31/08/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 10 (conclusão)


·        No Porto, uma que se chama Rua dos Cedros. Nela, João Viana, 84 anos, colhido por viatura fora da passadeira. Ferimentos na cabeça.
·        Há um pedófilo à solta em Olho Polido (raio de nome…), freguesia de Outeiro da Cabeça (raio de nome…), em Torres Vedras. Abusou, pelo menos, de oito meninas com idades compreendidas entre os sete e os treze anos.
·        Perto da estação da CP de Rio de Mouro (Sintra) fica a Calçada da Rinchoa. Assalto à mão armada da loja Valores: ouro e numerário. Pronúncia brasileira dos assaltantes.
·        Homem doente acamado em casa (na Avenida Engenheiro Adelino Amaro da Costa, em Aveiro) não deu conta do ladrão ou ladrões que lhe levaram coisa de cinco mil euros em peças de ouro e relógios de colecção. Trabalho limpinho, na manhã quinta de Abril/2011.
·        Predador sexual de 56 anos. Violou, ameaçou de morte e emprenhou menina de 14 anos. Póvoa de Varzim. Presente a juízo, foi libertado. Terá de apresentar-se uma vez por semana na esquadra da área de residência.
·        O tal jovem do União de Paredes, Daniel Silva, de 23 anos, não resistiu aos ferimentos colhidos no acidente da madrugada do dia 4 em Penafiel. Morreu. Domingo, o União de Paredes enfrenta o Amarante.
·        Oitenta torneiras metálicas foram furtadas do sistema de rega da Cova da Beira (Fundão).
·        Cão de grande porte ataca rebanho e mata oito ovelhas. No Ladoeiro, Idanha-a-Nova.
·        Dez botijas de gás desapareceram de Oleiros.
·        A tal senhora do conimbricense Restaurante D. Pedro, Maria das Neves, desapareceu na manhã de 10 de Maio de 2010. Até hoje. Uma amiga, Hortense Gonçalves, continua intrigada. Viu-a pela vez derradeira na missa das cinco e meia da tarde da Igreja de Santa Cruz. Tinham feito o peditório juntas. O padre residente, Anselmo Gaspar, afirmou não ter detectado na desaparecida quaisquer signos de angústia. Pai e filho disseram nada aos costumes. Até hoje.
·        No Tribunal Judicial de Pombal há uma senhora juíza chamada Cristina Brites.
·        Homem sequestrado e agredido na casa-de-banho anexa à sua residência na Póvoa da Isenta, Santarém. Em Bragança, foi uma idosa, na madrugada de 5 do corrente Abril. Por dois gajos e uma gaja. O idoso escalabitano de 68 anos chama-se Joaquim David e andava a tratar das galinhas. A octogenária brigantina é nomeada Lurdes Henriques e estava em casa sozinha. O trio que a assaltou, foi identificado e posto em liberdade. Vão (irão?) a tribunal no próximo dia 14. Os badamecos têm 22 e 28 anos. A badameca, 18.
·        Palavras do Senhor: detenção de arma proibida, rapto, sequestro, furto, roubo, coacção, ofensas à integridade física qualificadas, ciúmes, homicídios nas formas tentada e consumada. Ámen.
·        Existe em Lisboa uma zona chamada Bairro dos Alfinetes. Mau sítio para táxis e taxistas. Nesse bairro, há uma artéria chamada Rua Carlos Gil. Já o Bairro de S. José é em Camarate. Também ruim para um carro de aluguer e respectivo “chófèr”.
·        Menor de 15 anos desapareceu do Centro de Acolhimento Casa do Canto, em Chão de Couce, concelho de Ansião, ao norte do distrito de Leiria. Chama-se Cátia Alexandra Damião. Mede metro e meio. Olhos e cabelos castanhos. Avistada pela última vez no sábado passado, lá para a Marinha Grande. Viram-na acompanhada de um rapaz.
·        Aos 41 e 29 anos, dois gajos deixaram-se apanhar pela Polícia na Praceta D. Duarte, Loures. Possuíam 120 euros em artigos furtados de um café.
·        Na penichense Praia Supertubos (raio de nome…), os oito tripulantes do Vento de Feição – um barco de pesca de 20 metros de comprimento – saíram ilesos do encalhamento. O barco, também.
·        À porta do tribunal de Viana do Castelo, uma toxiadolescente de 16 anos espancou com gravidade a própria mãe, de 34. A mãe chama-se Sandra Araújo. A filha agressora chama-se, naturalmente, Bárbara.
·        No Cercal do Alentejo, a Casa do Povo local vai começar em breve a distribuir aos neopobres do regime socrático.
·        A segunda-feira de Páscoa chama-se 25 de Abril, este ano. Em Ponte de Sor, vai haver o tradicional piquenique da Salgueirinha. Organiza-o o Rancho Folclórico da Casa do Povo. Além da animação musical, comete-se o habitual Sorteio do Borrego.
·        Quem quiser dar sangue em Setúbal, que vá hoje ao Instituto Politécnico (ESE) entre as nove da manhã e a uma da tarde.
·        Em Tavira, persistem as avarias na iluminação da ponte romana sobre o Rio Gilão. A Câmara Municipal atira a responsabilidade às ventas do IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Paisagístico).
·        “Boys” do PS nomeados em massa-catadupa.
·        Na PT, prémios multieuromilionários aos gajos do costume-e-sempre.
·        Amêijoa proibida há treze dias no Sotavento Algarvio. Chatice. Conquilhas também interditas. Parece que o problema está nas, ou vem das, biotoxinas DSP: que arriscam vómitos e diarreia, a exemplo da situação política.
·        Figueira de Castelo Rodrigo: a loja social Arco-Íris apoia famílias em carência.
·        A Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal foi a Portalegre ganhar o primeiro prémio do concurso da especialidade.
·        Pessoas sós encontradas mortas: – a 8 de Fevereiro, Augusta Martinho, defunta em casa desde 2002, na Rinchoa, Sintra; – a 12 de Fevereiro, em Cantanhede, um homem de 71 anos, defunto há pelo menos três meses; – também a 12/2/2011, um homem de 80 anos foi descoberto sem vida em São Mamede de Infesta: não era visto há sete dias, no mínimo; – e agora, José Manuel Sousa, que teria hoje 61 anos não fora o caso de morrer e que era invisível desde 2007, foi achado cadáver entre o lixo acumulado no seu apartamento; era ex-bancário; ao n.º 21 da Rua Vera Cruz, em Santo Amaro de Oeiras; tinha as contas bancárias intocadas; sem luz, água e gás; não se dava com ninguém, a começar pela família; era um terceiro-andar. Já não anda.
·        Lapas, Torres Novas: o pároco local, Luís Filipe Gualdino, teve de receber escolta da PSP para poder sair da igreja; parece que foi autor de uma carta dirigida à Sociedade Musical União e Trabalho de Lapas, no qual documento instava os músicos a abandonar o edifício que pertence à Igreja. A coisa desafinou.
·        Obstetra Francisco Madeira, que esmagou, em Março de 2002, o crânio ao bebé do casal Ana Isabel e Lino Gonçalves durante os trabalhos de parto, condenado a seis meses de prisão com pena suspensa e a 40 mil euros de indemnização. Foi no Hospital Amadora-Sintra. O “herói” trabalha actualmente no Hospital da CUF Descobertas.
·        Às 11h36m, céu encoberto: mas luz e vento. Em Portugal Continental.

