10/11/2007

Poema para Mães Solteiras e/ou Cavalos (Grátis)

Bom dia todos os dias para toda a gente.
Regresso com as listagens de busca da www.
Já nem comento a riqueza disto: não posso ficar com ela(s) só para mim.
Aqui vai coisa rica, portanto.

******

Qual a causa de o porco não engraçar com os mecânicos de atomóveis
estante de marmore terrinha
animais que moram na taiga
fotonovela "simplesmente maria"
jaquetas de couro laivo
minha cunhada foi operada a dois meses do útero
venda de rulotes para cavalos
www com dr bem familia band daniell urinar
licor medular na raça canina
paulo coelho poesias sobre negros
jogo de home aranham
procuro pastelaria para aluguar na zona das paivas ou amora
relógios condor grande de aço com puseira em borracha
quem foi o salteador joao brandão
canil nijinsky
anjo da decisão
profeta elias para colorir
poemas de cavalos grátis
posso dar agua fervida para peixe de aquario que nao presiza de oxigénio
prosa dos anos trinta
loja que faz protese mamaria e soutien sob medida
feridas q dao em pessoas q estão acamadas
a paroxetina deixa os dentes amarelos?
poemas com carago
tudo sobre os castanheiros
telefonaram-lhe um homem e uma mulher
loja de anilhas em ouro para pombos correios
mealheiros com pintainhos
julio cortazar ditadura blusa
jornal a tarde policial matou mulher e depois se matou 2005 salvador
Por que motivo o interior das latas de alguns sumos cervejas concervas são revestidos com estanho
vento na saia
PARTITURAS GRATIS DE CHOPIN POSTUMOS
sombras chinesas com bonecos articulados
bolinha vermelha transparente gengiva
zundape
registos e pagelas
desenhos de castanheiros para colorir
poemas maes solteiras

09/11/2007

Foto

© : foto de Sandra Bernardo para o Jornal do Centro de 9 de Novembro de 2007
(relativa a incêndios que grassaram em Vouzela no dia 7-11-07)

Herbário de António, o Santareno


Hoje, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), esta homenagem a um dos maiores escritores de sempre da Língua Portuguesa.
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No Verão de 1996, tive nas mãos o herbário juvenil de António Martinho do Rosário, depois (e espero, apesar de tudo, que para o maior sempre possível) conhecido por Bernardo Santareno, o grande dramaturgo de ‘O Judeu’, ‘O Crime de Aldeia Velha’, “António Marinheiro” e de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, entre tantas outras obras de lugar cativo na nossa tão rica como amnésica portugalidade.
Estagiava eu então na RDP/Antena 2, onde, a troco de estar calado, fui remunerado com a riqueza de ouvir e ver coisas e pessoas de outra dimensão que não apenas esta nossa merceeira condição de sobreviventes a prazo e a malefício de inventário. O herbário de António (não ainda Bernardo) é o que um herbário antigo tem de ser: uma antologia de folhas e flores coladas de costas ao papel do Tempo, esse impiedoso combustível. Enterneceu-me poder manusear um objecto criado pelas mãos do grande escritor quando moço. Por assim dizer, revisitei, pela mão dele, o tempo dele: as flores dele, as folhas dele, a botânica juvenilidade dele. Depois foram, para ele, os anos de Lisboa: médico psiquiatra, escritor de teatro, homossexual discreto, sombra solitária, portador de óculos de espessos aros, gravata decente, perpétuo cigarro ao canto da boca, sentido atento às vozes de dentro que, soltas dele, se tornavam, fora dele, corpos de actores. Os tablados dramáticos encheram-se dessas vozes, dessas vozes por assim dizer herbárias: borboletas vegetais alfinetadas pela revisitação das nossas História, Língua, Pátria, Moralidade, Sensualidade, Criação, Alma, Hipocrisia, Solidariedade, Tragédia; e dos nossos Drama, Desamparo, Confronto, Cérebro, Vazio, Frio, Fado, Exílio, Silêncio e Desconhecimento. É justo que pouco ou nada disto vos interesse grande ou mínima coisa. É justo que sejamos diferentes, a começar pelos interesses. Esse é, aliás, um dos ganhos a obter da leitura da obra de Bernardo Santareno, esse senhor de quem alguns manuscritos andam perdidos por obra e desgraça da má hora em que deles tornou herdeiro um rapazelho de duvidosa honra e proxenética condição: a justiça da diferença contra a injustiça que toda a indiferença é. Eu sei: o Povo (essa entidade concretamente humana que vive numa abstracção animal) não vai ao teatro, não gosta de pensar nem de se repensar, prefere mostrar as cáries no desbragamento da gargalhada, gosta mais de broa. Três décadas apenas depois do 25 de Abril, não estamos melhores por aí além. Não sabemos mais, não conhecemos mais nem minimamente nos reconhecemos: como Povo. Queremos ser da Europa sem saber ao certo onde é que isso fica. Deve ser ao pé da Turquia. Temos liberdade de expressão, é certo, mas não sabemos exprimir-nos. Votamos massivamente na Abstenção, desconfiados de que, seja quem for que lá ponhamos, é para nos roubar. E nem sabemos quem foi e o que fez Bernardo Santareno. Posso dar uma ajuda.
Era António. Juntou flores em pequeno.

08/11/2007

Alcunhinha

Amanhã, sexta, 9 de Novembro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), mais uma croniqueta da série Rosário Breve.

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Alcunhinha

Sou amigo de um fulano muito muito muito pequenito. Cada vez que ele vai de férias, a Branca de Neve fica só com seis anões. Não faz mal nenhum a Branca de Neve não existir: eu digo-lhe isso na mesma, a malta ri-se e ele também. Em jovem, ainda almejou tornar-se enfermeiro, mas como lhe escondiam sempre os medicamentos, mesmo depois de ter feito 30 anos, acabou por desistir. Hoje, trabalha nos Correios a acartar selos, um de cada vez. Com uma auto-ironia não isenta de amargura, equipara a vida profissional à sua existência interior e à sua volumetria orgânica: “É uma posta restante”.
Todas as sextas-feiras, pela tardinha, vamos cervejar em roda numa marisqueira amiga. Ele também vai, é claro, mas só o deixamos beber cerveja pelos cálices de anis. Mesmo assim, embebeda-se mais depressa do que qualquer um de nós, homens. No regresso dessas sessões com que suturamos a brevidade da vida e supuramos a eternidade do envelhecimento, redobramos o cuidado: já aconteceu duas ou três vezes que um cão o levasse na boca. Quando chegamos a casa dele, tiramo-lo das cavalitas e entregamo-lo ao colo da mãe, a que ele se aninha num coma feliz de bebé anacrónico.
Ele não é social-democrata, mas acudiu com fervor pelo Marques Mendes, naturalmente. Quando Menezes ganhou, ele sentiu a desfeita como um agravo pessoal. Fomos consolá-lo na marisqueira amiga.
Entre nós, o melhor prato é a memória de quando ele regressou do dentista com uma cremalheira de ferro nos dentes de cima. Começámos todos a trazer um íman no bolso de trás das calças, de modo a atrair-lhe a cara ao nosso traseiro cada vez que ele, como todos os pequenitos, se punha a dizer bem do FC Porto.
Mas nada do acima exposto significa que lhe não tenhamos amor. Tanto assim é, que, embora ele se chame Lopes, só o tratamos por “Portugal”.

