20/04/2008

Voz para Vós

TÁBUA

I. CHEGUEI PELOS TRÂMITES DA ALEGRIA
Viseu, fim da manhã de 19 de Abril de 2008

II. PERANTE MULHER COM BOLETIM E CHÁVENA
Viseu, tarde de 18 de Abril de 2008

III. RUMO À MARISQUEIRA
Ibidem

IV. ISTOS
Também

V. NENHUMA25VIDA
Mesmo sítio, mesma tarde

VI. TEMPO DE TEATRO
– DECLARAÇÕES UNIVERSAIS DE UM HOMEM DIREITO
(UM HOMEM OU DOIS)
– para ler por dois (ou um só, tanto faz) leitoractores
Viseu, entardenoitecer e noite de 19 de Abril de 2008



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I. CHEGUEI PELOS TRÂMITES DA ALEGRIA
Viseu, fim da manhã de 19 de Abril de 2008

Cheguei pelos trâmites da alegria
a estas ruas sobre que tanto graniza
ruas da negra manhã do meteorológico boletim
e trago comigo a alegria rediviva
minha pobre Mãe pobre
rica tanto de quanto te amamos
nós
os que para as ruas de chuva a Senhora soltou
de seu vivo útero de cor grená.
O rapaz míope serve-me uma taça de branco
o senhor da loja das camisolas pensa à porta na vida
somos três a não ter ido para os mares do norte
Viseu, um sábado.
Comemoro ó Senhora minha Mãe os meus trâmites.
Já não devo nada a ninguém.
Devo satisfações à minha mulher, à casa que fazemosvivemos.
Chove muito negramente lá fora cá dentro
um dia me acercarei do para onde a Senhora vai
perfumes de broa de dálias de farinheira chegarão
a nossos defuntos narizes estou certo que chegarão.
Tenho uma mulher, Senhora Mãe.
Ela organiza os móveis, põe-me pão velho
no saco para as pombas.
Tenho meia-dúzia de amigos dispersos pelos ventos.
Vulgar saudade tenho das infâncias múltiplas da velhice
do senhor Fernando Duarte de sua esposa Dona Alice
octogenários como a senhora, Senhora Mãe.
Ando por estas ruas de casaco castanho.
Sou um corpo gramático quilogramático fotogramático.
Tenho uma língua na boca uma Língua no coração.
Sou um português à chuva pelas ruas, é sábado.
Pode ser tão triste, estar vivo.
Pode ser tão triste, ser português.
Eu estive voluntariamente na praia, paguei e fui.
É provável que nunca tenha voltado.
Eu não sou um caso especial.
As pessoas sentem-se.
As pessoas dão-se a cizânias.
Esta mesa é de madeira, alguém cortou uma árvore
para que vos pudesse escrever, que é dar-a-ver.
Uma divorciada fuma cigarros de mentol.
Os loucos recuperam pelas ruas a Idade Média de Viseu, Lisboa.
Senhora Mãe, como sabe, uma pessoa.


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II. PERANTE MULHER COM BOLETIM E CHÁVENA
Viseu, tarde de 18 de Abril de 2008

Perante esta mulher vos digo que não é vossa
nunca mulher alguma é tão pouco nossa
como qualquer mulher. Não ao homem é dado ter
obter pode ser que sim mas ter não uma mulher.
Olho esta como quem sem bilhete fica à porta da festa.
Ela surge toda ao mesmo tempo como por assim dizer
um cavalo lavado que a chuva toca mas não pode tolher
sequer molhar. Gosto da presteza com que cruza
rápidos números no boletim dos eurotostões.
Como desenvolta apruma à boca a bica
e fica de mão no ar ebúrnea e vítrea e vária
de quantas iguais já vi em anos de diversos
versos.
É de tarde chove muito e muito foi o que ontem
trabalhei como aliás hoje também.
Sosseguei-me aqui escapado ao que chove
as coxas das calças húmidas os lamentáveis sapatos
e o cabelo curtinho e molhado como pêlo de ratos.
A esta como a nenhuma vai homem algum apanhar
lá vai uma lá vão duas três pombinhas a voar
a homem nenhum é dado mais que alguma frequentar
estar é que nunca ser e ter muito menos. São como as casas elas
muitas salas muitos quartos muitos ameaços muitos partos
mas um homem sai por onde entrou
e é sozinho que fica como elas sós,
como só elas sabem assim levantar café e mão
num gesto da mais pura depuração.
Concorrem ao eurotostões por desfastio
previnem-se sempre de roupa para o frio
que a vida faz e são tristes construtivamente
como nós homens não sabemos consecutivamente.


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III. RUMO À MARISQUEIRA
Ibidem

Teremos ainda se não juntos ao menos ao mesmo tempo
alguns setembros. Julho não que os ardi todos na infância.
Importa nada que esquálidos nos sejam os corpos
ao vento levados e lavados e trazidos a vento pelos areais.
Que tudo quanto nos desejo é um pouco de dinheiro
tal que visto cheirado sentido o mar recolher nos possamos
a uma marisqueira onde nos sirvam
algum pescado perfumado de orégãos
algum caldo com coentros
alguma da serralharia crustácea
de fins de domingo fazendo frio já apesar de setembro.


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IV. ISTOS
Também

Isto a que chamamos amor
fotocópia é do que desejamos
a nossa senhora mãe a nosso pai senhor
como deles provimos a eles voltamos.

Isto a que chamamos pensamento
surdo cinema mudo é que não muda
sequer um segundo do mundo por um momento
mor agonia sem mor ajuda.

Isto a que chamamos casa
e abandonar temos como a cães
e a mortos próprios à brisa
e a rimações outros alguéns.

Isto a que chamamos viagem
em tela negra tão total
que do nascido a mesma imagem
reduz projecta Portugal.

Isto a que chamamos lar e eira
este vento fresco na oliveira
esta avó morta ’ind’ à lareira
a vida toda a morte inteira.

Isto a que chamamos bailarina
curva porcelana sem fabrico
meio estatueta meio menina
ela fica eu não fico ela fica eu não fico.


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V. NENHUMA25VIDA
Mesmo sítio, mesma tarde

Nenhuma vida nos perdoará não termos vivido-a.
Bebido-a que seja ou fosse ou fora ou não tenha sido-a.
Nada nem ninguém nos perdoará nós não.
Um vento atravessa a sexta-feira: e nós, então?

Pensa nisto comigo. Isto é o lápis de um menino chegado
ao cais. Pensa os barcos que os meninos vêem de longe.
Pensa na outra banda, a d’além, onde laranjeiras e gado
são sempre além, Mãe, são sempre além.

É o tempo agora – e corre curto, o cabrão.
É o tempo das flores, das ainda-retrosarias
onde comprar o floral elástico
p’ra cuecas de nossas marias.

É o tempo da liberdade toda
o tempo da madurez pré-podridão.
Não é de baptizado nem de boda.
É tempo de não dar tempo à servidão.

Modos que 25dabrilsempre.


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VI. TEMPO DE TEATRO
– DECLARAÇÕES UNIVERSAIS DE UM HOMEM DIREITO
(UM HOMEM OU DOIS)
– para ler por dois (ou um só, tanto faz) leitoractores