*

Às 15h48m, o ar abafa. Vento algo agressivo, luz parada estagnando-se.

*

Por alguns instantes no mesmo sítio de manhã cedo. O jornal, de espinha partida por muitas mãos, jaz alquebrado na ponta esquerda do balcão. Partido e alquebrado como o País que retrata (mas não retracta). Nação mais e mais insalubre, mais e mais irremediável, de agónica economia desbaratada por cúpidos corruptores, contumazes e relapsos inquisidores da Santa Roubalheira e do Catecismo de Merda. No televisor, programa de entretenimento para analfabetos mentais em simpatia-tipo-netinha para velhinhas de lar terminal. Um país-bocejo. E no entanto,

No entanto um homem, mesmo de suspensórios,
pode amar e devagar amado ser no dia.
Pode receber Kafka nas horas vãs do dia.
Pode falar com os mortos, fumar um cigarro

com eles, levá-los pela ponte ribeirinha
(pontes e mortos sempre se deram bem)
a ver como devastam os campos as novas
horríveis urbanizações-gaiolas para ciganos

e outros maganos
que tais.
No entanto, um homem
etc.

*

Nos sítios que a vida passada-presente se torna futura-passante, as inscrições comerciais do mundo:

– GANHE OUTROS PRÉMIOS
– QUADRO ELÉCTRICO
– STOP
– POR QUALQUER DOCUMENTO IDENTIFICATIVO
– ALDEIA DA SAÚDE
– CRÉDITO DE LEIRIA
– FEIRA DE MAIO
– SABOR NATURAL
– ETC.
– STOP.

*

Quantas coisas convivem neste homem (como em todos). Deste, na tarde sufocante, diga-se a retornada (e regressiva; e depressiva) apetência pelo eterno moço-velho chamado Kafka, a atenção ao país chamado Portugal, a degradação dos paradigmas (comportamentais, linguísticos, estéticos, industriais, laborais, financeiros, todos), as superstições religiosas, a circularidade activíssima dos crimes políticos, a ovelhização do Povo (que nem esta maiúscula merece, aliás), a lantejoula de feira-circo, o indesmentível teor florícola das crianças brincando ensimesmadamente à tepidez da brisa entardenoitecente, a inicial mácula que se volve mancha e/ou mágoa e/ou ambas. Quantas coisas, de facto. Pela noite, ele urde uma panela de sopa, um tacho de massa, uma pasta de pescado de conserva com leguminosas avinagradas. Abre uma garrafa de vinho e finge não esperar a redenção. Os meses (a maquinaria estrondosa é surda ao tempo mesmo) rangem nos elos dos anos (das horas).
Mas o que se dizia, é interrompido pela voz de uma mulher-rato. Voz roufenha como um altifalante feirante de cobertores e edredões. Fumadora da mais barata (ou menos cara) marca do mercado. Cabeleta espetada cor-de-óleo-de-fígado-de-bacalhau. Incapaz de (se) trabalhar mais um pouco, o homem levanta-se, paga a bica e sai cidade afora-agora-dentro.

*

Um agora chega de vez agora.
Quem soube querer, fica dentro.
Quem não coube – ou não soube – vai-se embora.

Baralha as cartas, parceiro, não as ideias.
Aproveita as lind&boas, não as más&feias.