07/11/2007

Cartas da Nascente

Esta é história nº 77 da rubrica 1002 Noites, 3ª hora do programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela (todas as noites de segunda a sexta, entre as 20 e as 24 horas - em 91.2 FM ou www.emissoradasbeiras.radios.pt). Sobre o programa, ver www.anoiteceraotomdela.blogspot.com.


...............................
Cartas da Nascente

1
O passo dado para trás já não interessa. Conta, mas não interessa. Só o desconhecido é interessante. Veja-se este homem descendo a nascente pelo centro exacto do leito. O vento dá-lhe cotoveladas de vidro, que ele recebe sem ofensa nem registo. A água vai bebendo a luz para ter o que dar de beber às sombras crescentes em torno.

2
É um homem com um saco descendo a nascente. Ele não tem frio. Um pouco de pressa, talvez, mas não frio. O saco tem três cartas por abrir. Nenhum dos envelopes tem o destinatário escrito. O que interessa é o que está dentro, não o que fica fora.

3
Entre a folhagem que ladeia a carreira, pequenos animais conspiram a existência. Deus conhece cada um deles. Nenhum deles reconhece Deus. Isso não ocupa nem preocupa o homem do saco, que segue a sua vida como se a vida dele fosse à frente. À frente e para baixo.

4
Surgem já as casas da última povoação deste mundo. Foram construídas sem ajuda de máquinas. Mãos e braços empilharam ossos e pedras, barro e cal, vidro e telha. As casas tornaram-se definitivas. Purificaram o frio e resistiram ao calor. São três casas, tantas quantas as cartas no saco.

5
Ninguém está dentro da primeira casa. O homem escolhe a primeira carta, baixa-se para a porta, aponta a carta ao espaço entre a porta e o chão do degrau. Sozinha, a carta entra, aspirada pela respiração solitária do vazio.

6
Ninguém dentro da segunda casa – e tudo acontece de novo. O homem, a carta, a recepção mágica. A primeira carta já não interessa, a segunda também não. O homem reergue-se, passa à terceira carta, à terceira casa.

7
Há duas crianças à porta da terceira casa. A porta está fechada nas costas das duas crianças. São duas meninas. Estão vestidas de branco. À cintura, usam uma faixa grená de que pendem dois coelhos mortos, um por cada menina. O cabelo delas é negro. Mas sobre as fontes é branco. E as mãos delas são enrugadas e agudas e vermelhas como pés de pombas.

8
Agora, o homem está parado de frente para as duas velhas meninas. Não lhe é possível baixar-se perante a porta, tal que a casa vazia possa aspirar a carta. Entre o homem com a carta e a casa sem gente estão as duas crianças antigas. Ninguém fala. Os três ouvem.

9
Não há mais casas. Não há mais cartas. Não há mais homens. Não há mais meninas. Três casas. Três cartas. Um homem. Duas velhas. A nascente não passa daqui. Não se pode voltar para trás.

10
As cartas são escritas para ninguém. Trazem palavras dentro, mas não há leitura. Noutro mundo que não este, talvez a correspondência seja possível. Mas outro mundo implica outra nascente e outro nascimento. E isso interessa, mas já não conta.


Caramulo, tarde de 7 de Agosto de 2007

05/11/2007

Fala o Rei Crisóstomo mais Dois Poemas

I. Fala o Rei Crisóstomo perante seu Filho Único, Príncipe, Jacente e Moribundo

Não serás, meu filho, o marinheiro
que histórias de ama te ensinaram a ansiar.
Incunábulo algum de cavalaria nenhuma
te susterá a dourado o nome adorado, pois que
até o nome perderás, adormecendo.
Mais do que a mim, às crianças vivas abandonas,
tuas contemporâneas rápidas – e súbditas tuas,
um dia já nunca.
Tão jovem, nem torrada melancolia apagarás
de algum incêndio teu em de uma mulher
o corpo e a alma e o leito – disso, porém,
não suspires, que mais queima tê-lo ardido
que por tal arder.
Ferros não cruzarás com sangue: nem de besta
infiel, nem de humano bárbaro – pelo que
outra guerra não levarás à morte
que a de tão pouco teres vivido.
Assim ainda, amado foste mais do que breve.
Tua Mãe gane pelos paços tua dela ferida
mortal, mas que nem ao de leve te assome dela
o cuidado, pois que dela, breve, longa
ânsia láctea voltarei a fecundar,
em teu lugar.



II. Agenda

Insondável cronologia, a dos milhafres
no céu do domingo: nunca domingo
para eles, sempre segunda-feira.



III. Na Sala de Espera

Estou há muitos anos sentado na sala de espera
do posto de saúde. Tenho há muitos anos
a mesma idade. A minha Mãe conversa para o lado
com outra Mãe. O quarentão filho da outra Mãe
tem a minha idade. Não conversamos um
com o outro. Não. Esperamos.
Esperamos que nos chamem.
Até hoje.
Até amanhã.



Caramulo, tarde de 4 de Novembro de 2007

Tudo Sobre os Castanheiros ou Então Quase Tudo

Bons dias! Ora aqui vai mais uma famigerada enxúndia de "versos" dos motores de busca. É coisa rica. É entrar, é entrar!


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Qual a causa de o porco não engraçar com os mecânicos de atomóveis
estante de marmore terrinha
animais que moram na taiga
fotonovela "simplesmente maria"
jaquetas de couro laivo
minha cunhada foi operada a dois meses do útero
venda de rulotes para cavalos
www com dr bem familia band daniell urinar
licor medular na raça canina
paulo coelho poesias sobre negros
jogo de home aranham
procuro pastelaria para aluguar na zona das paivas ou amora
relógios condor grande de aço com puseira em borracha
quem foi o salteador joao brandão
canil nijinsky
anjo da decisão
profeta elias para colorir
poemas de cavalos grátis
posso dar agua fervida para peixe de aquario que nao presiza de oxigénio
prosa dos anos trinta
loja que faz protese mamaria e soutien sob medida
feridas q dao em pessoas q estão acamadas
a paroxetina deixa os dentes amarelos?
poemas com carago
tudo sobre os castanheiros

04/11/2007

Dia 3 de Novembro de 2007- II - Tarde, Viagem e Noite




Do mundo ambas, formosura e tristeza equivalem-se em intensidade e suave espanto. Por causa de ambas, também, vim para este ofício desassalariado de escritor de província.