Viseu, entardenoitecer e noite de 19 de Abril de 2008

Sou como vós da pátria da noite
da pátria da noite sou como voz.
Ando pelas ruas tiro palavras vivo discretamente.
Sou o homem que é educado ao balcão.
Sou ao balcão o que não ladra nem morde.
Tenho uma colecção muito particular muito jeitosa de filhos-da-puta.
Gosto de comentar a chuva com as mulheres velhas.
Gosto de indignar as pombas chamando-lhes galinhas bonitas
galinhas lindas.
Sou por assim dizer um coirão.
Transporto um pénis um coração um risco ao lado.
Não sou um caso especial.
Também não sou um filho-da-puta
excepto quando é preciso
já tem sido e portei-me magnificamente.
Gosto da redondilha maior.
Da menor também gosto mas é mais difícil
eu acho.
Há versos que ficam dentro de mim.
São versos que me vêm de fora.
Sofro mais do que o meu corpo.
Gosto de alguns vivos falo para alguns mortos.
Às vezes olho-me a mão esquerda como se fosse doutra pessoa.
Eu também sou doutra pessoa.
Eu ando por aí e digo.
Nunca vou desistir vou só cansar-me.
Durmo entre pinheiros numa orla de barragem.
Sou o irmão mais velho dos meus sobrinhos
o tio mais velho das minhas filhas.
As palavras contam-me segredos irrelevantes.
Sou triste mas gosto de fazer rir a rapaziada.
Uso asas nas costas quando digo obscenidades.
Transporto um pénis não é obscenidade.
Faço como vós amor nos sofás que posso
posso e faço amor como vós.
Este é dos tais poemas que nunca leria à minha Mãe
nem à minha Irmã(e).
Não tenho ilusões versos são tintadechinesices.
Tenho sábados domingos não tenho ilusões.
Às vezes há vozes.
Às vezes chego a casa com um poema.
Chego a casa com um poema leio-o à minha mulher.
A minha mulher olha-me a boca como eu olho
a minha mão esquerda
às vezes.
Eu agora não sou um menino sou casado tenho uma gata.
Parte do orçamento familiar é minha responsabilidade.
Eu tenho de fazer isto até o fim da vida.
O fim da vida pode ser pode não ser hoje.
A desimportância disso é um caso pessoal.
Não digo um problema digo um caso digo pessoal.
Gosto de ser educado aos balcões.
Há balcões que me conhecem.
Também só venho quando tenho moedas.
Nem sempre tenho moedas mas as palavras não me faltam.
Daqui vejo a plateia vazia esplanada.
Explanada para nada.
Vivo no corredor dos ventos.
Sou como vós um corredor de ventos
corro os vento como voz.
Já andei tão sozinho como um cão à chuva.
Vi o sol em adros de igreja olhei os campos.
Olhei os lírios do campo fui o sal da terra.
Retinei visões de animais caleidoscópicos.
A lição das estrelas é fria e exacta e correcta.
As estrelas desenham grandes animais.
Nem sempre cedo à tentação das rimas.
Um trecho de rio é quanto me basta para livro.
Todas as letras de rio estão na palavra livro.
Muitas cidades uma só as nossas vidas.
As nossas vidas um dia retratos.
Um dia estas praças sem nós.
Tenho uma opinião respeitável sobre a situação política.
Como poucas bolachas sonho com campos de trigo.
Sofro amores irredimíveis invencíveis.
Olho uma parede vejo vozes nas paredes como retratos.
’inda hei-de ir aos cornos a este e àquele gajo.
Fá-lo-ei delicadamente.
Fá-lo-ei até com pena. Fá-lo-ei.
Tenho uma força que o Tempo cinzentará.
Sou o vosso homem hoje não é o guimarães-marítimo
é o marítimo-braga.
É sábado é a pátria nocturna do sábado.
Antes de almoço caiu granizo pedra saraiva.
Comentei a queda com mulheres velhas.
Olho-as acho-as a minha Mãe repetida.
As mulheres velhas gostam de falar comigo
acham-me parecido com os homens dantigamentedelas.
Eu sou parecido com antigamente.
Uma vez falei com um homem antigo.
Ele percebeu que eu queria falar com outro século.
As mãos dele eram de casca de árvore.
Ele ramalhava.
Ele tinha comprado uma folha de mármore para a mulher.
A mulher tinha-se-lhe ido. Ele nas pastelarias
olha o jornal sem ver.
Ele sabia mais nomes de ruas de mortos do que eu.
Eu nunca vou ser como ele quem tem de comprar
o mármore é a minha mulher conto com isso.
O marítimo ’tá a dar quatro-a-um ao braga.
É de noite sinto-me patriótico vosso compatridiota.
Esta é a minha vida. Gosto de favas.
O meu irmão gostava de favas já não gosta.
As pessoas têm muito a mania de não
gostar de favas quando morrem
as pessoas têm muito a mania de morrer.
As pessoas nem sempre têm a mania de viver muito.
Eu lembro-me homens adoçados pelo pôr-do-sol
trabalhavam muito nas fábricas nos campos
pelo pôr-do-sol regressavam como animais cansados
cansados mas vivos cansados mas adoçados
pelo pôr-do-sol era na minha infância
eu sempre vi homens eu hoje vejo retratos.
Este começa a ser um poema que eu leria à minha Mãe
e à minha Irmã(e) também.
Estou numa cidade feita de pedras devagar.
Se um filho-da-puta me abordar (tentação da rima)
parto-lhe ambos os cornos um com cada mão
nem que seja meu irmão.
Não há outra loucura nisto que a da vida.
Chove tanto hoje velha senhora Margarida.
Comprávamos ovos à senhora Teresa.
A senhora Teresa era uma mulher de duas filhas viúvas como ela.
Tinham reformas vendiam ovos bebiam chá devagar
olhando o monte o meu monte o monte onde deixei
a pele da infância.
Comecei a gostar de livros por me lembrar de mulheres.
Não eram mulheres. Eram senhoras.
Comecei a escrever livros quando mudei de substantivo.
Eu agora faço falas para vós.
Eu agora faço falas para voz.
Tirando os filhos-da-puta ninguém também
vai andar por aí a fazer-me dizer-me mal.
Eu já tenho versos já sou citável e o caraças.
Há pessoas que se metem comigo por computador.
Um escritor inglês esplanava as mãos muito brancas em tampo verde
de mesa de jogar às cartas.
Nem caderno nem caneta só as mãos muito brancas na flanela verde.
Disse eu assim para mim quero ser assim.
Quero umas mãos um tampo verde um tempo.
Quero dormir dentro quando estiver para morrer.
Uma orla de barragem uma sombra de vetustos pinheiros.
Estou a falar contigo.
Fora de nós os nossos olhos-nos-olhos.
A minha cara aproximando-se de retrato.
As velhas senhoras cheirando a continente.
As velhas senhoras cheirando a incontinente mijo de velhas.
Os retratos juvenis para sempre das minhas filhas e das vossas
e dos meus sobrinhos.
Calma.
Ainda posso possuir devagar certas porcelanas
esses objectos que são a família em vez dela
nas mudanças de casa nos tropeções da vida
nos anos atirados fora como cagalhões.
Este é o meu tempo. Pertenço-lhe. Faço
falas para vós para voz de teatro.
Ainda há tempo. Cuidai das avenidas
ao domingo quando a oblíqua luz
vos trestraspassar o coração
esquecei não o pão para as pombas galinhas bonitas
galinhas lindas.
Depois fecharam as fábricas desempregaram os homens
da minha infância.
Viviam calados frente à mercearia.
Olhavam para a vida como pedintes.
A Pátria existia mas não era nada connosco.
Eu fui para a universidade aprender a lamber merda.
Não lambi.
Vim para aqui fazer versos para vós
vim para aqui fazer versos para voz.
Escrevo versos em cafés tutelados por
putas brasileiras de acrílicos colãs.
É Viseu faz-se noite.
Todo o mundo é Viseu todo o mundo se faz noite.
Sou como vós. Sou como voz.
Devagar. Sou como. Como sois?

18/04/2008

Pastor de Crepúsculos



Viseu, manhã de 18 de Abril de 2008


I. ONTEM À NOITE

Nada sei de ontem à noite.
Que ontem, que noite?
A nossa vida é tão capaz sempre de não saber nada.
Tão capaz de desconhecer ontens, noites, noitontens.
Pelo chão da rodoviária um vento arrasava arrastava
rosas e rosas e rosas.
Pareciam papéis vermelhos, peixes escarlates
levados pelo vento varredor ao chão de escarros e manchas de óleo
infecto.
Foi isto ontem à noite?
Não sei. Nada sei.
Levanto-me da cama, visto a mole armadura, ponho
o capacete de folhas de oliveira e saio
e entro no túnel dos dias
e sofro pequenas felicidades divisíveis em versos.
Isto é muito à base de imagens.
A chuva fechou o mundo no mundo.
As cadeiras das esplanadas à chuva entristeceriam se pudessem
como nós
dar-se a esse luxo de pobres: a tristeza feliz
de ver chover.
As entradas e as saídas da cidade já fervem
de metálicas moscas ligeiras pesadas, os olhos ligados
como se fosse de noite
e é:
a chuva anoitece as manhãs,
só as árvores e o rio a bebem.
Nos meus melhores anos, fui tão sedento quão
ele e elas,
rio e árvores.
Hoje
(mas que é hoje?)
a minha boca encaixa a prótese dentária
os lábios são-me rebordos de cinzeiro,
as palavras não me são água já
mas torrões de pó, nem pedras sequer.
Só os olhos resistem.
Não os que para fora olham
mas os que por dentro fitam miram manam arrasam
arrastam rosas rodoviárias por gare cuspida e oleada.
Ontem à noite
terei dormido na fímbria de pinheiros
da orla da barragem.
Terei caído subido de peito na constelação
cimàbaixo da minha condição,
à vossa idêntica por natureza.
Cerrei para fora os olhos: e as maravilhas
brotaram de dentro: gramáticas, fotogramáticas,
imparáveis, aladas, plumíferas e plumitivas e desasadas:
e tão antigas.
Muitas imagens de redactora natureza.
Não preciso de uma rapariga ao canto do café
tomando chá pensando na vida
para ver a rapariga ao canto do café
tomando chá pensando na vida.
Na noite acumulo ontens, esse hojes vorazes,
rapidíssimos, perpétuos.
Imagem da mulher viúva do comendador.
O município mandou fazer um busto do grande falecido.
A cabeça do comendador ao alto da pilastra
como a cabeça de S. João Baptista ao alto da bandeja.
Toca a banda, ora o presidente, depõem rosas.
A multidão mínima vai-se embora, fica ela.
A viúva olha a cabeça do comendador, fala-lhe:
– Noites e noites de frio, dias e dias de chuva:
mereces tudo isso para sempre, meu filho-da-puta
.
Estas imagens na cabeça: somos, também,
bustos de nós.
A nossa cabeça emoldurando pelas ruas o nosso rosto.
O nosso rosto pelas ruas arrasando arrastando os nossos olhos.
Eu vogo pelas ruas o meu século XIX pessoal.
Mal vejo os carros, o que é delicioso perigo.
Ilustro a insuficiência da vida com gravações:
sons, desenhos a aparo de ferro, versos e versos e versos.
Talvez eu seja tão feliz quão um pássaro alto.
Entrei nisto adentro, neste casaco castanho, neste homem adentro.
Levo comigo os meus: irmãos nas mãos,
os meus homens colhidos e colectores,
cobradores dos meus impostos
dias.
Menos sei do que anseio.
Tento escrever a música imaginosa:
o rápido passarito aceitando-me pão como se mo roubara;
a mulher cambaleando na ponte de pau, pesam-lhe os cestos;
o aborigenismo insolente dos ciganos;
o cavalo solitário no baldio tasquinhando a rala erva;
o dramatismo sossegado dos cafés vazios;
o jornal oblíquo nas mãos do cavalheiro vertical;
a neve respiratória das fontes;
as datas que inscrevem os prédios na eternidade fora das pessoas;
Maria concebida sem pecado original para Portugal;
as estátuas discursando o alto silêncio da Língua;
o café do teatro com falas de serradura pelo chão;
as rasas rosas rodoviárias de vento varridas;
as nossas vidas.
Reverei hoje (mas que é hoje?) o rio.
Ontem serei.

II. HOJE DE MANHÃ – 1

Hoje uma folha de mármore é o tampo da mesa,
amanhã outra de igual pedra será o tempo.
Consolam-me as certezas inadiáveis da vida e da morte.
Gosto de escrever sobre mármore e escrevo,
tenho tempo e tenho tampo.
A outra mesa, restrita assembleia de quatro homens duas mulheres
troca entrecortadas frases cafeínas,
fumam os homens fumam as meninas,
gosto de vo-los escrever a vós,
que por esta hora decerto tereis tomado já
noutro café o mesmo que aqui é servido.
O nenhum sentido de tudo tem todo o significado.
É na mesa ao lado: todos mais jovens do que eu,
que envelheço à força toda com toda a saúde,
mais em mim constante que a virtude, mor dos versos.
Um sétimo chega, narra um acidente de viação:
há quantos anos quantos versos faço o mesmo?
Saem elas a trabalhar nas lojas, demoram-se eles ociosos
(se calhar são poetas também).
Agora reparo que um é barbeiro, não deve ter
ninguém a quem aparar o cabelo como o jardineiro
que às sebes disciplina enquanto pensa na filha doente
ou nas possibilidades do Sporting na final da Taça
ou no não ter ido para a Noruega quando era tempo
– no tampo agora reparo.
Gosto das veias do mármore.
Gasto da carne petrificada do mármore.
Se de muralhas-da-China sitio o coração,
faço-o por ademanes de auto-protecção.
Escoro de vivas veias o mármore pessoal,
tampo e tempo de um homem nascido em Portugal.
Rémoras somos ao tubarão do tempo coladas,
medusas de água vemos ouvimos falar: as casadas,
que manhã tão cedo saem às compras
como eu aos postais e aos crepúsculos e vós não sei a quê, a quem.
Era a poesia tudo quanto queria – e prosaica me é a condição.
Diz-me Lídia que revisite minha Mãe, fá-lo-ei breve
– que tudo é breve quanto faço e posso
e peço e passo.
A um tempo superior persigo
enquanto o quarto final me não encerrar
pastor de crepúsculos.
Redigindo irei tantos tontos crepúsculos
enquanto não.
Irei talvez em Maio a Lisboa
a ver a Mariana o Tejo a Outra Banda
e serei feliz
uma vez na vida
na Cidade
onde como de costume entristeci
os quase três anos que quase lá vivi.
Outros topos se me colam ao coração como pessoas:
Santarém às Portas do Sol;
Parceiros de Leiria às da Lua;
Foitos do Louriçal vizinho de laranjeiras;
Aveiro num café lendo Dinis Machado;
Matosinhos para versos e para vinhos;
Peniche recebendo o luto do mar;
Coimbra com a São Pinto na Leitaria do Raul;
e Viseu ardendo à chuva em mármore.

