatifou-se naquele mesmo carro contra um pinheiro.
Foi em noite com lua, frio maior, velhice chegada.




08/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 99

 

© DA.

99

Sábado,
6 de Março de 2021

    Atmosférica passagem da atenção sensorial – em curso. Cada um a sua lareira: externa ou em seu imo. Uma doida rancorosa bota fogo a um andar de pensão. Um homem morre por causa dela. A norte (muito a norte), à face do lago gelado, silhueta de outro homem, Olaf lá, cá seria Olavo. Estou nisto enquanto fora vigora a luz dos campos, adequado silêncio, como manta, releva as culturas primevas. É tudo um pano sem rasgão, não agora. Como se em um para-além, de que retorno não há, houve nunca, jamais haverá. O homem Gabriel tem um cão chamado Alberto. Conheço-os, gosto de ambos, conversamos muito os três, embora agora já não tanto.
    Outras facetas planetárias irrompem por as máquinas-alienantes. A humana é espécie de profunda degradação. Uma pessoa vê-se ante lances & perspectivas de perigo latente. Quem controlar a (des)informação, mama da manada. Os hipermercados são as bibliotecas mais pujantes. Por África, as ex-colónias, ora pseudo-independentes, mostram, de si mesmas, total incapacidade de autogovernação. Ao (des)mando branco sucedeu a corrupção preta – e a merda continua a disfarçar-se de incolor. O humano, qual seja a cor, é irremediável. Acho fortemente isto.
    Mire-se todavia a Tarkovsky, Kurosawa, Wenders, Bergman. Escute-se porém a Vivaldi, Händel, Mozart – e a Deus-em-Gente, vulgo Bach. Alegria, dessa mais escura, se curta da Santíssima Trindade da Literatura do XX, a saber: Pessoa-Proust-Joyce. Ou Cesário-Pessanha-Belo. Aqui (muito) a sul, em uma casa anónima, pode um gajo vincar & vingar valores que, por escrito, sempre podem fazer, se não de luz, ao menos de impressa sombra.
    Um Avelino revê-se no filho dilecto, Pedro. Movimentações roedoras do regime. Artefactos explosivos guardados em caves carvoeiras. Pança do rei, anemia do herdeiro, santidade plástica da rainha, parasitismo do conde irmão do monarca. Pedro vai de visita ao lar onde, sereno, apodrece Avelino. Conversam no jardim da instituição, entre lírios & gatos.
    Carolina Fonseca, viúva como a Lua, ampara os pobres da Rua de S. Francisco. Abriu à rua uma loja de seus prédios. Estendeu mesa-corrida, bancos pregados ao soalho. Panelão de sopa sobre toalha de linóleo em xadrez alvo-rubro. Seira de pão. Vinho de baixo teor fulminante. Laranjas, pêras, maçãs, figos quando os dá a figueira exposta no pátio traseiro.
    Digo-Vos, em este sábado morno, que a vida corre – enquanto, nós, gatinhamos. (É verdade, a sentença anterior é verdade.)
    Jaime António & Estêvão Miguel, primos em primeiro-grau, vão à pesca no Lago Frigo. Jaime é dono do bote; Estêvão tem apetrechos do melhor que há. O sítio é deveras aprazível. Já aqui vários corpos foram inumados. Digo: na água. As percas roeram tudo, as ossadas dançam no fundo as mais surdas & mais desconjuntadas valsas. Quem matou essa gente de arquivo-morto na polícia? Nem Jaime nem Estêvão, atenção. Jaime trabalha de faz-tudo, nenhum conserto lhe é estranho ou escapa. Estêvão é amanuense em repartição camararia, toca rabeca em um rancho, o sossego é quanto quer. Os crimes sepultados no Frigo são de décadas que ficaram sem conta. Alguém perdeu (alguéns perderam) a vida, alguém se safou sem punição. Agora, dois homens num bote sacam percas, essas necròfagazinhas do diabo.
    Mais:
    Infinitude de perspectivas. Um disco de 1971. Um livro de 1945, compêndio (ou antes: crestomatia) de textos de 1927, 1937 & 1942, reeditado em 1983. Lista telefónica de 1970 – nunca usada, é o tipo de livro que aprecio muito: muitas personagens & mui pouca acção. Ângelo & Filipe, duo pianista-contrabaixista esta noite (5.9.1954, domingo) no Salão-Prata do Peninsular. Violeta, a cantora, faz dois números com eles, depois volta ao posto de croupier no Salão-Ouro. Tudo perfeitamente oleado – o gerente é alemão.
    Ou então:
    Paulo Renato, Rogério Paulo, Santos Manuel, Ruy Furtado, José de Castro, Barroso Lopes, António Assunção – elenco da infinita noite (noite como representação). Ramiro Correia – marinheiro afogado. O número 4 pertence ao Maleiro. Elói & Pimentel defrontam Nunes & Maricato na primeira eliminatória do Torneio de Sueco da Beneficente. São todos como constantes marcas – ou marcos – em a volubilidade atmosférica de que penso já V. ter dito alguma coisa.
    Também recorrentes, clarões das sinapses (afeição, rejeição, esperança, dúvida, fixação, pudor, desejo, obstinação, procrastinação, fatalidade, errância, domesticidade) pontuam a correnteza das horas. Flúi a inevitabilidade. Tudo, aliás, flúi: acho que a tal chamam entropia. Ou coiso.
    Ou, antes, depois talvez, não interessa, em uma vivenda entre carvalhos que sobem do cascalho geométrico, mansão iluminada na noite, as sombras perfumadas à brisa entorpecente. Ele que chega, que entra na casa sem porteiro, muita gente no salão mas toda de costas, depois essa multidão vira-se para ele, homens & mulheres mostram todos & todas o mesmo rosto por horror repetido ad nauseam.