Olhai-me estas águas: a luz, a colectiva individualidade do arvoredo, as flanelas de sombra guardando cantos, a mulher de saca-serapilheira na mão e foice engastada no ombro descendo a estrada rumo às marés da erva, o nanismo dos eucaliptos jovens fervilhando de vida na terra nutriente, a presença invisível dos lençóis freáticos, as vivendas congeladas na claridade, a parrésia ubíqua do sábado do Universo, os nomes das terras como poemas breves e suficientes.

Eu sei, eu sei: viajais comigo. Dar-vos isto é tudo o que quero – e posso. Dar-vos a rápida fortuna dos limoeiros, um por pátio, em clarão óptico. A caminho da cidade, resguardado pela veterania que concede apaziguamento, resigno-me na desconformidade descomunal do mundo. Não é esta uma estrada com putas de berma, pelo que posso fauná-la de ridentes meninas gratificadas de tule azul – como as do sul da minha vida. Não ignoro que resulta improvável dar-vo-las a ver, mas sou, como toda a gente, feito de aproximações – ou de tentativas.

À frente, uma camioneta letreira Transporte de Gado Vivo, a começar pelo condutor, suponho. Entre tábuas, os olhos dos animais violados à nascença por Deus, o Magarefe-Mor destas bandas siderais. (Má conversa para levar a Viseu, aldeia metafísica infectada de seminaristas e de bacocos sintonizados ad aeternum na TV-Fátima – mas não deixo nunca de chispar o látego aos lombos das vãs criaturas e das vis obras do Senhor: que os pariu a todos, enfim.)

Desvio do trajecto por Fail: novidade, há obras no itinerário principal. Desagradável, no entanto, é a constância pós-prandial dos bocejos. Escancaro a bocarra como um contentor de tampo empenado e solto uns urros proboscídeos que me caem mal ao atavio de prosador das berças. Bocejo tanto e tão fundo, que me sinto descalço, tal o arrepanho das íntimas febras venosas. Chegada a Viseu, entretanto.

Subo do Teatro Viriato à Rua Direita, tiro um par de fotografias à esquina da Rua Escura, ingresso numa confeitaria com discrição. Vou à privada e ejecto bens fisiológicos que me atormentavam os odres desde a chegada à cidade. (Como é maior, nos tempos que correm, a produção do que a recepção literárias, isto é, como se desproporcionou a relação entre cifra e decifração, isto significa que fui cagar.) Discreto sempre, tomo um café para não fazer do estabelecimento uma sentina sem consumo mínimo. Não me demoro muito, o tempo só de tomar o café e escrever este parágrafo: é que a aparelhagem sonora da casa emite a vozinha glande-cristã, ou prepúcio-emigresa, do Tony Carreira, o trovador que todos nós, por castigo, acabámos merecendo.

Tenho sorte: a luz, que é eterna, na cidade antiga. Não está frio, existir parece, ao menos esta tarde, uma coisa temperada. Subo à Praça de D. Duarte, alguém subiu uma braçada de flores ao Rei. Um turismo manso de crianças e máquinas digitais a tiracolo pervaga pelas calçadas vetustas servidas de comércio por igual manso. Atiro-me devagar ao Largo do Pintor Gata, miniaturista íncola que foi de dois séculos: XVIII e XIX. Entro no bar irlandês para um copo de cerveja e um exercício mirone mais. Aqui, ao menos, não passam o Tony nas colunas. Não preciso de esforço algum para confessar que esta cidade me agrada. A primeira referência que tive dela foi na meninice – e veio de uma das pessoas cuja memória me é das mais queridas: o meu Professor dos quatro anos de escola primária, esse cavalheiro humaníssimo chamado Elias Rodrigues Faro. Para que se me não humedeçam os olhos à sua evocação, fecho já o parágrafo, a consciência e o caderno.

Retomam as sombras já
delas o lugar primevo:
digo – o mundo.

Anoitece-nos a hora. Olhai:

podemos colher do ar
a macerada violeta crepuscular.

Nem sempre, mas vezes há em que o Tempo nos dá a face para que o toquemos a ele nela. Mulheres e homens haverá que assim procedam – mas conheço tão pouca gente, que aventar é o mais que posso: e devo. Recolhi ao Esquina. Sou o único cliente do café. Pierce Brosnan desempenha na TV um 007 mais. A luz fez-se pó – e o pó voltará a carvão. Dilui-se a boca do céu em sua mesma saliva: uma baba anil que dilui até a amargura. Eu agora aceito isto com uma resignação de veterano. Adiro, paulatino, à física dos diluentes. Eu sei: a serenidade é trágica, como a revolta é uma comédia. Somos os vivos e os mortos, luz e sombra nos jogam. Em lugares tribúnicos da imprensa regional, arengo ainda inofensivas moralidades de crítica sociopolítica. Aqui, calado, não: assisto à fotogenia da realidade, a suas formosura triste e tristeza formosa.

A vida não é trágica sozinha. Precisa de uma consciência para sê-lo.

Recorto da visão de um homem velho a mão esquerda. Uma mancha roxa carimba-a de um estigma cartográfico. É uma mão que já tudo pôde: nada pede, agora, a não ser viver um pouco mais a existência aracnídea de toda a mão. Que terá matado esta mão? Que terá ajudado a nascer? Estrela e tarântula: como toda a mão.

Num café crepuscular, receber a violeta: digo – o mundo.

Gostei da limpeza das ruas, da pátina morena das pedras dadas ao sol. De pautas altas de segundo andar ouvi as notas de cor da roupa posta a secar. A caminho da noite, fui tomado de uma alegria invencível, esta: a temperatura favorecendo que algumas árvores da António José de Almeida chilreassem como realejos de passarada viva. De muita música é feito o silêncio interior de um homem caminhando a seu tempo. Traspassa-lhe a emocional porosidade certa devoção do comércio à efemeridade gentia dos peões. Reina dos céus o dardo epifânio: uma frecha de ouro amnistiando uma casa ensombrecida. Eu se calhar gosto da vida, embora lhe prefira a ortoépia.

Caramulo-Viseu-Caramulo, tarde e noite de 3 de Novembro de 2007
Foto: Viseu, tarde de 3 de Novembro de 2007

03/11/2007

Dia 3 de Novembro de 2007- I - Manhã e Ante-Alba




Não deve ter sido muito antes da alba. Acordei revisitado por fotogramas dos anos 1982-84: gente de Trouxemil-Adões, a norte de Coimbra e a sul da minha vida. Fechei os olhos para receber com maiores nitidez e clarividência esses rostos tisnados pela ruralidade proletária e pelo meu afecto. O Guedes, o Saraiva, o Silvério, a Maria, a Irene – e o Raul, de quem a Irene ficou viúva tão cedo. O Farrê, o Idílio, o Aurélio, o Carlos, os Cações, o Vasco, o Acácio, o Coelho, o Crisóstomo, os dois Álvaros, o Quim. A Rosalina, o Álvaro, a Cristina, os dois Américo Branquinho, pai e filho, o senhor Manuel Claro e o pai dele, António Claro, gémeo que foi do pedrulhense Manuel Preto da minha infância, casado com a ti Maria Sol, uma alcoólica gentil e silenciosa que revi passar a caminho da taberna-mercearia-carvoaria do senhor Carlos e da senhora Eduarda a comprar, várias vezes ao dia, meios litros de tinto traçado com gasosa. Chamavam-lhe Maria Sol por ter sido tão linda na mocidade. Num ápice, a minha rua da Pedrulha (então Lameira do Saramago, hoje 1º de Maio) clareava ao fulgor triste e feliz de 1970-73 – quando tudo começou a ser eterno até pouco antes da alba de hoje, 3 de Novembro de 2007.