III. HOJE DE MANHÃ – 2

Passou a manhã passámo-la nós
passou a manhã por nós e nós por ela
entre ela e nós há negociações
da mais ínclita olvidável importância.
Dela e de nós guardará a tarde a maior distância.
Isto para não falar na noite.
Estamos o que somos aqui
embora noutra hora demore como demora
o que somos se calhar o que fomos
mas pomos o que temos sobre a terra
escreveu Ruy Belo perante um
girassol de rio de onor
visto hoje na andaluzia.
Passámos já todos a manhã do dia.
Já de nós esperam horários o almoço a tarde.
Cumpriremos com as mais solícitas solicitações
essas e muitas outras obrigações
entre as quais a de estar vivo perante o que chove
e a neve e a ave e tudo o que vive
ontem esta manhã e amanhã.

IV. HOJE DE MANHÃ – 3

Despede-se desta manhã o pastor de crepúsculos
homem da estatura dos outros como ele minúsculos.
Levantou-se cedo e tudo o que de si quer
é que valha quanto cada ovelha vale e bale
pelos vales da sua poesia.
Tudo quanto quer e pode é cada dia.
Catedral de gelo cada estrela iliba Deus
da herança da tristeza
chamou-lhe ele um dia livro-arbítrio
no átrio de vitríolo de outro verso outro dia outra manhã nocturna
de outro poema atirado à cara
como o vento que nos castanheiros deu e desceu
à terra a exaltar seus anjos
seus pastores.
Faz o pastor muita força com a mão no lápis amarelo
almoçará um caldo de flores da terra
proteica e prometeica e prosaica é sua condição
embora isto seja Viseu+XXI e não
a Grécia-VI
no calendário que Cristo divide e multiplica.
Honra a quem fica
e teima e se obstina em quanto o destina.
Um pouco de sol espera o pastor na face
de feição.
Pela tarde, tudo lhe será tarde
– e tampo e tempo.
Ontem será entre os que foram os que são
e entre eles repartirá como a pombas pão a sua prosaica condição.
De alheias vozes migará vindimará novas uvas e trovas e chuvas.
Reconhecerá ruas e animais e mortos pelos nomes
atento o Pavia à sua inclinação pluvial:
é um pastor de crepúsculos nascido em Portugal.

16/04/2008

QUEM NÃO TEM GESSO, FAZ OS ANJOS COM CIMENTO




Pelo entardenoitecer de ontem e pela manhã de hoje, devo ter feito um, digamos, breve livro de, digamos, poesia. São XXIV poemas, tantos quantas as horas de cada dia. E em duas partes, como as, de cada dia, diurna e nocturna. A ver.
(A fotografia chama-se Madrugada de 16 de Abril de 2008 na Rua Direita de Viseu.)

PRIMEIRA PARTE

CIMENTO

Viseu e Caramulo, entardenoitecer de 15 de Abril de 2008

I
Acerca-se de nós não o silêncio mas o calamento
mudo cimento que a boca nos vem fechar
como a janelas e a pórticos de desactivadas igrejas
do desactivado deus afinal menor e não ubíquo
nem por luz nem por sombras ubíquo sequer divino.

Traz-nos a idade o outono amanhã
?que importa seja a meio de abril que escrevo?
não colherei a silvestre acidoce romã
não trincarei o pueril acidulado trevo.

Decaem-me os dentes como palavras por demais usadas
tenho ainda camisas que me juvenilificam vá lá
mas já no íntimo estojo o veludo dos órgãos
se me arrepanha me tolhe me faz pensar em
quando corria todo o dia e a noite toda dormia.

Arredo dos meus a sabedoria do que dói
digo-lhes só o que vai ser não o que foi
um homem é um rapaz velho desde menino
e mentir é o meu mais nobre mais poético destino.

Acerca-se de mim não o teu silêncio mas o meu calamento.
Quando for será. Começa aqui. Um momento.

II
Qualquer morte de qualquer criança
é naturalmente uma tragédia à escala mundial
é mundialmente uma tragédia à escala natural.

E no entanto é comédia é o que é
a criança que tivemos de morrer para ser
isto que somos hoje isto tragicamente nós.

III
Venero da paciente árvore a corpulência sentimental.
Não lhe conto os pássaros que os sabe ela de cor
deles salteada.

Honra-me que uma fonte qualquer fonte
cante dela o canto todo para qualquer gente
tanto a que passa e a não ouve
como a que a ouça sem ter de por ela passar.

Vingo-me da vida não dela toda de alguma só
tocando as vivas pedras dos sepulcros
cujas datas gravam o início não o fim.

A todas
veneração honra vingança
toda a vida
disse digo direi que sim.

IV
A noite condecorada de estrelas
abaula sobre nós dela o descomunal regaço
tudo menos maternal.

Tudo cristal.

Luas e sóis contaram os faraós.
Nenhuma estrela terá contado o povo deles.

V
Todos os dias todo o dia atendo o sol
que das minhas noites não quer saber.

À mão de uma criança calça como a ninguém
a luva da filosofia. A ela a solar filologia
já liga.

VI
Nem todos somos só alguns.
Entre nós quem haja de soltar aves por gestos
segui-los-á segui-las-á soltando.
E os que entre nós a sós connosco
conseguimos ser filhos dos nossos filhos
pais afinal da nossa vida
e nós dos mortos que nos amaram.

VII
Não digo que a humanidade mereça as nuvens
o que elas fazem floralmente ao crepúsculo.
Há coisas que não digo
só escrevo.

VIII
Um corpo precisa de outro para a felicidade
espasmódica do costume.
Assim é nas muitas civilizações
digamos culturas.
É a chamada cultura do corpo
hoje muito em voga nos ginásios.
Nos campos nem tanto
que a capela só fecha pela noitinha.

IX
O meu Pai não trabalhava como eu na rádio
mas dava-se a emissões
de que resultámos os filhos.
Todos temos televisões.

X
Sim ando ainda ando por aqui.
Aqui é a pátria a que o corpo deita capital
de sombra.

Conheço sim conheço cantos escurecidos
a que me acorre o corpo para ouvir
o povo falar em formosíssima inconsciência.

Somo aquis para que a futura ausência minha não
possa tanto.

Sim
somo aquis.
Sim
somos aqui.

XI
As pessoas que criaram a música
as pessoas que a tocaram
as pessoas que a escutaram.
Digo que todas estão vivas
não importa
importa-me lá
o século.
São muitas vozes muitas madeiras muitas salas muita gente.
É muita solidão conjunta.
Pensar nisso comove-me como receber o vento na praia.
O vento na praia quando é inverno também é música.
Os reposteiros vermelhos também são música no silêncio das salas.
Sinto que a música me apresenta pela mão
aos que a criaram aos que a tocaram aos que a escutaram.
Sinto que ela me dá o segredo único dessas pessoas tantas
dessa única pessoa multissecular de tantas salas tantas madeiras
tantas vozes.

XII
As casas
pobres jóias no estojo dos laranjais.
Como à distância as amo.
Declinam todas: todas as casas são casos.
Sintácticas, com cães à porta.
São faladas pelas mulheres, escritas
outrora pelos homens.

Abandonadas, são rostos arruinados e dignos
muito mor(g)adias, chamando ainda.

Sei porém que choram de noite, corridas
por gatos, ventos, teias, espelhos.
Mas nunca caem, nem choram, de joelhos.

XIII
Chega a doer-me a perfeição de um cedro.
O natal perpétuo dum cedro chega a doer-me.
Bule talvez no menin’ainda de um homem um cedro
não sei. Sei. Um resto de menino num rosto de homem
recebe do cedro o amor de que tenham sido objectos
e sejam sujeitos ainda homem e menino.
Não é má coisa de saber um fim de tarde
ou de vida.

SEGUNDA PARTE

MAIS CIMENTO

Viseu e S. Pedro do Sul, manhã de 16 de Abril de 2008

XIV
Explosivo e exclusivo o nascer do dia
não é fácil nascer de uma noite mal dormida
não traz a nova manhã o sono da consciência.

Sei no café muito cedo pela primeira chávena
que o velhote do meu prédio não quer dormir
na mesma cama onde lhe morreu a mulher
falta-lhe no tálamo o recordado contrapeso.
Tudo o que de um amor sobra com os anos dobra.

Perante duas chávenas duas mulheres falam
antecipam a chuva e o frio do novo dia
sempre me encantou das mulheres a meteorologia.

Em plena cidade um café de província
nada de literaturas quimeras utopias
uma chávena com café dentro e um homem fora a tv ligada
antes das nove tudo ligado a si mesmo todos os dias.

Uma simples chávena de café uma vida simples
por dentro é claro condessas e ilhas do tesouro
por fora polícias plúmbeos como pombas
e fontes que indiferentemente cantam na surdez.

Tenho a mulher cansada dormiu mal ela também.
Vejo-a cruzar os dias transatlanticamente
dá-lhe o cansaço à noite certas suaves doçuras
de manhã não é tão fácil mas ela vence
nunca vi uma mulher desistir em pleno mar-alto.

Tenho traçado o plano do dia
talvez alguns versos me ocorram
como a um corpo ocorre a chuva que lhe chove.
Com os anos
sabes
volveram-se-me os versos
por assim dizer novos olhos
novos olhos para o dia
novos olhos para a exclusiva tristeza e para a explosiva alegria.

XV
Um dia, vereis, será Verão
e de nossos idos marços não restarão
sequer ossos destroços cujos despojos
a ninguém acudirá lembrar nos dias lavados.

Eu já sei isso sei já que assim será.
Não evito o mínimo frémito de alegria
perante o perdão direi mesmo a redenção
do esquecimento.

