Thursday, July 21, 2011

Rosário Breve n.º 216 - in O RIBATEJO de 21 de Julho de 2011 - www.oribatejo.pt




Santa(na)rém

Tive um sonho acordado com o seu quê de perturbador. Alapado como um molusco à rocha da tarde (por uma destas tardes refrigérias que o corrente e medíocre Julho esparge de ventos frios e de céus foscos como lâmpadas de casino velho), dei por mim a receber uma revelação que não sei se reputar de apenas tonta, se de vera epifania iniciática. Esta aqui: a culpa de toda a infernália que afecta a famigerada “Zona Euro” é todinha da Câmara Municipal de Santarém. Nem mais nem menos. Com isto na cabeça, quem de vós, leitores meus muito queridos, não ficaria perturbado? Eu cá fiquei.
É do conhecimento geral, global e multinacional que, lá da terra dos cowboys, dos mórmones, dos escravos e dos séri’assassinos, por sinédoque América, descambam na Europa, via tridente das agências de “rating”, os mais vis e soezes e calculistas e córneos atentados à moeda (quase) única da alegada “união” europeia. Tudo para que o excesso de impressão e emissão da mais sanguinolenta moeda de que há memória (o dólar, p’x ’tá claro) possa continuar a financiar os procedimentos bélico-“humanitários” do zamericanos por esses afeganistões, líbias, sudões etc. De modo que quintalejos periféricos tipo a gente, a Grécia, a Irlanda e os que se seguem se vejam reduzidos a pó sob o tapete da senhora Melga e a inócuos rodapés de agenda do doutor Furão, gente que se genuflecte, às ordens como sempre de suas senhorias, ante a águia ultraconservadora dos “States”.
Mas – e então a Câmara de Santarém? Culpada da “deseuroízação” porquê? Não tive de bosquejar muito pela resposta. Porque não paga a quem deve. Pela-se toda para aparecer na televisão com um campino a tiracolo e restos de sopa da pedra na bigodeira, qual uma qualquer dessas “celebridades” instantâneas e solúveis como café de frasco que enxameiam a bigbrotheriana pantalha a todo o minuto e instante (Moita Flores naturalmente incluído, porque também ele filho da mesquinha televisibilidade patrícia). Não se trata este, porém, de fenómeno despiciendo, posto que consubstancia e consagra a extrema vacuidade da nossa cultura social: afinal, tivemos já ou não um Santana Lopes em primeiro-ministro?
Pronto, já me desperturbei. Ligando, como no título, Santarém a Santana, expliquei-me a crise. Modos que vou ali beber um copo e contar à maltosa do bilhar o génio que sou a resolver coisas.

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