No périplo todo mental por aldeamentos e públicos, fui revistando os meus vários corpos e a minha insuficiência única. A janela do quarto filmava a árvore a que chamo japonesa por ignorância botânica e literária veleidade: uma silvigrafia enxuta ao vento frio na ante-alba de papel vegetal. Resisti bem às sereias da tristeza: ouvi-as sem me deixar naufragar na praia espúria da montanha.

Isto pode parecer agora literatura, mas não o era antes da alba. Era apenas um homem repassando as brasas frias de rapaz, primeiro, e de menino, depois – ao contrário da sensatez da cronologia, como é tão do gosto da memória fotogramática. Também sabia, na instante profundidade do momento, que a escrita acabaria irrompendo de tais criptas de futebóis e primeiros alcoolismos – o que agora acontece por voluntária fatalidade.

Adormeci de novo, não acordei tão cedo quanto de costume. Nada me doía. Fui à cozinha beber água, liguei o portátil, consultei o correio massivo (poesia argentina e propostas nortamericanas de enlargement do meu loló), adentrei a banheira e perfumei-me de sabão sob a chuva domesticada. Enfiei-me nas calças, atirei pão com queijo para dentro das catacumbas gástricas, tomei um café negro e coruscante como um olho bovino. Todo o sábado solar à minha frente, traspassando-me já a porosidade emocional. Como plano para o dia, o projecto simples de Viseu pela tarde, ir talvez com a cachopa ao cinema à noite a ver aquele filme da Elizabeth I contra o Resto do Mundo (ou seja, Espanha).

Há minutos: no Largo dos Castanheiros, o senhor Joaquim do táxi colhendo as castanhas públicas. O chão, cravejado de ouriços vegetais, amacia o andar. Chega ao rosto um perfume morno de pão e bolos. Crianças idiotizadas protagonizam na televisão uma infantilidade falsa. Deixo-me estar na modorra matinal, saturnina, por assim dizer feliz da vida. Penso em alguns papéis que há semanas me esperam – ou anos – na mesa uns, outros em caixas de cartão que fazem do chão do escritório um arquipélago museológico. Do televisor, escoaram a criançada obtusa e lisboneta para dar um programa de tubarões. Boas máquinas de matar, os tubarões. Mas eu preferia ver o mar vivo ao vivo. Não pode ser. Só se for em versos – e agora não estou para isso. Comprar pão, voltar para casa, pôr a panela ao lume, ir à varanda colher um ramo de salsa, olhar a Estrela no outro cabo do mundo, deixar entrar a tarde pela mais larga porta.

Caramulo, manhã de 3 de Novembro de 2007

02/11/2007

Outro Dia D na Segunda Manhã N

Fotografia: © Gordon Parks, The Bridge (1995)
*****


Não me abandonou, ainda não, a claridade fria da manhã – nem a esperança que projecta cada noite como a um gesso negro.
Ontem, Dia de Todos os Santos, ardia o gás do ar a uma constância álgida, também. Manhã muito cedo, olhara-me lavando-me. Estrangeiro do meu corpo, vestido de água e espuma, de um ponto de vista que não sei localizar – pois se todo sou este corpo, como dele me penso a salvo, olhando-o – como se me não visse? Depois, na pastelaria, a tarde cedeu-me a trégua de um filme português do ano 1945, A Vizinha do Lado. Era como nos sonhos: mau som e tudo a preto-e-branco. Entre cenas da película, limitei a minha vida a uma cerveja e a quatro versos, estes:

De alhures janela alta assistimos
ao corpo que somos.
Nem janela nem corpo entendemos
– o que somos, o que vemos e ao que estamos
.

O filme terminou nas letras de filme sem l nem e. A noite insuflou sua tenda de circo universal, fui trabalhar, regressei a casa, aqueci a sopa, abri um livro, saí para dentro da história de La Sombra del Viento, uma coisa bem composta por Carlos Ruiz Zafón. Como não havia alternativa, deitei-me e adormeci até hoje. Sonhei erotismos tristes, como quase todos – todos os erotismos e todos os que sonhamos. Recordo nádegas brancas, olhos semicerrados e duas pessoas minhas conhecidas fazendo aquilo sem ter sido apresentadas uma ao outro. Resgatei-me para a pastelaria logo que pude, onde exerço agora o assassínio da memória mercê da palavra escrita.
Aqui redescubro não ter sido abandonado, ainda não, pelo frio claro do novo Novembro da minha vida. Dou uma volta pelo caderno, retomo versos da tarde de 15 de Outubro último, estes:

Não estive na Normandia a 6 de Junho de 1944.
Nunca estive na Normandia.
Tenho desembarcado e sido morto e sobrevivido
por conta própria.
Mas não a 6 nem em Junho nem em 1944.

Dá o mesmo: dias D todos os dias
.