As pessoas matraquilham rodovias puníveis
a taxas gregárias: ser lobo era antigamente,
a antiga mente de quando o Pai era vivo
e dizia coisas mais altas, coisas de Pai,
assim:

– Os meus filhos foram e são todos
o que de melhor me coube.

Quem não coube – ou não soube – vem-se,
embora.

Então filhos etc.

*

Não é triste chegar tarde.
É saber ter podido chegar cedo.
Uma mata em Agosto que arde:
trist’ em Novembro ter tido medo.

*

Começo pelo fim – como todos os caracóis nascituros. Mudei de idade e de cidade. Há por estas bandas vento também – e também filarmónico, na pele de um homem que usa o mês de Abril como o saxofonista sem saxofone. Entre Bencatel e Borba, entre Peniche e Portel: as vidas, os cantos do quarto, o bolor espermático das asneiras aliás simpáticas, aliás genéticas. O fim me começa, Amélia, Manuela, Paula, Camilo, Eça…

25/08/2011

Rosário Breve nº 221 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 25 de Agosto de 2011


País(agem) com Nuvem

Por um fim de manhã do débil Agosto corrente, dou por mim ante a Nuvem. Desconheço se se trata de um exemplar morfológico do tipo estrato, nimbo, cirro ou cúmulo. Com a idade, apercebo-me (não sem paradoxal contentamento, aliás) de que desconheço mais cada vez mais coisas.
Em frente a esta crónica óptica, sob a Nuvem, o disparador de água do jardim da freguesia entrecorta o jacto regador com chapadinhas nervosas e aritméticas. Ao alto, à contraluz da campânula azulejada (o Céu), a Nuvem é de face plúmbea, pré-pluvial, carrancuda, tremenda e inocente. Quedo-me sem pressa na contemplação dela: a ourivesaria solar, tíbia embora, reborda-a de vaporosa neve, como se as polegadas do divino artista estivessem maculadas de uma pureza a que já ninguém está habituado por causa da criminalidade fiscal.
A meu lado, na esplanada, excitada de nervosa doçura pela irrupção na praceta de um cão de marca Rafael (meio Rafeiro, meio Daniel), uma bebé grunhe onomatopeias de babujada saliva. Observo o cão eu também, mas atento-me à nuvem: preciosa rosa de água suspensa, alta testemunha dos nossos desgoverno e desconcerto humanos, efémera guardiã do sideral Grande Nada que tão depressa jura Deus como mata rodoviariamente famílias emigrantes à vinda de Fátima.
Nuvem: isto aqui em baixo é sempre terça-feira. Ou: isto aqui, Nuvem, é sempre em baixo. Mortal e coisa, a nossa vida pasma e plasma-se à mercê ríspida das varejeiras que facilitam e abreviam os despedimentos em lugar da afinal cristã obrigação da criação de emprego.
Vale-nos que não será, não ainda, amanhã que as mesas de matraquilhos passem a emitir recibos electrónicos sobre 50 cêntimos com IVA a 28% sem chance de retenção na fonte.
Talvez por isso, neste fim de manhã outonal já, apesar de aind’Agosto, eu sinta, ante e sob a Nuvem, que vale a pena persistir no amor incondicional, irracional e colectivo-genealógico ao País e à Paisagem dele: saracoteada a água da Junta que à relva muito verde asperge sob o quas’azul do Céu, não tarda temos aí chuva.

19/08/2011

Rosário Breve nº 220 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 18 de Agosto de 2011


João Baeta: um exemplo e uma alegria

Senti uma alegria olímpica ao ler as páginas 4 e 5 da edição passada deste Vosso jornal. Refiro-me ao extraordinário feito levado a cabo (Carvoeiro…) por João Baeta, o (tão) jovem scalabitano que, nadador puro de águas abertas, venceu, no pretérito dia 31 de Julho, os quinze quilómetros de mar entre as Berlengas e Peniche.
O meu saudoso Pai era um incondicional admirador de Baptista Pereira, o glorioso vencedor do Canal da Mancha. Agora, este menino de Santarém pode acalentar esperanças quanto à equiparação com aquele grande nome da por assim dizer silvestre natação portuguesa que o meu Pai tão justamente venerava.
Em tempos e dias de dura crispação como os que vivemos, a glória humilde de João Baeta não precisa de outro louro nem de outro incenso do que os da clara homenagem e do elogio franco ao empenho, à vontade, à planificação, ao desafio, à energia e ao valor por ele tão copiosamente demonstrados bem para lá e além das 5 horas, 24 minutos e 45 segundos de inquebrantável obstinação com que porfiou no mar, vencendo-o. Iguais considerações me merecem os outros dois desafiadores, Miguel Arrobas e Pedro Basílio: não tentar é que é perder, pelo que os meço pela mesma estatura do João.
Quando este menino diz, como disse, “Nunca pensei em desistir”, este menino lava a cara ao acabrunhado País que vamos e vimos sendo há anos de mais. E lava-nos a cara com água do mar, que é a substância volúvel do tempo líquido e a nação verdadeira de Joões Baetas, de Baptistas Pereiras e de todos os Portugueses que sabem que a desistência nunca foi, não é e não será jamais um desporto olímpico.