07/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 95 a 98

© Alberto Giacometti

95

Sexta-feira,
5 de Março de 2021

Três existências ali vão:
duas mulheres & um cão.
Toby, senhora & criada:
isto sendo tudo, como se fôra nada.

96

    Por momentânea impossibilidade de singrar nauticamente pelo mundo polar, não saio deste quarto a que voltas dou – à maneira do bom Xavier de Maistre evocado pelo boníssimo Garrett.

97

Por exemplo, 1976.
Velho ruricultor de chapéu.
Velha de negro entre galinhedo.
Dois rapazitos voejando quais andorinhas.
Índole da paisagem tratada.
O doido da aldeia: Benjamin Escarota.
Outro chapéu em outra decana cabeça.
Lume ao vivo em terreiro de espera.
Um belo cão sem dono com sono.
Justiça transparente de existir.
Correnteza de águas: vidro liquefeito.
Cortadores de erva inclinados à Van G.
Espasmo de cor rútila, rude, explosiva, bruta.
Gente, em um instante, de feraz a feral.
Rapariga da cidade vinda a ver avós.
Relógio, candeeiro a petróleo-rosa.
Valentim afina o bandolim.
Acerca-se de pronto o Escarota.
Mansidão bovina, mofina, idiota.
Anda toupeira pelo subjardim.
De tudo o que é já demasiado tarde, nem cedo te lembres.
Na cave-jazz, fumo & espanholas, cigarros sem-filtro.
Se em solidão, então discurso-indirecto-livre.
A cada vaqueiro, seu monólogo.
Belarmino, Teodorico, Prazeres, Preciosa.
Relampeja na campina: fósforo de Deus.
Pena é que te enfastie esta tanta paz.
Olha, vai-te embora.
Sente-se cá a tua falta como a da fome.
Foste putanheiro, retornaste fodido.
Santorros grosseiros, fradalhões bonachos.
Cristo espadeirando moirama em Ourique.
Vem o carvoeiro, faz fraca venda (diz ele).
Em uma das casas-operárias, conversa o casal ao serão.
Projectam coisas, situações, posses, prazos.
A fábrica encerrar-se-á em três anos.
Desconhecem-no, claro, não são bruxos.
A década amadurece de estios terminais.
Sou dela testemunha parcial.

98

Muito outrora se me faz ora na hora.
Disponho de um manancial de recursos.
Combato a incerteza com o dicionário.
Há coisas que sei, amealho-as avaramente.

06/03/2021

PARNADA IDEMUNO - 92 (conclusão) + 93 & 94

© DA.

92

Quinta-feira,
4 de Março de 2021

(...)