Posso fazer, assim, o que precisamente faço: descobrir o meu corpo a ser descoberto por versos que, nada valendo, a tudo dão valor – sobretudo, talvez, a tudo dar corpo. É um exercício de sobrevivente: isto é: de vivente sobre a comezinha realidade do banho matinal, do resgate eroticonírico, da pastelaria cujos fornos invisíveis me amornam a mão calígrafa contra o claro frio da manhã.
Entre o entardenoitecer de 16 e a noite de 18 de Outubro últimos, passando pela manhã e pela tarde de 17, dei-me à composição de Tarde Ainda, Já – 26 Coisas. É outra crestomatia tristonha de incursões na língua, que não na vida. “Que não na vida?” – ouso ainda separar coisa de coisa? É como olhar o corpo – como se de fora, impossível mas demonstrada coisa.
Que importa? Esta manhã, tirei da caixa do correio o exemplar d’O Ribatejo datado de hoje mesmo, 2 de Novembro de 2007. Leio-o quase de ponta a ponta. Divirto-me com a celeuma cor-de-laranja que incendeia algumas páginas com o fogo frio da política local. Um dia destes, vou, a convite, a Santarém. Já lá estive, em duas tardes solares: uma, por causa de um livro; outra, por causa da nostalgia de um livro – pois que sou como todos os homens que viajam na nossa terra à roda de seu/deles/meu mesmo quarto.
No meu quarto, ontem à noite, liguei, pela primeira vez na temporada pós-estival, o aquecedor eléctrico. Está agrafado à parede. Desabituada, ociosa, pôs-se a engrenagem a emitir umas asmas rabugentas e uns estalidos de ominosa osteoporose. Aqueceu, que remédio. No interlúdio que raia os territórios da vigília e dos sonhos, senti vindo a baforada térmica, benvindourando-a eu como um feto anacrónico em útero de flanelas. Li algumas páginas de Ruiz Zafón, rapaz espanhol que comigo partilha graça de nascimento: 1964. Depois, acolhi, deliciado, o alpinismo abusador da gata, deliciada. Devemos ter adormecido ao mesmo tempo, já que não sonhámos outra com um.
Entra agora pela mais larga porta a tarde, essa larga senhora de tantos filhos. E ainda cristalina a pátina de frio – e muito clara. A montanha abre o peito ao ar cravejado de espinhas eólicas. As fragas vertebram o pré-humano espinhaço da imemória. É muito bonito. Da minha guarida de tirador furtivo, alvejo o roubo do tempo, o saque da luz, a arquitectura do arvoredo, a tonsura da cal, o azinhagamento da atenção, a caligrafia da amornada mão direita, beneficiária de fornos invisíveis.
Para a semana, em dia a determinar, voltarei a Coimbra para um dia, uma noite e uma manhã. Vou a trabalho de assentamento romanesco. Revisitarei lugares, cantos e lances através de que, desde 24 de Novembro de 2006, comecei redigindo o périplo de um anjo involuntário. É livro de que nunca aqui dei conta. É maluqueira minha – alguma hei-de ter que não do maluco mundo seja.
Da tal tarde de 15 de Outubro deste único 2007, a insuficiência de outros versos, estes:

Quebrado lacre de escarlates lábios
do amor ditadores do resto não sábios
vi já cerejando em frente a um copo.

Tudo topo.
Nada quebro.
Espero q’abra.

Ou então estes:

Refulja a mansa fria estrela
em meu espelho-de-água
que estrelas reflecte
sem mais atributo
que o de esperto e bruto
de gostar de vê-la.


Estas coisas assim. A acção do Diabo, conjurada da distracção de Deus, investiu-me, nove dias mais tarde, noite de 24 de Outubro recente e irretornável, na função de quinze versos mais, estes:

Mal vi o dia, todo o dia.
Fui talvez feliz, dentro da lâmpada.
Fria lâmpada fosca: pouco o sol
venturou árvores e ruas.

O anoitecer foi uma confirmação dura,
não o suave escândalo do costume.
Agora, caminho sobre pedra envernizada
de humidade e recordações.

Torna-se à direita, sobe-se um pouco.
O ângulo do vale canta árvores,
mostra-se todo diadema no veludo.
A respiração ouve-se no coração.

Arfando, chego à rádio, pouso o saco.
Sento-me num banco de pau, espero.
Bem vou ver a noite, mas ter não toda.

Estas coisas assim, enfim: fados enfardo em fardos de enfado. Mas não. Nunca me aborreço: um cacto esquecido distrai-me e recreia-me, como, do chão, uma folha escrita em caligrafia vegetal por uma árvore dada a outonos e a estilhaçados sonetos. Olho as pessoas xadrezísticas em suas casinhas pretas e brancas, cinzentas e amarelas, em seu episcopado de cavalos, suas torres monárquicas desertadas por peões republicanos. Muito mais me divirto do que me converto. Mas não, nunca me aborreço. Se me mareja a retina genital algum cisco erógeno, curto sozinho e calado ruidosas visões como a arquitectura de umas nádegas amordaçadas de ganga, o istmo-de-ninguém que a fêmea alheia anatomia a alguém concede em direito de perfuração, o níveo tangerinismo de decotes cortados a língua por cutileiros que não eu. Entre gajas e senhoras, tudo é homem. Estas coisas me ocorrem – ou não a mim, mas a meu corpo, entre versos, vestidos de água e verticais cintos de sabão.
Abandona-me já, agora mesmo, a claridade fria da manhã – posto que vos deixo, por hoje ou apenas agora, com

Tarde Ainda, Já – 26 Coisas

1

As tardes acabam como pessoas que conheci.
A de hoje fez-se bonita, morrendo: uma
neblina marinha envolve, lenta, a
montanha.
Eu sei: também a beleza é precária, como a hora:
como tudo.
Não faz mal nenhum.
A solenidade desta indiferença ao acabamento
é contagiosa: solenizo até os bocejos, que,
como a rolha a uma garrafa,
escancaram do corpo a alma.

2

Entre barcos, pelos passadiços da marina.
Outro fim de outra tarde, noutra vida.
Sentei-me, os pés na água.
Comi um pão e uma maçã, dividi o pão
com as tainhas imponentes que fluíam
no chão feito de água.
À vista, a ponte unia margens, não os dias.
Talvez reunisse umas a outros todas as noites,
mas não creio nisso, como na altura
não cri.

3

Mais e mais me acontece: caminhar parado.
E voar no chão. Tenho a certeza: é a passagem
dos anos: de todos os anos, cada dia.
Agora é Outono, as folhas recamam a terra.
Um cão deitado ergue devagar a cabeça.
Desconheço o que olha. Nem eu sei que olhe.
A luz crepuscular rebenta clarões roxos:
como se atirassem baldes de tinta à redoma.
Carros regressam a casa como mulas tóxicas.

4

Estrofe a estrofe, árvore a árvore, o poema do bosque.
É o maior caso de solidão colectiva que conheço.
Quando ao chão deste poema formos devolvidos,
parte seremos do majestoso nada.
Acoitaremos rápidos animalejos invisíveis.
Talvez nos seja dado, não falar, mas ouvir as estrofes.

5

Quanta água senão toda na palavra lago?

6

Agora só aqui entre a gente:
tenho mesmo alguma coisa
a dizer?
É a voz com que nasci suficiente
para dizê-lo?
Tenho de renascer com
outra?
Ou devo renascer para
outra voz,
outra dicção,
outra ilusória posse?

7

Seja: lágua.

8

Renascer ainda para
outra voz ainda.

9

Na chã vida, não abdicar de algum
jogo aéreo.
É uma vida chã – assim é.
À sua terraplenante condição, opor
alturas.

10

Contar com o próprio, cá dentro, sempre,
recusando sempre, porém, a imbecilidade do
umbilicalismo.
Nenhum altruísmo pode chegar sem
que parta o solipsismo.
Escrever um poema é uma coisa.
Deixá-lo acontecer, outra.

11

Tenho recebido a poesia de outras pessoas.
Cada uma delas (a pessoa, a poesia), um mundo
no mundo.
Intersecção de mundos: espaços como margens,
épocas como rios, palavras como pontes.

Ainda ontem li uma coisa de Ezra Pound sobre
Camões. Acho que não percebeu quase
nada, o Ezra, do Luiz. Isso, porém,
não tem importância – como eu não tenho,
nem a minha poesia tem,
nem as minhas margens, rio e
palavras.