Pois.
Não, nada restará destes trilhos
a não ser naturalmente os nossos filhos
eles que naturalmente são , vereis, o Verão.

XVI
São Pedro do Sul
são pedras ao sol
doce a água dos olhos marejados de sal
muito me move o fresco canoro caudal
gosto de ver passar as senhoras que passam
caminho dos legumes do leite do pão.
Quem me dera
São Pedro
não ser este sul que sou tão pouco são
não ser este homem mas
vamos lá
uma destas senhoras que compram
legumes leite pão
e nem olham as pedras que são
as pègadas de Pedro
inverno e verão.

XVII
Enviei ontem ao João
um disco dos Xutos & Pontapés.
Fi-lo por prévio prazer de imaginação.
Não vi mas vejo já dele os olhos de petiz
recebendo carta em seu nome e, feliz,
mostrar aos pais dele, que dele são,
dele o nome na carta segura na mão.

Quando eu era do tamanho do João
isto é do tamanho do mundo lés-a-lés
não havia ainda Xutos & Pontapés
mas havia que eu sabia imaginação.

É mais pequeno que o dele hoje o meu mundo.
Tal não me confunde nem eu me confundo
com coisas assim banais e triviais.
Só sei que dar ao João é dar a Cristo e é dar aos pais.
E já agora também dentro da cartinha
ia para os Xutos qualquer coisinha.

XVIII
Tenho pelas crianças uma espécie de respeito
tu-cá-tu-lá.
Não estou a falar só das minhas.
As vossas
neste aspecto
são minhas também
assim como todos nós os pequenos grandes
somos mais delas que elas
de pai e de mãe.

Sim
tenho pelas crianças uma fé viva em santos vivos.
Se
como hoje
como ontem
como para sempre
vejo uma ao sol da manhã
sinto logo no ar o fio de hortelã
que o fio das crianças cheira sempre a amanhã.

XIX
Também há outros assuntos
claro.
Há o assunto da morte.
Olha para mim cheio de medo nenhum dela
excepto da alheia
a única que me pode doer e dói.

O sentido da vida é a morte.
O sentido da morte é abrir ela
a morte
alas asas a outra vida
não de novo nossa
mas a outra que a si mesma chamará
eu
sei lá eu o que for.

XX
Digamos bendigamos a prístina pátina
dos mil sóis em mil águas engastados.
Digamos um rio ao sol da manhã:
joalharia é de anjos ourives
os vivos anjos da áurea refracção das manhãs
a que chamo ouro por ser pobre mas bem agradecido.

XXI
Ainda não é o silêncio
esse cimento.
Ainda é a vida
seus múltiplos aspectos.
Não é ’inda a febre desenhando nos tectos
fantasmas de rostos esperando o momento

da nossa passagem além outro lado azul.
Além outro lado da alma, do escalpe.
Ist’é a Cervejaria Reis, S. Pedro do Sul,
Rua Além da Fonte, mesmo junto à Galp.

XXII
Toquemos
’inda é tempo
a face da ourivesaria.
É o cristal da manhã rés-vés rés-voz água fria.
Planície da prata da prata do dia.
Fria face dia e ourivesaria.

XXIII
Tudo é vão.
Tudo e todos vão.
Vieram mas vão.
Até os cães ladram
vão vão vão vão.

XXIV
Vimos e vemos que viemos.
Não se perdeu tudo, digamos.
Digo
as manhãs que incendeiam o verão mesmo de inverno
as tardes que se outonam como pálpebras de sono
as noites desertas plenas da fátua multidão dos anjos.
Disse-te recentemente que se tornam pedra os anjos
quando os descobrimos, quase mansos lobos de luz, entre folhagens.
Cerca-nos o silêncio mas falaremos ainda.
Amanhã
como as crianças
na pedra.
No cimento.

15/04/2008

Contrato e outras linhas




Hoje, fui de manhã à zona termal de S. Pedro do Sul, na Fontinha. Há lá um café bonito à beira do Vouga. Trouxe de lá um contrato em duas partes. Dos outros dias, tenho recolhido em Viseu muita palavra. Aqui vo-las deixo. A foto é do dia 10 de Abril de 2008.


TÁBUA

I. CONTRATO
S. Pedro do Sul, fim da manhã de 15 de Abril de 2008

II. NÃO SOMOS CONTEMPORÂNEOS DE NÓS
Viseu, tarde de 14 de Abril de 2008

III. REPETIÇÃO
Viseu, tarde de 13 de Abril de 2008

IV. TIRANDO O SEXO E O GUIMARÃES-MARÍTIMO, NÃO SEI DE QUE TE FALE
Viseu, fim da manhã e tarde de 3 de Abril de 2008

******

I. CONTRATO
S. Pedro do Sul, fim da manhã de 15 de Abril de 2008

I
Nada me digas que não queira saber,
nada me contes que não possa esquecer.
Posso viver de ti todas as vidas que não saiba.
Não me é impossível ter-te fora de ti.

À beira do Vouga, em S. Pedro do Sul,
tenho comigo os mortos e os vivos.
Devolvo a uns e a outros os versos encontrados
pelo chão, pelo ar e vendo o rio.

Com eles estabeleço contacto e contrato.

II
Que este seja o nosso tempo, ninguém no-lo roube, que dele mesmo se rouba a si mesmo ele. Ouçamos o canto simultâneo das águas, sobretudo quando as não vejamos, pode ser o único mar, os rios únicos podem ser. Sempre por perto as árvores resistirão ao fogo, cinza é a nossa vocação, não a delas. Sinto isto esta manhã – cheguei preparado para a vida e ela não estava, sentei-me ao pé do Vouga à espera dela, pode ser o Mondego como o Pavia como o Tejo como o Ceira. A vida retornará, que não consegue ela resistir à sereia de cada rio, que o canto das águas a cada rio torna sereia – e nenhuma cera pode juncar-nos para sempre os ouvidos, esses olhos interiores que em cada homem cada mulher deixam cantar. Alternam o sol e a neve, não são como antigamente os outonos, nada tem de si mesmo a antiga mente. Como poderíamos nós primaverar os perdidos outonos? Todos fomos já obscuramente felizes – e agora. Agora fazemos como podemos. Eu escolhi as ruas do comércio, pistas de vidro escurecido pelo desejo das coisas por que ambulam os seres mais gémeos do mundo, os olhos tristes que denunciam escassez de moedas nas algibeiras, agora já ninguém diz algibeiras, diz bolsos ou, pior, pochettes. Se me vísseis aqui, à beira do Vouga numa manhã construtora de rápidas eternidades, diríeis decerto que faz este gajo aqui em vez de nas obras ou atrás de um balcão de lotarias ou empadas ou num escritório a escrever números ou assim. Resulta o mesmo, amigos queridos que queridos sois de outros amigos – e todos passamos, queridos ou não, querendo ou não. Uma mãe jovem chama ricardo a um filho como se o menino fosse um aperitivo francês ou algum rei inglês, como se Shakespeare viesse a vermutes a terra de termas. Só aceito o inaceitável, que este seja o nosso tempo, areia a nossa condição, seda o nosso papel voador de papagaios de cana e cola de farinhágua. Temos sim pousados nos ombros os corvos, em vão enxoto os meus com versos bonitos e tristes e para esquecer. Pode de repente apetecer-vos vitela no forno para o almoço, não tem mal, que a tarde sucederá como um outono cada dia, a tarde é o outono do dia, toda a gente sabe isso, se não dizê-lo ao menos tê-lo, cada dia. Na tarde do dia número doze deste mês, por exemplo, perdi um verso a caminho de casa. A caminho da morte outros perderei, como da vida. Mal nenhum: a insignificância perde-se sozinha. Gostaria, naturalmente, de não perder versos. Talvez gostasse bem mais, no entanto, de os não achar. Não nos percamos, ainda não, neste tempo a que chamamos nosso mas a que de facto pertencemos, por contrato.

******

II. NÃO SOMOS CONTEMPORÂNEOS DE NÓS
Viseu, tarde de 14 de Abril de 2008

Reitera-me a manhã a graça do ouro, o ouro da graça.
Passo de pés doentes ao sol da praça.
Vim a ver os homens pobres, as pobres mulheres
de estampadas blusas, medusas, malmequeres.
Deus fez as igrejas e foi-se embora e desapareceu
de casa de seus pais.
Tenho os pés doentes, coxeio rua afora.
Num saco porto pão para as pombas,
as unhas das mãos roídas e rombas.
Já morei rente ao mar e não o via,
a vida como entre montes decorria.
Foi muitos anos depois de me mudar
que entre montes o vim a achar.
Não têm os eus com os corpos contemporaneidade,
a cidade é o campo, o campo é a cidade.
Isto pensa, sente, diz e escreve um eu,
pelo fim da manhã da cidade de Viseu.

******

III. REPETIÇÃO
Viseu, tarde de 13 de Abril de 2008

I
Repito já dos antigos homens
o lento domingo e o lento passo
que rápido aprendi quando adolescia
e o domingo era o dia repetido.

II
Nas rodoviárias se escreve a bíblia dos pobres
sacos em vez de versículos
tantos em vez de santos.
Levam galinhas vivas garrafões vivos
e acumulam no meu coração o velho
evangelho da pobreza remediada contra a morte
deles e minha
por enquanto.

III
Parece-me por vezes o coração
não o que levamos aos médicos o outro
um calendário com mais santos que dias
um coração por assim dizer fora de cardiologias.

IV
Antigamente o pai dançava com a filha
no baile do casamento da filha.
Hoje a filha aceita comer um bitoque
no do pai
outra vez.

V
Tenho dois três quatro trapos no roupeiro.
São o que deixarei do corpo
não os versos.

VI
Um
dois
três
quatro versos.

VII
E há esse tempo que não quero deixar não ainda.
Havia no meu corpo uma saúde de pessegueiro.
Remela de verniz brotava da pele ao sol.
E eu como vós vigorava num vento vegetal.

Passavam autocarros mas qual rotina?
A vida aventureira era acordar.
Dizia-se por graça uma graça a uma menina.
E havendo gente na mercearia era esperar.

Apertam-se-me ora as veias na cabeça.
As fontes dão suíças já nevadas.
Escreverei é certo quanto me apeteça.
Sou gajo p’ra entrar em desgarradas.

Como vós vigoro ainda neste tempo.
Os pêssegos são contumazes relapsos animais.

Ora nem menos e ora nem mais.