    Clichés fotográficos não esgotam o manancial. Ajuntam-se-lhes os linguísticos: fúria-espanhola, pontualidade-britânica, neutralidade-suíça, rigor-alemão, gesticulação-italiana, formigueiro-chinês, burrice-americana, urso-russo, saída-à-francesa. Tudo para inglês-ver.
    Nemésio a cavalo do Tovim ao Dianteiro. Wenceslau de quimono. Pessanha em bruma opiácea. Cesário erguendo a giga de hortícolas. Miguéis entre arranha-céus. Sena estudando tudo & todos. Brandão podando. Aquilino conspirando. Gomes Ferreira com um filho preso. Sttau de despensa guarnecida (vendo-se na prateleira primeira litradas de óleo-de-frigir). Abelaira de voz apifarada como agora o Zambujo-cançonetista. Soeiro à saída da fábrica. Redol fluvial. Vergílio de camisol’amarela. A Espanca de gargantilha. A Natália sonolenta de rímel. A Botelho mui pràfrentex. As Três-Marias causando alopecia aos fradalhões-de-repartição. O Assis Pacheco atulhando-se de meia-desfeita. O Hermínio da Assírio doido por versos. O Herberto com sua rábula ermitã. O Pacheco mendigando posteridade. O Cesariny & o Cruzeiro Seixas de peidas enroscadas. O Ferro armado em marquesa-d’alorna-comba-dão. O Almada boiando tipo-rolha. O Pessoa(l) recolhendo-se à cela onde uma arca vibra sem que lhe toquem. O Esfinge-Gorda à espera de paternal avença. O Amadeo morto quase criança. O O’Neill sem ilusões. O Dionísio ao serviço. O Graça Moura de serviço. O Fialho & o Pulido Valente (V.) atirando-se pêras verdes às respectivas fuças. O Alçada pachorrento como moléstia de coelho. O Victorino d’A. assombrando o indígena. E o Vilhena cagando em tudo & todos, que isto hoje é só p’r’amigos.

93

    (…) time-obsession was common to most middle-aged men once they’d begun to feel it making up on them.”
    A citação é de The Time Keeper, uma narrativa breve da escocesa Elspeth Davie. Ao lado do livro de onde a extraio, o Gatito dorme em doce abafo. Não poupo ratina para com ele, que felpudamente cochila em lã berçária.
    São Pedro manda hoje luz glauca, invernal, boa para confinamentos voluntários ou não. Penso sair amanhã um pouco, apostar dois euros & ½ no euromilhões, comprar pão fresco, andar mascarado pelo bairro como destronado rei-momo da viral comédia. A ver se. Tenho ante mim mais imagens a tratar entretanto.

94

Figura feminina toda de preto em escada interior de mansão.
Almácega em pátio empedrado de quinta-moagem.
Pilha de revistas em sala-de-espera de médico-dentista.
Carteiro, esperando que pare de chover, a pensar na filha.
Jardim público com anjo de pedra, roseiras altas como deusas.
Exumação de restos em cemitério despejado por imobiliária.
Sinédrio de alcoólicos-anónimos debitando desperdícios vitais.
Dramaturgo justamente célebre chorando na latrina.
Casalito de crianças adentrando em maravilha um bazar de brinquedos.
Animal caído de exaustão na via-pública. Pública ou crucis.
Monturos de neve diligentemente apartados por velhos.
Aos 84 anos, Lovisa Gustafsson finalmente em paz.
Figura masculina toda de preto em escada-de-incêndio.
Roupa a secar: as camisas como se crucificadas.
Cama desfeita sem que alguém ajude a refazê-la.
Nuvem pesada como dívida-de-sangue.
Júlia, mãe de Virgínia, solteira ainda, colhendo espuma-marinha.
Mãe & filho esperando na rua a abertura dos Correios.
Homem casado com Petúnia, amancebado com Suzy.
Tony Weare & Blake Edwards criando felicidade juvenil.
Encerramento para sempre do Teatro-Circo do Príncipe Real.
Ridiculamente religiosa & religiosamente ridícula: a genuprostração.
Animais famélicos acorrentados por subgente.
Sharon Tate tomando água fresca no alpendre em sombra.
E os que lhe entram em casa sem convite nem remédio.


Canzoada Assaltante