12

E a brandura quase triste da hora
vogando de brancas velas pela luz?
Adoçada tristura que resiste, embor’
amargura se tudo a nada se reduz.

13

Um passeio breve dei pelas áureas áleas.
Ouvi perfeitamente os chamamentos.
Distingui a frase dita por um ramo alto.

Que tenha sido há meia hora ou duas décadas,
que tem quando tenha sido, se foi já?

Para que volte a ser, escrevo.

14

Windsor, Moulinsart, Duíno:

quem mais e quem menos real,
quem mais e quem menos subido da criação,
quem mais e mais fantasioso:

Isabel II, o Capitão Haddock, Rainer Maria?

15

Não, não vivo – de ou para isto.
Sim, vivo – por isto.

16

Sendo invariável
a final remuneração,
que todas as horas
sejam extras,
então.

17

Do amolador de tesouras
a flauta pânica
tril’ ainda
a cromática infância

e sua terna miséria.

18

Raso explode o sol no chão,
linha em sombra guarda ao lado.
Ali dorme um cão deitado,
meio ao sol, metade não.

Vem a criança aos rebuçados,
dormita o velho senhor.
A criança traz trocados:
meu senhor, se faz favor,

quero o sol em rebuçados,
acorde, vá ao balcão,
a sombra tem muitos lados,
tire-me o sol do chão.

19

Não tarda, anoitece.
Tarde ainda, já anoitece.

20

De frescas raparigas canta do rio a água à luz.
Há um rumor de canoas: ossos de madeira
que à carne suportam o desejo como a
refrigério que queima os escuros homens.

É uma cena fluvial sem história nem relato.
Azulejos ao fundo reverberam a cidade postal.
De madeira de canoa feita a ponte é também.
E faunos ciganos bruxuleiam canaviais adentro.

Ígneo sol estraleja joalharias correntes
que ao curso mortal brilhos vivificam.
É tudo um teatro sem falas nem gentes,
bonecos tão-só: estão mas não são – nem ficam.

21

Também – cumprir a vida como a uma pena
não forçosa,
forçada apenas,
que o pouco da vida não tira
ao muito da pena.

22

Como foi feito um hoje de há muitos ontens?
Conta esse dia como pilar ou como alude?
Penso em silêncio em coisas assim.
Se coisas assim constam, constantes são:
iludi-las é iludirmo-nos.
Consta que sim.

23

Ao sol numa cidade poderosa de esquecimento.
O conforto do anonimato: não ter ali nascido – nem sido
mais do que um passageiro
transeunte das pedestres barcas: as ruas-rios,
ao sol impiedoso, muito branco nas casas negras.

Adeja o jornal estrangeiro entre nacionais:
escaparates e disparates.
Fritos e motorizadas perfumam vidas.
Brota água de um cano roto, vou ver, é só
luz, afinal.
Crianças comentam a luz.
Velhos lamentam a exaustão da água.

Falo de cor: não estou senão de memória
na cidade.

24

Esta tarde, vi um homem na pastelaria: um homem só.
Tinha um copo de vinho e uma aura de solidão
que podia ser – decerto
era-o – a da santidade. Barba envelhecida,
corpo curto e sofrido. Tinha a cabeça
entornada para a mão aberta, em cujo centro
ardia de frio uma moeda escura. O homem esteve
muito tempo a olhar para a moeda.
Olhava com aquela inconfundível intensidade
de quem olha para dentro de si qualquer
coisa que só por fora parece uma moeda, ou um
copo de vinho – ou a própria mão.
Momentos depois, levantou-se e partiu.
Desconheço se o reverei.

25

Um homem só.
Um só homem.
De quanta diferença é
feita a igualdade.

26

Do coração sobem à cabeça,
da cabeça descem à boca,
da boca sobem ao chão
dos outros: as aranhas
silábicas que amam tanto
fugir para os outros.



Datação: a prosa de ligação dos poemas é da
manhã de 2 de Novembro de 2007.
As datas dos poemas constam da prosa de ligação.

01/11/2007

Mínimas Apeadas

prodigiosa senda, a maré vazante da noite



O mar voltou esta manhã à montanha.
Veio sem água – e é o vento nas árvores
tão frio
tão vivo de sede.

Recorro à inocência das crianças
para chamar
cordões de ouro velho
aos
cobrões de folhas apeadas
ao longo
do meu caminho marítimo
para
as breves índias
destes versos.

Quando a maré vazante da noite
recolher a seus altos calabouços de cristal
colherá o fim de Outubro consigo.

Eu ficarei na prodigiosa senda
que abre ourivesarias de laranjais
a troco de um pouco de atenção.

As mínimas mortes de cada dia velarei
de olhos estilhaçados como vidros de lume.

Acabam-se-nos os meses
outros nos implodem como extensões vãs
ou como pólvora no coração.

Comboios sulcam arrozais de estanho
nós dentro através da nossa vida.
E os mapas das nossas mãos
pontuados de apeadeiros imparáveis
as nossas mãos cheias de folhas do chão.

E o mar e a manhã e a montanha
e as mínimas mortes.

Mínimas: Caramulo, manhã de 31 de Outubro de 2007
Imagem: Caramulo, noite de 25 de Outubro de 2007

31/10/2007

O Tó tem 308 Pais - Rosário Breve nº 24

Na edição desta semana (2 de Novembro de 2007) d'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), a crónica nº 24 da série Rosário Breve. Porque calar não é morrer - é estar morto.
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O Tó tem 308 Pais

Vivi anos a fio numa cidade tão fraquinha, que os vereadores locais eram apanhados a lamber placas de trânsito para compensar com ferro a anemia das mentalidades. Era em Portugal, algures. Tirei entretanto a terriola da cabeça, como se faz a um desamor ou a uma lêndea. Hoje, recordei-a porque sim. Devo estar com saudades do ridículo.
O presidente da Câmara era um energúmeno que sujeitava a língua portuguesa a sevícias homólogas às dos curdos no norte do Iraque. Cheguei a sonhar com ele, desejando-o curdo-mudo. Sorte nenhuma, claro: o fulano ainda lá está e manda e pode. Multiplica rotundas por vingança da rotunda asneira que foi elegê-lo. Baptiza bairros da lata com o nome do neto, que é igual ao do avô. Mastiga em voz alta nas tasquinhas, demonstrando à saciedade e à sociedade que quem vê cáries, vê corações. Nas assembleias municipais, é dado a flatulências a que todos, por bondade, chamam discursos. Nos jantares rotários, passa a sopa a dizer mal dos Lyons e depois vice-verseja muito corado e muito contente e muito nutrido e muito redondo – como um bácoro.
A mulher dele, com desgosto dele, passa a vida a arrefecer nas igrejas – em desagravo, não do Coração de Maria, mas do nosso. É uma esposa entristecida: tantos sucessivos mandatos de pública vergonha enxugaram-lhe os fiambres feminis e escureceram-lhe as retinas, arabizando-a para sempre.
O filho é sempre António Francisco: chamam-lhe Tó Chico Dependente, porque, como toda a gente, depende do pai. Fuma tabletes de chocolate marroquino em estações de serviço néonizadas pela dormência pós-moderna do insucesso escolar.
Como as minhas ex-mulheres trabalham todas na autarquia, vejo-me obrigado a cronicar mal dele longe, lá para o Ribatejo, onde, ao menos, me deixam exercer a esperteza saloia de, dizendo mal dum autarca, me arriscar a acertar em cheio nos outros 307 deste País sem vergonha nem remédio.