VIII
As velhas pelas ruas do meu País
tão parecidas com a minha Mãe
as velhas pelas ruas do meu País
tão iguais cada uma a minha Mãe as ruas do meu País
tão iguais às minhas palavras
por exemplo
o meu País
tão igual ao meu Pai
que me basta tirar-lhe
ao País
o acento do i
e o s
para me tornar filho
do meu País
por essas ruas velhas.

IX
Toda a gente aceita morrer mas ninguém
quer estar morto isso não convém
sobretudo quando ainda se procura trabalho
ou que fazer ou o caralho.

Toda a gente é igual menos na marca do carro
na atitude perante o anoitecer de cada dia.
Toda a gente cedo ou tarde solta o escarro
mas nem toda a gente é gente de poesia.

Que lhes aliás interessaria
o ano mil segundo Georges Duby?
E a máscara de Dylan, o Thomas não o Bob,
que lhes interessaria agoraqui?

Toda a gente aceita centros comerciais
quando quanto maiores que a cidade melhores.
Sempre dá pró find’semana mais
serem as lagartixas do que os aligatores.

Versos ninguém quer. Nem homem nem mulher
vão por erotismos da fala do falo muito menos.
Nascemos é breves. Morremos é pequenos.
Nascemos é breves. Morremos é pequenos.

X
De amantes sejam gemas os poemas
diamantes que não gemas
só poemas só poemas.

XI
Anil clarão azuleja um fim mais a oeste
onde o mar não visto banha equadores.
A gente tem de ter amor que preste,
não pode passar a vida em desamores.

Hoje é domingo. O centro comercial
fechou portões, igreja consumida.
Uma vela ardendo vale a mesma vida
que a vida acenda bem ou mal.

Isto é tudo tão verdade. A verde idade
não mora no corpo que a escreve.
Mas é passeando pela cidade
que a língua leva o corpo leve.

Nenhum quilograma. Quem ama
nem sabe quanto vale a pesagem.
É um anil clarão, domingo chama
à vela a bela anil imagem.

XII
Pressuroso toque em a redondilha virilha.
Temos contas que esperam fora dos corpos.
Não, o meu marido não se mete assimunto nos copos.
Ele é muntamigo dànterior filha.

Eu faço pela vida, ele desfaz a dele.
Assim s’entendemos, renda cada mês.
À noite, os dois nus, a pele co’a pele,
’xotamos o gato e é outra vez

o amor a fazer, ternos empurrões,
os riscos dos dois somando impérios.
Falta-nos a luz, são só apagões.
Acorda a manhã, içamo-nos sérios.

Dia de trabalho, é segunda-feira?
Repito de amantes os antigos homens.
O milho partido oureja nas eiras.
Os homens são velhos, os versos são jovens.

XIII
Hei-de ter fora desta vida um crisântemo
um carro melhor que o teu uma mulher melhor nua
que a praia aonde levas a tua.
Hei-de socorrer-me sempre desta agonia
que melhor que o teu dia é por falada.
Falada e rimada meu querido falada e rimada.
Hei-de ter contra ti um crisântemo e mais nada.

XIV
Haveria eu então de perder o dia
domingo que seja sem dar luta?
Fosse eu o filho da mais puta-maria
fosse como tu o filho da maria-mais-puta.

Não.

Ainda assim eu saberia
não perder este dia
como tu sem saber ser
filho da Maria.

XV
Não voltes tarde a casa não percas tudo
define casa define tudo

cultiva morangos aos borbotões no coração
não sejas burro meu vizinho meu cão meu amigo meu irmão
o tempo é pouco para cultivar sardinheiras
na praça os agriões estão pela hora da morte
como nós
mas tu meu caro dá voz aos agriões
não louves as fraudes não vás a apresentações
de merdas que nada acrescentam
mas tudo apascentam
digo

a poesia de merda dos merdas que nunca chegam a poetas nem a horas
os quistos sebáceos espremidos em suas boquinhas funcionárias
o esplendor dos melões dos colhões e das amoras
o esplendor dos poetomerdas que comem a merda e as secretárias

nada disto te faz conquistador do inominável eu a que chamo tu
nada disto te torna navegador de mares esbracejados
nem subsidia nada teus próprios versos mortos-nados

não voltes tarde a casa não percas tudo
não voltes tarde
não voltes.

XVI
O tempo de uma frase é um minério.
Entrar num café, uma geologia.
Dona Sofia, bom dia, está a tarde fria.
A frase é dita por um homem sério.

XVII
Um dia um de nós faltará
havia cozido à portuguesa e ele esqueceu-se
meteram-no em roupas brancas desencarceraram-no
havia cozido e ele esqueceu-se.

A gente fica na pátria a gente deve às finanças
para os bailes da morte nem cêntimo nem danças
um dia um de nós faltará
será triste e bonito e o sol brilhará.

XVIII
Como um casaco alto
num dia de inverno
seja a palavra que eu deixar
seja a palavra que me deixar
ter sido um casaco
por um inverno.
Alto.

XIX
Volta a casa e sê inicial no domingo acabado
tu e os outros.

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IV. TIRANDO O SEXO E O GUIMARÃES-MARÍTIMO, NÃO SEI DE QUE TE FALE
Viseu, fim da manhã e tarde de 3 de Abril de 2008

I
Ainda há tempo e nada quero.
Sujeito ao sol, dele sou objecto.
Venha o vento a dar o acto
exacto e grande ao que tiro

da vida: um andamento
entre pessoas pobres e casas
como elas pobres enquanto
correm as grandes, exactas brisas.

II
A linha nº 6 é a de Orgens-Santo Estêvão.
Os óculos escuros barricam esta senhora.
Mas eu não espero já que se comovam
nem os ceguinhos nem São Cristóvão a esta hora.

Manhã na cidade: bolsa de luz,
transpar’cida medusa mundial.
Deus é quem dá a chuva. O sol, Jesus.
Viseu, Café Avenida, Portugal.

III
Adventícios e adventistas,
Maurícios e Baptistas,
de todos há por estas ruas.

Snackalmoço, no intervalo,
poema com ovo-a-cavalo,
batata ’scritas duas a duas. .

IV
Vim para o norte num comboio nocturno.
Para a morte se vai ficando.
Dizem os vivos: – Vamos andando.
Na vida fui eu já q.b. diurno.

A boca toda entrapada de seda.
As adocicadas palavras do comércio.
Dou-me todo por tudo e por nada,
não valho un sou nem um sestércio.

V
Os meninos pedem bolos às mães,
comendo crescem por dentro na boca,
não podem saber ’inda quanto amargarão

a presente presença do passado,
quando, perante montras, nas ruas,
as mães já só tiverem estado.

VI

Não sei de que te fale, mas não
é por falta de palavras, não.
É mais por fadiga do coração.

Nos bares a madeira ressuma bosques.
Luz a joalharia estantes de vidro.
Perto, a igreja refulge no adro.

VII
Esqueci-me de ir à igreja pedir qualquer coisa.
Um sinal, um guisado, uma muda de roupa.
Por versos exponho a falta de bolos.

Tenho pão num saco, ’inda ontem
contei p’ra que serve: uma busca de aves.
Pousam na igreja, não me lêem nem ouvem.

VIII
Não, não me esqueci, fui dar de comer ao gato
que ontem me deu a primeira de quatro prosas.
Sim, não, não me faltaram hoje as rosas.

Levei arroz de carne de outro dia.
Tinha-o no frigorífico, arrefecia.
O gato gostou doarrozdasrrosas.

IX
Alguma poesia é de alguma pessoa
a própria profecia.
Digo eu, que a não digo, quem diria.

Mais certo é, ao sol da Praça de D. Duarte,
Viseu, ter arte de pessoa.
Que isto é Viseu, não é Lisboa.

X
Ficarás sozinho em teu vinho.
Portarás pão de pombas, que esmifrarás.
E nunca terás sido mau rapaz.

Estenderás os pés de cera agudamente ao tecto.
Tuas filhas te terão o amor mais discreto.
Teus netos te repetirão a cera e o vinho.

XI
Deus institui que uma parte da água seja para fazer olhos
e que os olhos subam ao que for rosto
e nele constituam a nostalgia das muitas águas
do mundo
as represas as lagoas as ribeiras as baías

e que cada olho com diferente cor do outro
do mesmo rosto
olhe.
E depois é quinta-feira
e a gente
nem sabe para onde
(m)olhar.

XII
Passou poragoraqui um gajo cujo oblíquo andar ou era da vaidade
ou dalgum quisto dermóide incrustado no cóccix,
não sei.

Sei que as pessoas partilham a vida com elas sós,
não sei,
por este andar,
não sei.

13/04/2008

Turismos com Banda Passando em Fado-Marcha

Cinco Hombres Tristes, © Miguel Ruibal (www.miguelruibal.blogspot.com)
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Turismos com Banda Passando em Fado-Marcha


É domingo, acabou a manhã. Fomos cedo às compras, temos amigos para almoçar. É um dia bom. Ela ficou em casa a arrumar o resto da manhã. Eu saí para ir buscar palavras que estavam cá dentro, à espera. Encontrei-as, voltei para casa, estou sentado a revivê-las. Antes de tudo, dei de comer às pombas no Rossio da cidade. Fiz isso. Esmigalhei pão, atirei-o. Depois, fiz o número de circo pobre: abri ambas as mãos, a que escreve e a que lê: elas treparam-me as mãos, comeram dando bicadas nas palmas. Uma mulher fotografou o conjunto: não conheço a mulher, ela ficou-me com a imagem de cruzeta de pombas. De dador de pão, como meu Pai foi. Deixo-vo-las aqui, vãs migalhas, num rossio de luz. Deixai-me apenas esclarecer que a etimologia nos obriga a recordar uma onomástica figurativa: do grego, o nome Crisóstomo. Significa, à letra, O da Boca de Ouro. Ou seja, O Que Fala Bem. Não é o meu caso.


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NÃO MAIS CRISÓSTOMOS
Viseu, fim da manhã de 13 de Abril de 2008

Abandona-nos por vezes a conversa as bocas,
essas borbotadoras de couro.
Não mais somos os crisóstomos, as bocas de ouro.
Somos agora o calado couro das caladas bocas.

COMO O COMBOIO
ibidem

Como o comboio faz que passem as coisas quietas,
escrevo.

À PASSAGEM DA BANDA DA MANHÃ
Viseu, manhã de 13 de Abril de 2008

– Que estranha alegria é esta que me finca o coração com pés de pomba?
– É a filarmónica que passa, meu senhor, daquela banda.
– E por que me toma assim, menina, o insensato júbilo?
– É a manhã de domingo, meu senhor, que parece que não passa.
– Mas passa, minha menina?
– Tudo passa, meu senhor, até eu de ser menina e o senhor de ser senhor.
– E que estranha menina é esta?
– É a alegria, meu senhor.