12/08/2011

Rosário Breve nº 219 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 11 de Agosto de 2011




Máquina-do-Tempo

Nunca gostei grande coisa de ser contemporâneo do meu próprio corpo. Significando isto: que o tempo (f)actual para que nasci, leitor, é de uma pobreza que sinto não merecer.
Assim, e em talvez ingénua alternativa, tenho feito da cabeça aquilo para que uma cabeça mais serve: máquina-do-tempo. Ou seja: estou aqui com este corpo, liquido o meu IRS, tenho facebook & coisital – mas é que habito, deveras, outras esferas.
Um destes dias, por exemplo, era para mim 10/5/1782. Dois dias depois da morte de Sebastião José de Carvalho e Melo, vulgo marquês de Pombal, um alvará régio proibia a vinda de mulheres do Brasil para o Reino de Portugal, então titular daquela então colónia. Dez dias e dois anos depois, um furacão assolava Santarém. A interdição de fêmeas brasileiras nos meandros de Lisboa & Arrabaldes não era novidade: já a 10/3/1732 (meio século mais dois meses antes, portanto) o anti-lenocínio por decreto tinha sido o mesmo.
Não, do meu tempo não gosto grande coisa. Prefiro-me por outras aragens e paragens. Prefiro-me, ileso de afins difamações, vivo-da-silva no dia 15/3/ 1751, quando passou a ser ilegal pendurar cornos à porta dos maridos atraiçoados. Ou então entre escombros em busca da família no dia 23/4/1909 de má hora, quando um terramoto trepidou Benavente, Salvaterra de Magos e Samora Correia, como se não bastassem já as cheias que nos afogavam sem clemência.
O dia 30/4/1984 já me não cola cromo à caderneta: em Abrantes, preconizava-se o PRD, fugaz partido que a 15 /6 do ano seguinte reunia em Tomar a sua primeira Convenção Nacional, Deus a tenha em Seu descanso.
Como poderia eu gostar de, aos 14 anos, ter 14 anos? Pois não rejeitaram a Presidência e a Assembleia da República amailo Governo uma exortação do líbio Kadhafi relativa à independência da Madeira, que, nesse ano mesmo, se recusou a comemorar o 25 de Abril?
O meu/nosso tempo sabe-me de mais à factura da água do Cartaxo, mais cara e mais abusiva do que a do vinho. Para minha consolação, porém, posso sempre adormecer na noite de 14/10/1773, data em que foi finalmente interdita na capital a livre soltura de porcos pelas ruas.
Só que, agora, não apenas voltaram, os porcos, às ruas, como não saem da televisão, das soberanias e da minha vida. Da minha vida – sem sequer uma indígena colonial das boazonas à vista para efeitos de, com o meu corpo de (antiga) mente etc.

04/08/2011

Rosário Breve nº 218 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 4 de Agosto de 2011


Toda a verdade quanto ao memorando da Troika


A Genciana do Abílio já não é do Abílio, agora anda com o Adérito, o Adérito que esteve junto com a Palmira uma data de anos e agora já não está, portanto a Genciana do Abílio agora chama-se Genciana do Adérito, só que o Abílio para se vingar agora anda com a Palmira e com a Violante dizem que também.
O irmão do Adérito da Genciana é aquele coiso que mora por cima da mercearia, de dia é muito agradável passar à porta dele porque nos sobe à penca aquele perfume compósito do café, do bacalhau, do sabão azul e da lixívia, não me lembra agora o nome do irmão do Adérito da Genciana, sei mas é que trabalha na oficina das motorizadas do Júlio que fica ao pé da Ramona Cabeleireira, a que dizem que gosta de mulheres e não é só de lhes mexer na cabeça.
Um que dizem que está muito doente com um câncaro na cabeça é o Emanuel dos Elásticos, também nunca teve sorte na vida coitado desde que a mulher lhe fugiu para o Algarve com o Dionísio que vendia cassetes do Dino Meira na feira aos domingos.
O Silva dos Seguros é que a leva direita, fez as nóvóportunidades e agora só aparece no café com livros de bioquímica industrial e manuais de glotologia renascentista debaixo do braço que até parece um doutor como os de antigamente quando os doutores estudavam mesmo.
O Germano Comunista que ainda é primo do Abílio da Palmira & da Violante é que anda muito danado com isto do presidente da Junta falar muito da troika e do éfémi mas não fazer nada com as manilhas do saneamento no caminho que vai para as casas ao pé da Ribeira onde houve aquele incêndio dos bidões de resina e o Germano Comunista também anda chateado porque agora já não tem Sócrates para dizer mal dele e das roubalheiras e das clientelas e do têgêvê.
Isto no fundo a vida passa e o tempo também, qualquer dia é Natal outra vez embora este ano digam que é só pela metade o Natal, comigo é igual ao litro porque passo recibos verdes e sou patrão de mim mesmo quando a minha Violante deixa.

29/07/2011

12 por 7: um soneto (Leiria, noite de quarta-feira, 27 de Julho de 2011)

Quando ao porvir anteponho as passadas vidas
que vivi já e já passei,
nem sei que diga, eu nem sei
quão negras são as rosas rubras fenecidas.

Do ido, olvido não faço, que o não quero:
esquecer, é ser-s' apenas quem
de pai não veio nem de mãe.
E eu vim e vou. Eu vim e vou. Por isso, espero

do amanhã coisa qualquer que a vida tenha
e manter queira no viver.
E seja o que tiver de ser:

que indo estou, vindo que sou, como hei-d' ir.
Tal tudo vem, tal tudo vai: tal mãe, tal pai.
Se vou? Se vim? Rosa. Jardim.