Nove Dísticos Minerais


I

Em pedra são os poemas com que Deus nos escreve:
páginas de mármore com nosso nome – e deitadas.

II

Se a Lua te surpreender no Mar, a ambos aceita:
únicos são, Lua e Mar, que não tu.

III

Mínimo menino (dois anos) em chão de pastelaria:
todo o futuro lhe é de borla.

IV

É com a parte branca dos olhos que olhamos:
ou a neve por nós.

V

A glória de um lírio molhando o único pé em água:
únicos pé e água.

VI

Noites passadas a voar alto, de manhã:
cada dia.

VII

Uma súbita desistência do sangue pode
convocar pedras e sombras de pedras.

VIII

Quantas vezes na vida dizemos miosótis?
Poucas, azuis vezes.

IX

Se a Lua te surpreender no Mar, aceita a ambos:
âmbar único são, que não eu.


Caramulo, noite de 30 de Outubro de 2007

30/10/2007

Fechado ao Comércio – um poema absolutamente quarentão

Foto: © Stephen Shore,
Church and Second Streets, Easton, Pennsylvania, June 20, 1974
Fonte:http://www.masters-of-photography.com/

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Levei a minha vida a uma loja de trapos
e aceitaram-ma para revenda.
Vim de lá com o coração vazio
como uma viela nostálgica de gatos e de bêbados.
As minhas mãos cheiram a cebola e a alcatrão.
Tenho poucos estudos:
tão poucos,
que nunca vi uma escola de persianas abertas.
O meu pai deve ter sido marinheiro,
que a minha mãe ficou para sempre
na maré mais baixa:
o parir sem amor antes
nem depois.
Ando entre vós pelas ruas,
sem voz.
Em todas as cidades reconheço a mesma.
Parecem-me mulheres deitadas, as cidades.
Deitadas e quebradas, não longe de um rio.
Nas estradas, animais atropelados não dizem
como foi.
Também há poucas notícias.
No Verão, os ranchos folclóricos atacam.
O mar diminui-nos a esperança e a dúvida.
Os outonos perpetuam-se no idioma.
Ao espelho, barbeio uma ausência.
Em terra, semelho uma pedra negra
de frio.
Já me aconteceram coisas.
Quando era muito pequeno, cresci tudo.
As fotografias embalsamam os dias:
os dias e a pobre gente.
Fui menino entre cães.
Oliveiras urdiam azeite e luz cinza.
Territórios cartografavam a perdição.
Hoje, não.
Hoje é o tempo que perdemos,
uns contra todos os outros.
Estou parado à berma da memória
como uma cona de aluguer.
Só dormindo volto a ser a ave masculina
pousando na água dos olhos das mulheres
todas.
O resto é o idioma do domingo
encerrador de vidas e de
lojas de trapos.

Caramulo, tarde de 30 de Outubro de 2007

História da Minha Pilha e outras Maluqueiras

É o regresso, em glória plena, das maluqueiras keywórdicas da net. Por mais verso que me saia da mona, nada posso fazer para suplantar estas coisas. Ofereço-vo-las.

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Por que razão se cravam pedaços de Zinco nas placas de ferro dos navios?
Maias jantar num hotel central-narrador
aviarios de periquito inglês
nazare chicletes rebuçados
homem,rua,carro,escuro,chuva,buraco,cidades lojas,
O Malandro, na dureza, santa messa du café
comezainas sopa de tomate para perder 7 kg numa semana
biografia de léo ferre
lojas que vende acento de privada tigre na cor verde
como se chama a peça de ourives usada para fazer botões em relevo
salva de prata com fauno e coelhos
frutos secos pevides na gravidez
ampola caramelizada
gajos que estragao a pila
oracoes ao espirito de lus do doutor sousa Martins
ver crianças com fissura
versos negros ( nem tanto)
passarinho neve VACA nem todo mundo
poema para frango
proteses acrílicas
um soneto q fala sobre mastigação
poruqe os escorregadores que terminam na agua costumam ter agua que desce junto com a pessoa
QUEM ME OFERECE UM GATO PERSA?
frase de amor para por caderno de um aninho de criança
fotos de moveis pintados com patina antes e depois
a historia da pilha de Daniel
lidia cabeleira
camisa suada musica para ouvir grátis
E rolam pelo chão as bolas de palha na cidade fantasma
pelotao de morteiros
ortografia ah ha a
pulseiras electronicas para meninos e doentes com alzheimer
aparelhagem tony carreira
desenho para COLORIR DO PROFETA ELIAS
arvores japonesas
receitas de broa de milho de febres Cantanhede
alfacear
putas dando a pomba e tudo mais
demonstraçoes das casas do futuro
versos de falsas amizades
partitura bouree
maquina de ensacar mel

26/10/2007

Em Flor - Rosário Breve nº 23

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A partir de hoje, sexta-feira. 26 de Outubro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt)
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Em Flor

Perde-se muito mais facilmente a dignidade do que a vergonha, sobretudo quando se tem esta daquela. Isto não é uma opinião. É uma verificação. Trata-se de um fenómeno tão comum, que nem fenomenal é. É uma espécie de lei física, de uma determinista determinação socioantropológica que faz dos nossos primeiros semelhantes os últimos a quem queremos assemelhar-nos. Basta sair à rua. Ou então, ficando em casa, ligar o televisor. Dignidade, adeus. Olá, desvergonha.
A ignorância, por exemplo. Antigamente, os ignorantes não ignoravam tudo. Sabiam o que era a vergonha, por exemplo. Agora, têm orgulho da ignorância que trazem lacrada na testa como um ferrete lustral. O esvaziamento anunciado há mais de uma década por Lipovetsky não era um receio reaccionário da dita pós-modernidade, mas uma melancólica (mais uma) verificação.
O nosso povo é fraquinho: já nem com maiúscula se escreve. É lerdo, opaco, rubicundo, grosso, ouvido-emprenhável, foleirote, obtuso, peludo e manso.
A nossa “elite” é uma córnea galeria de fadistas-toureiros, monárquicos sem brasão, pitas com dois tt, filhotes de banqueiros fugindo pelas traseiras com máquinas de multibanco agarradas aos brincos e fregueses do João Pedro Pais com remorsos casapianos.
A política é uma caderneta de cromos colados a cuspo pela parte da frente.
O futebol é uma escura noite de fados pretos.
O chamado Fado Novo está para a nossa identidade como as abóboras estão para o telhado.
A religião anda há séculos a levar a gentinha a ver as amendoeiras em flor, com regresso marcado por pontes cujos desareados pilares patinham no vazio como os pés dos enforcados.
Assim sendo (e é), já ninguém se digna ler, escrever e contar. A língua portuguesa já só consiste numa cassete pirada e pirata dedicada a sublimes disparates como o “derivadó-facto”, o “portantos”, o “é-assim”, o “infectibamente”, o “choque tecnológico”, o “simplex”, a “Ota” e o “têgêvê”.
Depois, ainda há quem se admire de nascermos de ambulância, rumo às amendoeiras em flor.