CARTA CHEGADA DA FIGUEIRA DA FOZ – um turismo
ib.

Quando eu era menino, a praia da Figueira da Foz parecia-me a maior coisa de que o mundo era capaz. Ainda sinto isso, embora o não pense. Gostaria de pensá-lo, mas não posso. Não posso porque a minha Mãe envelheceu como uma flor de varanda a que o raro sol não mais que uma hora acode – e não todos os dias. Muito octogenária e quase cega, está sentada na viuvez. Tem o coração desconcertado pela evidência e pela iminência da chegada da partida. Foi ela quem me deu os verões na praia. Escrevo para que a minha noite portátil lhe traga algum repouso. Faço tudo o que é humanamente possível para anoitecer sem que ela o saiba. A gente teve verões – e perdê-los é o nosso mais recorrente modo de vida. É-me lícito supor que vos sucede o mesmo? É-me lícito, sim. Depois, num antes que se volveu o maior futuro de que o mundo é capaz, fizemos filhos e filhas. Não podemos deixar de plantar na praia essas flores, onde o sol nunca é raro – e, então, poderemos deixá-los lá para sempre e virmos sentar-nos aqui, à espera que eles nos escrevam de coração desconcertado pela grandeza do mundo, da praia, das chegadas e das partidas.

HOMEM QUE VALE A PENA VIR VER A VISEU – outro turismo
(com oportunas e eruditas referências a Ruy Belo)
Viseu, tarde de 12 de Abril de 2008

Vi na cidade um homem entristecido de pobreza: uma espécie de cão erecto, já imune quase à chuva da tarde, à chuva que pela tarde desfia já a noite. Jaqueta de ganga de bazar humanitário, rota calça de bombazina dada. Sapatos cambos, rombos, ósseos, inchados: barcas de andar. Mas de mãos tão bonitas, o sacana do homem, de mãos tão bonitas. Foi na esquina da Homem Ribeiro com a António José de Almeida. Aí o vi – e aí me senti, eu também, portador de ganga, bombazina, sapatos e mãos – mas não tão bonitas as minhas, que cega uma delas por canhota e outra por redactora de pobres.

Vi na cidade de dentro o quão fora pode o olhar de um homem ser. Ser de asilo, gangazina, o cambado olhar. Foi ele alguma vez o bebé de alguém? Amou alguém a alguém para que ele fosse – e viesse? Eu não sei. Isto é um sábado, a tarde queima seu gás frio, abril demora a arrancar a propulsão da primavera, as fontes expectoram pó de água – e este homem ali, por aqui, por aí, ao deus-não-dará.

Vingo na cidade o meu voluntário destino de colector. In urbe homine sum qui hominis lego. Não sei se ainda declino bem. Não tem importância: se não for bom latim, parece latim. Também a poesia parece a vida e não a é. Ele é homem e parece-o. É pobre, ele, e entristece-me, a mim: que se foda o latim.

Ele passou. Correrá agora, pássaro moreno, escuras ruas. A minha possibilidade é fazer dele linhas escritas. Nada sei dele. Mas dá-me ideia que vós, leitores/legedores/colectores, tudo pareceis, dele, saber – in urbe.

Toquei as palavras de novo, de novo olhando uma fonte – olhando um homem. Sei que vai ser da fonte, não sei que vai ser dele. Eu não entro nisto. Eu vejo. Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era para os gregos. Isto é Ruy Belo, tanto em Viseu-doze-de-abril-de-dois-mil-e-oito como no Monte-Abraão-dezoito-de-abril-de-mil-novecentos-e-setenta-e-oito, a menos de quatro meses de morrer em Queluz-oito-de-agosto-de-mil-novecentos-e-setenta-e-oito. Toquei (troquei) as palavras do homem de palavra(s). Eu não digo que o vero homem de Viseu seja o poeta. Eu não digo isso. Eu realmente

Eu realmente – são as duas palavras finais (mas iniciais sempre, nele) com que Ruy Belo remata (e ele lia jornais desportivos) a Pequena História Trágico-Terrestre (in País Possível). O prefácio desse livro, assinou-o ele em Madrid a 1 de Maio de 1973. Faltavam-lhe sete dias, três meses e cinco anos de vida. Sete, três, cinco: que são os números? A gente não sabe. A gente não sabe quando vai morrer. Vale por isso a vida: não saber números. Deixar que eles saibam por nós. Nós realmente

Na cidade-nos, vi-nos homens-nos.

ROXO LUXO DA TRISTEZA
fado-marcha

Viseu, tarde de 12 e manhã de 13 de Abril de 2008

1
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

2
Dos meses vou apanhando
da cor da cinza os frutos
são-me os olhos devolutos
os anos mos vão fechando.

3
Coisas que eu não sei de cor
nunca as pude aprender
mas vou dar o meu melhor
que pior não pode ser.

4
Ao sol frio eu sou lunar
muito ardo eu à chuva
a tristeza é uma luva
que eu gosto de calçar.

5
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

6
Os rios da nossa terra
são veias que Deus abriu
meus irmãos lhes fazem guerra
muita morte os recobriu.

7
Eu de noite já não sonho
mas passo os dias assim
olhos que na cara ponho
cegas rosas de jardim.

8
Quem dera eu fosse dado
a subtilezas mais finas
braço dado a meninas
a compasso marcha-e-fado.

9
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

10
Uso dentes emprestados
para o fruto proibido
sou de mãe um malparido
marcho marchas canto fados.

11
Rufo nervos bufo amigos
triste sou profissional
que eu nasci em Portugal
dos castelos dos postigos.

12
Do Américo Thomaz
do Caetano do Marcelo
joio do trigo amarelo
maçã podre do cabaz.

13
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

14
São mil anjos bem contados
que a cavalo na luz
trazem novas dos soldados
matadores do bom Jesus.

15
São soldadinhos de palha
da guerra colonial
baionetas da navalha
afiada em Portugal.

16
Muita gente nos cafés
ardendo a televisão
muitas mãos e muitos pés
mas nem um só coração.

17
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

12/04/2008

Uma Sexta-feira na Cidade das Formigas



Viseu, fim da manhã e tarde de 11 de Abril de 2008

A Cidade não é uma nem una, mas tantas quantas as suas formigas. As residentes como as passantes: todas passantes, afinal. Há os nomes dos mortos nas esquinas das ruas, os dos vivos (odontologistas, advogados, esteticistas, astrólogos, professores africanos) nas placas afixadas ao primeiro andar do olhar de quem passa. Há quem venda uma solução imediata, mesmo nos casos mais difíceis ou graves, com urgência. As formigas andam de olhos muito abertos pelas ruas: conferem-se mutuamente as cegueiras. Não se tocam com as antenas: um olhar cego é quanto lhes basta. O Sol marca a Hora, a Hora marca o Sol – mas faz frio nas pistas. Em escritórios, formigas brancas registam os trabalhos, as doenças, as contribuições das formigas negras. É preciso perdoar a todas, negras e brancas, tantas e tão malbaratadas sextas-feiras de esperança num mundo melhor. Amor, amarração, aproximação, afastar, problemas familiares, sorte, dinheiro, emprego, negócios, atracção de clientes, justiça, protecção contra invejas e maus-olhados, doenças espirituais, depressão, impotência sexual. A Lua marca a Hora, a Hora marca a Lua. As cadeiras-de-rodas rodam frente a lojas de sapatilhas. As formigas ingerem doses maciças de vitaminas barbitúricas. Procuram o quente das pastelarias aquecidas a fornos a gás, as formigas. As formigas também procuram a beleza. A beleza difere de formiga para formiga. Quando uma formiga se encontra com a sua beleza, não se sente formiga. Quando isso acontece, a formiga abandona por dentro a Cidade. Estabelece residência à passagem. Não está porém na beleza a vida. Sabem-no as formigas que a viveram. Também não nos livros está a vida. Sabem-no as formigas que lêem. É sexta-feira-dia-onze – e nada conta ter havido uma quinta-dez: como não contará um sábado-doze. Longe, as marés assestam a eternidade da repetição, de todo alheias aos horários dos portos, às matrículas dos cargueiros, às ínfimas angústias das formigas-pescadoras. Os autocarros, vistos do papel, parecem assegurar a condição arterial da vida – mas é venosa a passagem como venenoso é o tráfico. Há fumo da boca das formigas, é ígneo o mineral da sua condição respiratória. Bem podem ser vistas nas áleas & áleas dos corredores dos hipermercados: tossem filhos, rangem carrinhos de arame, lêem os preços das prateleiras mais baixas na esperança de um verso mais acessível, mais arcaico. As mais arcaicas formigas crestomatiam nostalgias sem outra redenção que a do poder de compra da queixa chorona. Na zona da Cidade delimitada pelo recinto da feira, há as formigas que se prostituem mas engravidam e há as formigas que engravidam mas se prostituem. Trabalho à deslocação, presencial ou por correspondência. As formigas também sentem a graça. Não a de foro divino, mas a correlativa: o hálito gélido que mana das bocas negras, os portões escancarados das frias igrejas vazias. As formigas são sopradas pela filarmónica desse deus folclórico, roxo, sardinheiro, esse deus de torrão-de-alicante que subjaz à feira da fé e ao recinto da feira, em torno do que as grávidas poupam para a côngrua e para o vestidinho. Da chuva, todas as formigas sabem o preço. Os ocasionais helicópteros de escolta a alguma vinda da formiga-presidente espantam e euforizam e espalham as formigas-eleitoras, varrem-nas pela Cidade como ventos de velho testamento, o acendedor de sarças, anátemas e perpetuidades demais dos destinos créus. Doenças espirituais, depressão, impotência sexual, fenómenos estranhos, vícios de drogas e alcoolismo, emprego – nada escapa ao helicóptero do vento: mas não desanime. Sexta-feira é dia de boletim no concurso de eurotostões. As formigas filam o bocado nas agências de apostas. Os anjos de pedra persignam as formigas corredoras. No parque da Cidade, fantasmas de corças bucolizam o susto de já se ter vivido a vida, queimada a savana verde de irlandas outras que não esta. Arenques e noruegas branqueiam glaciares de enciclopédia na memória das formigas que nunca foram para o Norte. Exposições de artesanato convocam nas formigas uma lembrança colectiva que não há mas parece bem autarquizar que há. Parece bem, também, aderir à noite da sexta-feira rondando pelos bares ocidentais, onde o tam-elec-tam-trónico substitui a conversação, essa tolice das palavras a trocar. Nenhuma excepção, nisto: pela tarde, as formigas-acne já putinharam pelas lojas de camisolas escritas NewYorkNewYork nos peitos. Ainda há, ainda assim, fontes à luz do dia. As fontes não doem de água (de Tempo) a todas as formigas. Preferem-lhes, aquelas formigas a quem as fontes públicas não doem, os chuveiros domesticados das casas-de-banho das tocas formigueiras. As formigas também se reproduzem sem necessidade. As formigas amam muito, sobretudo quando odeiam. Amam sem necessidade e deixam de amar por razão nenhuma. Cultivam os mortos em pedra, as formigas. Elas, que nós somos, perfumam de aves assadas os quintais traseiros. Devoram peixes como tocadores de harmónica. Usam popelinas, gabardinas, cabinas, benzinas, bombazinas. Portam dentro rios escarlates ligadores do corpo ao pensamento, mas é sangue que lhes chamam, as formigas. Sindicalizam-se cada vez menos por causa das tosses. Ajoelham perante a lei antitabágica de alto-lá-com-o-charuto. As formigas consideram a heteronímia uma maria-vai-com-as-outras. As formigas só vêem o mar quando estão longe dele para sempre. Poucas formigas reconhecem que abandonar o mar é pior do que abandonar uma pessoa. Pior, porém, é quando uma delas, sozinha num bar de hotel, é acossada por um piano tocado. A formiga não pode deixar de entregar-se à doçura desse uivo métrico, esse apelo da selva genética, essa excepção ao mau-tempo. Mais sossega as formigas, do que o piano, a mole gentia das catedrais. As catedrais arquitectam a moral votiva das formigas. A Cidade é o que sobra da Sé. As formigas formigam auto-estradas com o mesmo peregrino denodo com que extirpam percas às barragens em concursos de pesca patrocinadores do orago estival. Atiram automóveis a ribanceiras por dificuldade económica, as formigas, que da causa só conhecem o desespero. Não se sabem ancestrais, nem como o vento repetidas, as formigas. As formigas jurariam que são desiguais, por incomparáveis, os filhos que atiram ao mundo como carros a ribanceiras. A frivolidade não acomete de raiva as formigas, fá-las só sonhar com férias de sonho. Também faz as formigas sofrer por comparação com as formigas da televisão. Cadeiras e cadeiras e cadeiras e cadeiras juncam de baquelite escarlatamarela as esplanadas a que as formigas acorrem para sedimentar a passagem dos verões, sobretudo quando chove. Vale às formigas que um olhar cego é quanto lhes basta, para solução imediata, por mais difícil, por mais sexta-feira.