28/07/2011

Rosário Breve nº 217 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 28 de Julho de 2011




De Guimarães a Luanda


Como cogumelos ou caracóis depois da chuva, proliferam por tudo quanto é sítio deste País certas e indeterminadas agências que se propõem comprar-nos ouro, prata (mesmo partida) e outros bens aceitáveis a penhor. São já quase mais do que aqueles “bispos” brasileiros que puseram Cristo a falar como o Zé Carioca e que, a troco do dízimo, nos garantem o milagre da saúde financeira, espiritual, familiar e matrimonial, para além da quebra dos quebrantos, da Sónia, da insónia, das invejas e dos maus-olhados vesgos que alegadamente nos fazem tropeçar no rançoso azeite da má-sorte. Para os penhoristas compradores de ouro e para estes curandeiros bíblicos não há nunca “casos impossíveis” – dizem eles.
Entretanto, o barco do País prossegue a bom ritmo e mau vento para o vórtice do naufrágio. Muito a norte, prossegue a comédia caríssima da Fundação Cidade de Guimarães Capital de Não Sei Quê, tendo e mantendo à cabeça a protocolar e inelutável banalidade de Jorge Sampaio. Cá mais para baixo, parece haver regozijo ante a iminente penetração no nosso “mercado” financeiro de “capitais angolanos”. Quero dizer uma coisa acerca destes famigerados e hediondos “capitais angolanos”. Para mim e para muita muito boa gente, “capitais angolanos” rimam com “carne e sangue e ossos humanos”: a carne, o sangue e os ossos de um povo infeliz e ingénuo que, depois de séculos de um colonialismo bacoco (aquele que lhe impusemos em nome de Deus e da Cerveja Cuca) e depois de décadas de uma brutalíssima guerra civil fratricida, se vê vergado pelo nepotismo de uma corrupção tão familiar quão vitalícia. Nem menos. Razão tinha o Bob Geldof quando apontou Angola como um dos países mais corruptos do mundo.
Aqui por onde moro, porém, tudo está bem. Os cafés vendem quatro bicas por dia, os bancos emprestam cinco euros se lhes pagarmos o triplo depois de amanhã, as farmácias decuplicaram o fornecimento de supositórios, o jardim público acolhe mais e mais desempregados contempladores do crescimento das flores e dos arabescos voláteis da passarada (coisa que muito incomoda os pederastas, os toxicodependentes e demais afins utentes), o ex-governador civil toca acordeão-esmola à porta da Caixa Geral de Depósitos, os ucranianos riem-se cada vez que nos olham e os chineses, como sempre, não percebem nem querem perceber nada do que se passa.
O que se passa – é que disto não se passa.

21/07/2011

Rosário Breve n.º 216 - in O RIBATEJO de 21 de Julho de 2011 - www.oribatejo.pt




Santa(na)rém

Tive um sonho acordado com o seu quê de perturbador. Alapado como um molusco à rocha da tarde (por uma destas tardes refrigérias que o corrente e medíocre Julho esparge de ventos frios e de céus foscos como lâmpadas de casino velho), dei por mim a receber uma revelação que não sei se reputar de apenas tonta, se de vera epifania iniciática. Esta aqui: a culpa de toda a infernália que afecta a famigerada “Zona Euro” é todinha da Câmara Municipal de Santarém. Nem mais nem menos. Com isto na cabeça, quem de vós, leitores meus muito queridos, não ficaria perturbado? Eu cá fiquei.
É do conhecimento geral, global e multinacional que, lá da terra dos cowboys, dos mórmones, dos escravos e dos séri’assassinos, por sinédoque América, descambam na Europa, via tridente das agências de “rating”, os mais vis e soezes e calculistas e córneos atentados à moeda (quase) única da alegada “união” europeia. Tudo para que o excesso de impressão e emissão da mais sanguinolenta moeda de que há memória (o dólar, p’x ’tá claro) possa continuar a financiar os procedimentos bélico-“humanitários” do zamericanos por esses afeganistões, líbias, sudões etc. De modo que quintalejos periféricos tipo a gente, a Grécia, a Irlanda e os que se seguem se vejam reduzidos a pó sob o tapete da senhora Melga e a inócuos rodapés de agenda do doutor Furão, gente que se genuflecte, às ordens como sempre de suas senhorias, ante a águia ultraconservadora dos “States”.
Mas – e então a Câmara de Santarém? Culpada da “deseuroízação” porquê? Não tive de bosquejar muito pela resposta. Porque não paga a quem deve. Pela-se toda para aparecer na televisão com um campino a tiracolo e restos de sopa da pedra na bigodeira, qual uma qualquer dessas “celebridades” instantâneas e solúveis como café de frasco que enxameiam a bigbrotheriana pantalha a todo o minuto e instante (Moita Flores naturalmente incluído, porque também ele filho da mesquinha televisibilidade patrícia). Não se trata este, porém, de fenómeno despiciendo, posto que consubstancia e consagra a extrema vacuidade da nossa cultura social: afinal, tivemos já ou não um Santana Lopes em primeiro-ministro?
Pronto, já me desperturbei. Ligando, como no título, Santarém a Santana, expliquei-me a crise. Modos que vou ali beber um copo e contar à maltosa do bilhar o génio que sou a resolver coisas.