25/10/2007

Sortelha - por Ca'litos

Sortelha, 2007
© Carlos Daniel Abrunheiro
( esta e muitas outras fotografias estão indiciadas em http://matarbustosfotografias.blogspot.com/)

O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho.

Ou então

Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo.

24/10/2007

O Vento na Água e outros Linguismos Desaforados

© Minor White
Pacific Devil's Slide, California 1947



I

Não do que os do caudaloso rio maiores riqueza
e roubo capaz sou de conceber.
Corrente fortuna e furto copioso
nos traz, levando-nos em ele, o fluvial deus
de água corredor.
Ainda assim, felicidade a nossa, passando-nos
ao tempo rápido, lento só na dor, pois que
ao menos uma vez integrando curso e duração – e
delas as naturais morte e vida.

II

Desagua de leite o homem em sua mulher,
a que pertence: tal o rio se entrega
ao mar em efémera foz eterna,
sob o céu.

III

Crisóstoma oração usa o desejo silente
em seu embaulado côncavo cordial.
Cardial único lhe cruza a tetrarrosa,
pois uma só direcção é a do desnorte,
do paraíso a leste, sem virtuais oriente
e poente: o vento na água: quem
deseja e quem é, do desejo,
objecto e sujeito: e boca e ouro.

IV

Semietérea é a meã fé
dos hemimortos em vida,
de um vão paraíso ciosos
em o inferno vivente:
diabinhos pressurosos,
cemitéria gente.

V

Glabra face, imberbe olhar,
do adolescente tipo-passe,
recolecto a nostalgia já futura
no momento do flash
para documentos oficiais.

Sou eu este rapazelho escoltado
por grandes colarinhos
e apeitado axadrezado
pulôver sem mangas,
alhures em 70 e poucos?

Fui. Não sou. Voltarei a ser,
na inversa contagem que tudo
a todos retorna – por nada.

VI

Morrerei sempre depois
do dia que tive por
benquisto – ou malvindo.

VII

Apouca-me do alto a visão do vale
à outra montanha estendedor
de enxuto leito que mar algum
quis – ou de querer deixou,
como eu de crer deixei,
apoucado.

VIII

Desaforado linguismo cerce acode
ao homem que, calado, magicando
qual – vida ou morte – mais o fode,
nenhuma conclui, a ambas somando.

Caramulo, manhã, tarde e noite de 23 de Outubro de 2007

Novos Pleibeques

Hombre Orinando
© Miguel Ruibal

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E pronto: aqui está mais uma lista de procuras da net que me vêm desaguar ao Canil. Como sempre, há loucuras absolutamente deliciosas, a começar pelo clássico lusitano "Amor de Mãe Angola 1967". Mas também há "poesia sobre baratas" (já não se pode ser amigo de um poeta chamado Manuel Barata...). E mais - e muito mais. Bem-vindos todos ao circo das pancadas mentais reunidas a uma só voz.

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plantas horríveis
plantas que curam pancreatite
verniz para soalho de madeira que não deixe riscar
vernis para soalho de madeira que não deixe riscar
so prece
ecrã petrificado
dermoide quisto
fotografias de pessoas maquilhadas
fotografos suinicultura ao ar livre
chove la fora jogado no leito descansa esse corpo que guarda
uma parabola da biblia com onião
materiais de construção crespos Angola luanda Viana
peles barrigas salgadas
pessoas que ruminam a comida
rostos de triteza
versos sobre a pobreza
snack bar em repeses
terylene camisas
daniel camionetas
amor de mãe - angola 1967
Mercedes Blasco
nota de cinquenta euros
texto resumido sobre bicho da seda e produção de seda
gato persa comprotamento depois do parto
anans nuas
como a solitária sobe para a cabeça
vivendas geminadas para comprar em sagres
reportagem da TVI corrida de rolamentos da pedreira
"a lã e a neve"
electrodomésticos e os homens
papagaios domesticos pelagem
Mao de Vaca com Grao de bico
vestes natalicias na noroega
Rua da Casadinha Pedrulha Estrada
remedios produzidos por indios para alcoólatras
praça com banquinho e árvore
Machos pubis peludas
pagelas e registos e saudades
trespasses estações serviço braga
fio de corda preta atacadores da tropa
novo som pleibeque heroi dos heróis
o que acontece se molhar uma fatia de pao e torrada
poesia sobre baratas
se solfeja de boca aberta ou fechada?
fala de palhaço

23/10/2007

Pátio com Limoeiro – três poemas de Outubro

Candeeiro e Lua
Caramulo, noite de 19 de Outubro de 2007


I

Versos: papéis-químicos mui arcaicos,
dextras linhas da canhota vida minha,
cavaquinhos balalaicos e prosaicos,
sem ferro nem fogo linha a linha:

deixai-me em paz. Vo-la peço eu,
paz: um pouco dela, sossegada,
dessa burguesa calma encalmada
de quem sai à noitinha ao coliseu

a ver as feras e, dos funâmbulos,
o esticado arame equilibrado.
Não ser do lote dos sonâmbulos

pretendo agora, que envelheço.
S’inda perante rosas estremeço?
Sim, meço e tremo, mas m’enfado.

II

Julgo que a Lua nos toma o coração.
A portuguesa beleza da tristeza mo assim diz.
Se comigo viesses a ver estas ruas dentro,
o dirias decerto também em mútuos versos.

As estrelas possíveis (os candeeiros) apagam
derredor a lucidez sonâmbula nossa
– de portugueses, em portuguesas ruas.
A ver os parques vir quererás?

Pulsam os parques auras de exiladas matas.
Correm través gás incorpóreos animalejos.
E na cisterna da memória a gota d’água

de um, dois, três beijos – ou menos – ou
nenhum. Ruas que o marinho vento
empossa a seus fantasmas julgadores, lunares.

III

Eterno, só o tempo perdido.
Dentro da vida, esse pátio
com abatido limoeiro melancólico,
o relógio de sol a sombras conta:
eternidade nenhuma, para sempre.



Caramulo, noites de 20 (I) e 22 (II e III) de Outubro de 2007

Canzoada Assaltante