10/04/2008

Três Colecções de Entrelinhas


Linhas:
Viseu,
manhã e tarde de 10 (I),
tarde de 9 (II) e
tarde de 5 (III)
de Abril de 2008
Foto: tarde de 10


Sinto que o que escrevo tende cada vez mais para o – ou se aproxima do – silêncio. Não digo o silêncio ruidoso da mudez. Digo o silêncio das pausas da música. Não pode haver música sem pausas, toda a gente sabe isso. Digo de outra maneira: sinto que o principal do que tenho (terei?) a dizer, será nas entrelinhas, que não nas linhas propriamente ditas/escritas, que pode ser ouvido/lido. Enfim, nada do que sinto e escrevo tem qualquer importância transcendente.
Ficam aqui, a partir de hoje, a partir de agora, três colecções de (entre)linhas. De uma delas (a I) consta uma passagem pelo cemitério da minha actual cidade. Peço-vos que não entreleiam em tal passagem qualquer necrofilia, morbidez etc. Não. Não é essa a entrelinha: não sou grande entusiasta da vida, mas também não sou uma espécie de viúvo-alegre de mim mesmo. Aceito, é tudo, a morte como a
outra
face da moeda: do óbolo que nos é dado, a cada um de nós, no acto (involuntário – mas acto) de nascer.
Também é verdade que o meu Pai faria hoje 91 anos. Fê-los na mesma, claramente, obscuramente – do
outro lado. Não me sendo possível ir hoje a Coimbra visitá-lo onde dorme, fui senti-lo ao nobre campo-santo de Viseu. Fiz bem: até porque, nas entrelinhas dos nomes dos outros, leio sempre o dele com o sorriso de quem agradece, e paga, a moeda que ele e a minha Mãe me deram para eu gastar em música e em silêncio.


Viseu, noite de 10 de Abril de 2008

******

I. VOU AO FIM

Vou ao fim da rua ver o fim da vida.
Vejo e volto a pé: é só uma rua, é uma vida só.

*

A chuva nas ruas estreitas.
A drogaria, a boutique, a confeitaria, o antro com chineses dentro.
Quão terrível pode tudo isto ser?
Brincamos com o fogo ou não em o tempo, o estreito tempo de chuva?

*

Em montras, fatos completos de homem sem homem dentro,
vestidos de mulher que mulher alguma despiu para mim.
Quão terrível pode isto ser?

*

Bolos de aniversário, de casamento.
Quão terrível pode ser para si o não comedor de bolos?

*

Frios incêndios lavram à chuva na cidade: nós.

*

E quem nos negaria, ante cada lar, dele o carácter oracular?

*

E a poesia nossa de cada dia,
que, como um pão de ar,
dia algum nos pode dar.

*

Nem tirar.

*

Da orla do mar,
não nos chega o sal,
chegue-nos quanto sal chegar.

*

Vou ao fim da minha rua ver o fim da minha vida.
É só a minha rua, é só a minha vida.

*

A minha vida não é minha nem tua,
quando eu não te voltar do fim da nossa rua.

*

Vi o homem que cheira a oliveiras.
Quem me dera sê-lo, ao vento nelas.
Não estar dentro do inodoro Anjo,
não me ser por dentro sem elas.

É um pastor: pelos fins de tarde,
torna ao casebre, pela mão a vida.
Eu sou só chuva que ao vento arde,
vendo eu que é tarde, à despedida.

*

Não é dia de roxuras.
De cinzas sim somente.
Prumei pelas ruas do cemitério lendo os derradeiros poemas:
nomes, números: contas de gente.
No talhão militar, surpreendi os combatentes deitados,
mais do que nunca caídos.
Continua o jogo em os jazigos de família:
juntos todos para o chá entre a mesma mobília.
Lavores de granito em quietas danças.
Alguém que perdoe a Deus: vi crianças.
’inda assim, digo-o por mim (que tenho alturas),
não, hoje não é dia de roxuras.

******

II. ENQUANTO A TERRA NÃO

O mundo é o templo do tempo.
A cidade amplia na pessoa a solidão.
Terminei o Anjo, estou cansado e doente.
Não sei o que fazer pela cidade,
não sei o que fazer da cidade.
Por horas torno à vila da montanha.
Está frio, o vento corta.
Torno a desejar a sombra das latadas
em junho ou setembro,
ler um livro, fumar pouco,
comer fruta, beber água nua de tão pura,
fazer a sesta enquanto
a terra não convoca
o terminador.

******

III. PARES

Por exemplo morreu
mais um vizinho meu

Ruy Belo
O Problema da Habitação - alguns aspectos



1 (perante dois versos de Ruy Belo)

Seremos um dia o vizinho que morreu
e seremos então um ele
não já nunca mais um eu.
O senhor Nunes da minha rua
havia dois senhores Nunes na minha rua
morreram já os dois
não eram irmãos
são-no agora
suponho.
O que morreu primeiro não
mas o segundo foi em vida testemunha
de jeová.
Agora mais do que nunca
o será
suponho.

2 (perante duas pessoas num bar)

É um casal maduro como fruta ao sol.
Ambos de brancas meias-luas na base das unhas.
Lavados, claros, encanecidos sem pressa.
Ele – quase nédio, de próspera próstata.
Ela – faneca longa, bonita, cinquenta e picos.
Ocupam de jornais uma mesa, café, água mineral.
É um casal no sábado que amadurece.
Não é ’inda a morte, não ainda, não a memória e não
o olvido.
São uma parte do meu trabalho de hoje:
gente que esquecerei – como vós
estes versos.

3 (perante duas flores não fechadas, não ainda)

Não nos demos toma-lá-dá-cá as melhores flores.
Há-nos já muita fadiga nos braços.
Outras flores trocámos por sangue
em horas e jornadas carburadas.
Frequentamos pastelarias, praças, pequenas salas,
passadiços. Lembras-te?, havia passadiços na praia,
quando buscávamos entorpecer de gelados o sábado.
Com outro homem uma, outro com mulher outra.
É uma das (a)mores cedências do catolicismo ao liberalismo.
A nora da Rainha de Espanha com seu telejornalismo d’avant:
gordura de galinha perdoada a hortelã.
Suponho que este pudesse ser o teor da conversação entre
os dois do maduro casal
do poema 2,
que,
voz,
esquecestes.

4 (perante duas palavras)

Ao meu corpo terei ’inda de agradecer um
dia
a
vida
dele.
E que todas as três letras de
dia
caibam em
vida.

Duas Crónicas

A partir da semana passada, passei a escrever semanalmente duas crónicas. À série Rosário Breve d'O Ribatejo (www.oribatejo.pt) junta-se a colecção Contra os Canhões no Região de Leiria (www.regiaodeleiria.pt).