14/07/2011

Rosário Breve nº 215 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 14 de Julho de 2011

Proust e os Tabuleiros de Tomar

Num livro intitulado A Pomba Apunhalada (todo ele dedicado à figura e à obra, geniais ambas, de Marcel Proust), o respectivo Autor, um italiano chamado Pietro Citati, escreveu:
“Não existe nada para além do nosso próprio destino, que não é mais do que o nosso carácter”.
Concordei de imediato. E mais concordei quando Citati evocou o discurso directo do incontornável e colossal criador de À La Recherche du Temps Perdu. Proust:
“Em todos os momentos da nossa vida, somos os descendentes de nós mesmos, e o atavismo que pesa sobre nós é o nosso passado, confirmado pelo hábito.”
Tudo certo, verdadeiro tudo. O (meu) problema é que, estas coisas lendo em prazenteira melancolia, me pus, literaturas à parte, a pensar (outra vez e sempre, como sempre) em Portugal.
O hábito. O atavismo. O destino. A pomba apunhalada. No nosso País, as crianças parecem nascer já octogenárias, ao passo que, na sombra corrompida e corruptora, rejuvenescidos decanos continuam urdindo o atraso, o conformismo, a acefalia, o encarneiramento, a PT, a GALP, o TGV, a Censura, a Lusofonia (esse espantalho analfa mais capaz de trepar bananeiras do que de redigir em português-de-cá uma frase limpa com sujeito, predicado e complemento), a Gastronomia Pimba e os Tabuleiros de Tomar sassaricados num alto de palanque por uma bicha doida mui pouco templária, assaz “manuelina” embora.
Estais a ver o (meu) problema: mesmo invocando Proust via Citati, não logro desembestar-me do (nosso) País. Bem mais fácil e feliz, sei-o bem, me resultaria embarcar anestesicamente nos fumos opiáceos da alienação artístico-literária. Pois: curtir umas livralhadas, fruir uns acordeonismos fadistas e lobrigar à sorrelfa, por essas praias embandeiradas de azul-ouro, as roscas de celulite das nossas linfas-ninfas divorciadas. Mas não. Por e para minha desgraça, não. Não tenho remédio: tudo se me volve analogia patrícia – e pelo lado errado do coração.
O nosso destino. O nosso carácter. O Coiso subandrógino nos Tabuleiros de Tomar. E o Tempo Perdido, sem Busca possível no improvável futuro em que, por atávico hábito e recorrente impermeabilidade ao uso de miolos, vamos continuar a apunhalar pombas e a pagar a araras de capoeira que dão-dão-dão às anquinhas plásticas no palanque de um corso que dantes, até por nabantino e popular, era bonito.

12/07/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 10 (fragmento 1)

10. UM HOMEM DE SUSPENSÓRIOS E QUASE 47 ANOS APRENDE PORTUGAL LENDO O JORNAL

Leiria, quarta-feira, 6 de Abril de 2011

(Fonte: edições do Correio da Manhã de 5 e 6 de Abril de 2011)

·        Na Cruz de Pau (Seixal), existe um estabelecimento chamado Café Golfinhos. Fica na Rua do Cacheu. Foi arrombado, ficou sem a máquina do tabaco.
·        Na Avenida Emídio Navarro (Coimbra), a dona do Restaurante D. Pedro desapareceu. Suspeita-se de marido e filho. Dela.
·        Carrinhas de transporte de valores sucessivamente assaltadas na Grande Lisboa pelo mesmo gajo (um tal João Filipe Varela Morena, 22 anos, ex-criado-de-mesa em café): Santa Iria da Azóia, Ramada, Santo António dos Cavaleiros, Odivelas, Cacém, Alfornelos, Olivais, Queluz, Carnide, Algés, Belém.
·        Existe no Montijo um estabelecimento chamado Papelaria Kraft. No dia 2 passado, agrediram uma cliente e a proprietária. Levaram cem euros e material exposto. Já tinha acontecido em Dezembro, mas sem porrada dessa vez, talvez por causa do Natal.
·        Em Corroios (Seixal), há uma discoteca chamada RS Dreams. De vez em quando, soam por lá disparos de revólver.
·        Há uma rua chamada Rio Tua na Quinta do Conde (Sesimbra). Há por lá uma casa onde os aniversários costumam resultar em hostilidade contra vizinhos e GNR. Estrangeiros ilegais, também há.
·        Silvares pertence ao Fundão. Rouba-se por lá combustíveis.
·        Canhoso é no concelho da Covilhã. Guardar, lá, ouro em casa é má ideia.
·        Alpedrinha ficou sem vários troncos de pinheiro.
·        Lisboa tem uma avenida chamada General Roçadas. Foi lá que uma velhota de 92 anos e o espelho de um automóvel se encontraram em movimento oponente. Sem gravidade, disse o Hospital de S. José.
·        Em Penafiel existe o Hospital Padre Américo. Recebeu jogadores do União de Paredes, vítimas ligeiras de um acidente ocorrido na madrugada de segunda-feira, 4 do corrente. O ferido grave, Daniel Silva, de 23 anos e condutor de um dos carros, foi correr perigo de vida para o Hospital de São João, no Porto. O União de Paredes milita na Série B da 3.ª Divisão. Também em Penafiel há uma rua chamada Tenente Valadim.
·        Outra vez na Quinta do Conde, outra vez Sesimbra. Assalto a uma loja de compra de ouro.
    ·       No Alentejo, entre Bencatel e Borba, andam a roubar cobre. Três postos de transformação da PT usados pelas pedreiras do senhor Joaquim Mendes Nobre (71 anos) foram gamados.

11/07/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 9



9. MEIOS AÉREOS

Leiria, segunda e terça-feira, 4 e 5 de Abril de 2011

A noite passada foi um turbilhão agradável: Adões e Pedrulha antes do regresso à Solum. Hoje, a brasa estival crepita na Primavera plena dos dias: segunda-feira encalmada, rija, matadora de casacos e pedinte de bonés. Um banho de ouro remunera o peão da Cidade.
 *
 E o hoje torna-se ontem – e o amanhã é agora. A nova manhã esparge-se toda, toda aurescente, zimbrada toda a sombras muito puras do lado avesso aos ponteiros do relógio.
 *
 Os olhares são meios aéreos. 

07/07/2011

Rosário Breve n.º 214 - in O RIBATEJO de 7 de Julho de 2011 - www.oribatejo.pt


Tragicomédia em III actos

Contaram-me esta, há anos já largos, como verdadeira. Partilho-a convosco porque é tão mais cómica quão, de base e de facto, trágica.
Uma portuguesíssima família da classe média foi de férias para o Algarve. Todos foram: pai & mãe, avó viúva & netos & cão. Escolheram, decerto por economia e bucolismo talvez, o campismo. A viagem para Sul correu bem. Havia lugar no parque. Armaram a tenda, assaram uma sardinhada, foram arrotar de calções para a praia mais perto, voltaram, assaram uma carapauzada, foram arrotar de calções para a esplanada mais perto, voltaram e ressonaram a primeira noite como anjos urbanos pacificados pela asma mista do mar e dos pinheiros. A tragédia só começou de manhã.
I ACTO: A avó amanheceu morta. Ninguém tinha dado por nada, nem sequer o cão. Pai & mãe mandaram os filhos comer gelados ao bufete do parque e puseram-se a conferenciar. Que as férias estavam estragadas. Que o raça da velha. Que uma coisa daquelas só a eles. Que a carreta fúnebre de lá de cima ir-e-vir ao/do Algarve haveria de ser uma fortuna. Etc. Vai disto, decidiram-se a embrulhar a defunta na barraca, a acondicionar tudo com cuidadinho no tejadilho do carro e a rumar para Norte sem tuge-nem-muge.
Alas que se não fez tarde, assim procederam.
II ACTO: Tendo parado pelo caminho num tasco de bifanas para restauro, retempero e refrigério, não demoraram mais de vinte minutos. Horror: à saída para o estacionamento, só deram com o lugar onde carro e avó os deveriam esperar. Pai & mãe mandaram os filhos comer gelados ao tasco e puseram-se a conferenciar. Tinham de participar à GNR. Como explicar a avó, não sabiam. Logo se veria.
III ACTO: O resto desta tragicomédia, sabe-o o meu leitor tão bem quanto eu. A analogia (para isso são escritas, representadas, vividas e repetidas as tragédias e comédias desta vida) é facílima: a) A viatura roubada faz de Assembleia da República; b) A família viva (cão incluído, naturalmente) é a bancada parlamentar do PSD da era Passos Coelho; c) A avó morta (e embarracada) só pode ser (politicamente, está bem de ver) Fernando Nobre.
Cai o pano.

06/07/2011

outro, de hoje'agora mesmo

Uma pessoa é uma coisa para lavar por dentro
para trazer lavadamente ao colo ao tiracolo
do pensamento.

fragmento de ontem assim de repente outra vez

A maior parte do corpo deseja sempre viver.
A menor, viver para sempre.
Ambas morrem.

05/07/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 61 - Leiria, segunda-feira, 4 de Julho de 2011



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61. LAMPEJOS OPALINOS PARA COROAÇÃO DO CORAÇÃO

Leiria, segunda-feira, 4 de Julho de 2011

Hiberno em pleno Verão os meus lutos. Desperto e ponho-me (sonho-me) logo a viver o mais devagar possível. Dou-me a conciliábulos ante a quieta liturgia (letargia) dos objectos da Casa, primeiro, depois ante a dos da Rua, do Rio. É quase alucinatório e quase vegetativo – mas (ainda) não mata, ou enlouquece, ainda não. É transfiguração – isso é – e usa harmonias várias. Dão-se-me, por assim dizer, lampejos opalinos. É a coroação do coração.

*

É muito provável que as páginas (ou seja: os dias) que venho, vou e irei escre(vi)vendo mais não possam do que roçar a implacável inefabilidade dos meus vícios, das minhas atitudes e das minhas vicissitudes. Talvez. Só que não posso deixar de perseguir em tinta (im)permanente o esmalte coralino-nacarado da luz que a tudo enverniza, havendo Sol: as folhas das árvores coruscando conchas ópticas, pérolas fotossintéticas que, à imagem e semelhança das estrelas de uma clara e lavada noite de Verão, refulgem-chispam-faúlham-centelham-cintilam jaspes, ónixes, opalas, safiras, ametistas, topázios, madrenácares, ágatas, o tudo resultando em uma perturbadora (que não turva) minúcia, naquilo a que não posso deixar de chamar alumbramento. Os rostos e os flancos das coisas (incluindo, é claro, pessoas e animais) incandescem, eflorescem, celebram as suas involuntárias emanações reveladas e reveladoras – e fazem-no em púrpura branca, em leques e plumas, sedas e chitas, numa ganga luminoverbal que entontece até o menos coroado coração. Por exemplo, as mulheres de Leiria, porque também ninfas, são Lísides: ou Tágides do Lis. Aprecio delas as crinas lavadas e brilhantes, espécie de ouro-em-couro, cada uma delas em estatuto tríptico de limiar-pórtico-umbral de algum homem que não eu: heráldicas bem acampadas num florão ébrio de luz, linhagens que fecham, abrem e prolongam os seres a porvir, ginogenealogias como capas de revista com filhos em manchete. Tanta cintilação é uma maviosidade pictórica, sem dúvida. Acresça-se-lhe a farda das pombas, essas encarnações voláteis dos dias de chuva – ou damas de salão francês finissecular condenadas pelo anacronismo da modernidade à frígida frivolidade da sobrevivência omnívora e da mundanidade nunca impune.
(Mas Dinis ama Isabel como nunca e Isabel ama Dinis como sempre.)
Catedrais e mosteiros das pombas proustianas (e dinisabelianas também, como não?), Amiens, Bourges, Chartres, Reims, Rouen, Leiria, Batalha, Lisboa, Coimbra. Mas claramente sei que as linhas do meu livro (do meu dia enca(de)rnado) são o que parecem e de que perecem: gestos gastos quase viris, quase varonis e, caramba!, quase vis. Estou em plena tarde da minha vida, pois que viver se me fez tarde. Os nervos servos dos olhos escre(vi)ventes, um pária-em-pátria-própria, poderei deveras ser Dinis?

04/07/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 60 - Leiria, domingo, 3 de Julho de 2011

60. PARECIA NEM EXISTIR

Leiria, domingo, 3 de Julho de 2011

Em pleno Estio, o dia foi baço, de céu baixo dado a cinzas e a poalhas de água. Os domingos já são vazios, mas assim são-no bem mais. Só saí de casa à boca da noite. Leiria parecia nem existir. Vim pela beira do Rio ao resguardo remansoso das árvores. Impossível evitar que à cabeça acorresse a melancolia, essa seda da tristura da vida & da morte. Ruas e praças vãs, não porém desprovidas de certa sumptuosidade. Nem refracção, nem iridescência. Um entardenoitecer de implacável brandura. Morosa, amorosa, untada e ungida, a urbe suporta como pode que os de regresso a casa o façam na condição de silhuetas escuras, esvaziadas, sombras sem peso de si mesmas. 

30/06/2011

fragmento de repente

Já agora à sombra exerço
o remanso que meu Pai usava
quando era lindo e vivo e branco
e a vida a viver se acostumava.

Rosário Breve n.º 213 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2011 - www.oribatejo.pt


Dito com os nervos

Só num país miserável é que um centro de saúde obriga os respectivos utentes a medirem a tensão na farmácia mais próxima, digo-o eu com os nervos.
Só um país infecto é que obriga um ex-primeiro-ministro a ir de fax estudar filosofia em “francês técnico” para Paris-de-França.
Só um país vazio é que dá tanta atenção a um acidente de automóvel tripulado por “celebridades” vácuas.
Só um país irresponsável é que tem no calendário uma época de incêndios tão certinha como a morte e os impostos.
Só um país bovino muda de ortografia como quem não muda de preservativo.
Só um país com 860 quilómetros de costa mata as pescas, Aníbal.
Só um país com tanta terra e tanto sol aniquila a reforma agrária, Barreto.
Só um país sem uma pinga de sangue nas fuças admite que a família do derradeiro director da PIDE possa processar um teatro e gente de bem por causa de uma peça que relembra os crimes torcionários da polícia política criada por esse morcego eunuco que se chamou Salazar.
Só um país sem cuecas nem parte da frente se abstém de tudo o que não seja o emprego da sobrinha, a cunha da cunhada, a fuga ao fisco, a escolaridade sem esforço, o empenho do anel, o garrote do dedo, a mariquice a tiracolo e a mãe que o teve atrás de uma moita.
Só um país inimputável é que aceita esperar 15483940593847 dias por uma cirurgia que tantas vezes significa essa desprezível diferença entre a vida e a morte.
Só um país irreciclável é que tem de trocar tampinhas de garrafas de plástico por cadeiras-de-rodas.
Só um país sem lei nem moral nem ética nem toga nem nada é que não investiga, não esclarece e não pune uma corja de candidatozecos de dentro a juízes de fora que copiançam à fartazana em testes “amaricanos” tipo nóvóportunidades.
Tenho por isso, Zé, de te dedicar em bom francês este fecho de crónica: Je ne crois pas du tout, mon petit rien, que tu sois capable d’entendre l’acceptable minimum d’un Althusser, d’un Greimas, d’un Foucault, d’un Camus, d’un Kierkegaard, d’un Schopenhauer, d’un Nietzsche, d’un Marx ou même d’un Tony Carreira version camembert tipo serra-da-estrela. Sais-tu pourquoi, pá ?
Parce que, la-haut, à Paris, on n’achève jamais des cours au dimanche, que é como quem diz ao domingo.

Canzoada Assaltante