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Contra os Canhões - 2

Um Estrangeiro quase Feliz

Moro em Portugal desde que nasci, o que, naturalmente, não abona muito a meu favor. Sou mais um estrangeiro, portanto. Sim, é estrangeiro que me sinto. Manhã muito cedo, por exemplo, vou ao café do meu vizinho tomar a primeira chávena do dia. Como trabalho por conta própria, deixo-me estar. Ainda por cima, é permitido fumar. Porreiro. Então, ligam o televisor. É fatal: TVI. É fatal: o Goucha. Sou corrido por aquela portugalidade que me resulta inaceitável, intolerável, insustentável, incontornável. Cá fora, chove. Escolho outro sítio para escrever. Descobri um que, coisa rara, não tem televisão.
É o cemitério. Entro, escolho um jazigo com degraus, sossego o coração, trabalho. Ninguém me chateia. Estou ali na paz do Senhor. O vento dá nas árvores, as aves pontuam reticências pelo papel do céu, deixou de chover, uma farpa de sol fura o cartão das nuvens. Quando preciso de algum nome para uma personagem, dou uma volta pelo labirinto simples das sepulturas. O primeiro nome deste senhor aqui, o segundo daquele e os dois últimos desta tão saudosa e estremecida senhora. Como vou morar em Portugal até morrer, já ando, por assim dizer, entre eternas saudades. Pelo fim da tarde, concedo-me uma hora de faz-nenhum e descanso em paz. Dou pão aos pombos e aos pardais da praça, ouço o canto branco da fonte luminosa, vejo passar as mulheres dos outros, vou ao parque sentir os anjos que se fazem pedra quando são descobertos, desando pelas vielas húmidas, atravesso uma praça de chão de gravilha, leio os nomes das ruas, cheiro as bancadas de fruta que alegram as ruas de uma felicidade vegetal, cheiro o frango voador das churrasqueiras, aprecio o rosto cheio de dignidade dos cães, resisto à tentação de nunca mais parar, paro, tomo um doce num tasco geriátrico cujas paredes contam calendários de santos e posters do Sporting – e sou quase feliz, apesar de estrangeiro no, afinal, meu País.
******
Rosário Breve - 47

Ismos e ganas

A abrir, aviso que a figura de Jorge Coelho nem me é antipática por aí além. O que não suporto, é o jorgecoelhismo. A descarada promiscuidade (“não é ilegalidade”, salienta o Expresso) de ex-governantes com os maiores patos-bravos do betão envergonha-me como um agravo pessoal. Dá-me ganas de não ser português. Disse jorgecoelhismo como poderia dizer, e digo, o armandovarismo, o telmocorreísmo, o pauloportismo, o luísparreirismo. Dizer joséssocratismo é chover no molhado.
Se me viro para certa “literatura”, então as ganas esganam-me de todo. A Margarida do “Sei Lá”, o Miguel do “Equador”, o Santos do “Códice”: lixo, lixo, lixo. Se fecho o jornal e o livro, viro-me para a bola – e estou tramado. Os árbitros parecem-me morcões analfabetos feitos robertos-de-feira; os jogadores nem para matraquilhos de traseira de café. Os dirigentes, pior: esses al-capones de pacotilha desencabrestam-me mais as vísceras do que o mau hábito do mau bagaço.
Não é que eu vá ser espanhol: os Espanhóis não são burros, e trastes como eu têm eles lá muitos. Pensando bem, só me sobram os católicos “gays”, as protestantes lésbicas e aquele gajo da Madeira, o Coiso. Estes, ao menos, divertem-me, entre breves de marido-mata-a-mulher-e-a-sogra-e-foge-de-fiat-ritmo-para-Alcanena-ou-por-aí.
Isso e um livro autografado pela insigne Carolina Salgado, com uma tacinha de espumante de Anadia ou, vá lá, um bagacito do piorzinho, a fechar.

09/04/2008

Uma belíssima foto de Tiago Laborim


A noite além Besteiros vista do Caramulo. Fotografia do meu amigo Tiago Laborim.
Clicando na foto, percebereis melhor a força dela.

Notícia

Tenho andado fora do Canil (e da graça de Deus) por causa da urgência de terminar um romance que desde Novembro de 2006 não me deixava viver. Entreguei-o hoje, finalmente, à editora. Breve vos darei mais conta e recado disto.

05/04/2008

A Caminho


Foto: © Sandra Bernardo, noite de 29 de Março de 2008
Textos: Viseu, manhã de sábado, 5 de Abril de 2008



Prefiro, de longe, a verdade da poesia dita à dita poesia da verdade, sejam uma e outra o que forem. Talvez não passe de mais um trocadilho idiota dos meus. De qualquer modo (ou de um modo qualquer), o dito na prosa nº 1 é verdade biográfica. Sim, seja verdade biográfica o que for ou tiver sido.


1

De quinta para sexta, fiz a pé os 42 quilómetros entre o Caramulo e Viseu.
Durou-me a noite toda e parte da manhã.
Chegado a casa, parecia um aleijadinho, desses de pedir e não receber.
Aproveitei a metáfora fácil, porém: uma estrada na noite, um caminhar sem outro limite que o da amplitude das passadas: a vida.

2

Esta noite, o caminho foi um sonho breve e intenso como um clarão de magnésio.
Era na área ferroviária de uma cidade desconhecida.
As casas cegavam de brancas.
O sol explodia de cal nos olhos.
Tinham-me dito que só pela noite teria comboio de saída. E avisaram-me:

– O senhor vai ter de sobreviver por aqui o dia todo.

E eu percebi que assim seria todos os outros dias – se eles, como o comboio, chegassem a chegar.

3

Enquanto esperava o comboio (guardo o número da hora improvável: 20.25), alonguei-me pelo litoral de ferro da gare.
Sentia a sangria de um rio que não podia ver, algures para a banda d’além.
Havia gente como eu: andavam ao longo, também.
Uns eram vivos, outros eram mortos.
Era gente como eu, que também ando ao longo, também vivo e morro também.

04/04/2008

A Vida ainda Assim - crónica nº 46 de Rosário Breve

Como sempre, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt).
*******


Qualquer um de nós que olhe, com olhos de ver, para o apuro do confronto entre o que à vida se dá e o que ela nos devolve, só pode, digo eu, achar que o resultado é mais laxante do que relaxante. Nenhum frémito íntimo, sequer religioso, concorrerá para nos fornir de um anjo-da-guarda à beira das valetas em que se volveram as ruas e os passadiços do nosso trânsito existencial. Sim, às vezes a vida é como as cercanias do Miradouro da Rafoa.
Três operários, de idades entre (apenas) os 32 e os 34 anos, perdem a vida na A41 quando instalavam railes de segurança: velocidade excessiva do condutor despistado é a causa provável.
Redução cosmética no IVA: um por cento na caixa peitoral do ceguinho cauteleiro.
Api(n)to Dourado em força nas manchetes do dia primeiro de Abril: pois pudera.
Os sagrados matrimónios da lusosfera desquitados com facas e caçadeiras: o desamor à portuguesa é de teor venatório.
Sarkozy & Bruni: patatá-patati.
O madeirense Cristiano Ronaldo faz de Manchester, e da própria vida, um jardim: e não consta que frequente as Novas Oportunidades.
E Manuela Moura Guedes volta ao ecrã da nossa BBC, a TVI, no dia 9 de Maio: mas não consta que os Monty Python façam o mesmo.
Vale que a vida, ainda assim, nos trouxe de volta a primavera e o sol. Nos jardins, os velhos parecem menos vulneráveis à sarna da melancolia e à necrose da memória. Pelas ruas, as crianças estralejam como foguetes de passarinhos. À passagem, as mulheres partilham com a luz o leite carnal dos seus braços nus.
E eu juraria ter acabado de sentir, nas minhas costas, o levíssimo frémito das asas de um anjo-da-guarda.

03/04/2008

Quatro Prosas para Vós, para Putas e para um Gato

Viseu, tardinha de 2 de Abril de 2008

1

Há muitos anos que não via um gato comer pão.
Vi agora.
Vindo de junto à Sé, desci a Rua Dr. Maximiano de Aragão à procura de pombas a quem dar do que me sobrara em casa.
Encontrei-as onde a Aragão esquina com a de Serpa Pinto.
Há ali uma igreja cancelada, que nestes tempos até Deus se vê laqueado a cimento.
Para lá da cerca de ferro, um adro mínimo pareceu-me bom sítio para atirar o pão.
Elas interessaram-se pela equívoca rainha-santa masculina que às vezes sou, faltando-me as rosas.
Não desceram a comer a oferenda porque, de repente, do nada, um gatito famélico apareceu a dar conta do recado.
Escolheu os bocados mais sólidos e pôs-se a comer.
Notei-lhe a harpa das costelas gradeando de sob o casaquito sujo de cor brancamarela.
Fixei o sítio, amanhã trarei vitualhas mais orgânicas, assim ele por lá (de)more.
Desandei.
Desci a Serpa Pinto até meio, cortei à esquerda, atirei fora a ponta do cigarro.
Então, subindo para mim, um rapazito de menos de quinze anos pediu-me, com humílima timidez, tabaco.
Menti-lhe que não tinha.
Mas deveria ter-lhe oferecido do pão que me sobrou no saco, o saco que, por toda a cidade, trago e levo em busca de pombas, faltando-me as rosas.

2

À tardinha, gosto de ir ver o regresso das putas pobres aos cafés pobres da zona de S. Mateus.
Vêm beber qualquer coisa antes de jantar qualquer coisa nos quartos.
Trazem sempre um saquito de compras mínimas, a que nunca falta o adereço de um cereal, um chocolate, um iogurte – qualquer mimo para o filho de anterior-1001-relação.
À noite, voltam a ser agressivas, frágeis, rápidas, ríspidas.
Mas pela tardinha, no intervalo das imitações mecânicas de um amor que nossos pais usaram para que fôssemos, elas são o mais vivo retrato da candura e da formiga que se permite um pequeno luxo de cegarrega-mãe.

3

E então, entre gatos e putas, encosto o cadáver portátil da minha vida a um canto de café.
Espero uma hora que venham buscar-me para o trabalho da noite.
É um trabalho de palavras, o meu, ofício ideal para fazer, eu também, de puta e de gato.

4

Nada trago de novo ao que é e debaixo do sol está, mas é ao sol
o meu lugar, como à chuva será quando e quanto chover
o que Deus – ou o Diabo por ele – der.
Não lamentarei nem os versos achados nem os passos perdidos,
que generosa me tem sido, quem no diria,
a grande vida para além das pequenas mortes de cada dia.
Da madurez a lentidão é para descobrir de repente,
que a gente de uma pessoa a si basta como gente.
Basta uma praça ao sol, uma fonte pulsando o império da água,
um restolho de pardais vivos como folhas ao vento.
Nada trago de novo e nada lamento.

02/04/2008

Postais da Cidade de Viseu nos Dias Último de Março e Segundo de Abril

I. Comoção perante o Independente Animal
Viseu, tarde de 31 de Março de 2008

Uma pomba cinzela na praça
seus ademanes de soldadinho-de-chumbo
caçador do esmoler pão
à rua caído como granizo de trigo.
Que bonito é seu peito de madame
(desejada seja ela por pombo que a ame!)
Que vermelhas mãos tocam por ela o chão
do município antigo, frente à fronte da fonte!

Muito me comove todo o independente animal
que viceja gerações ao mesmo em Portugal.

Estas pombas estes cães estes gatos
e estes absolutamente nacionais
morenos castanhos ladinos pardais.

Sim
que palavras procuro me brotem
quais animais de praça municipal.
O pão delas procuro eu também
a boca no chão.

Que palavra de pomba de município me redevolva princípio.

O trigo a areia o nome do mundo:
tudo pelo chão da boca reflector o céu
na pendureza dos olhos.

A tradição literária
o escândalo da economia
uma tarde morna uma manhã fria
– e um jeito de adoçar a distância com a boca
onde a Língua.

Acinza-se o crepúsculo desta segunda-feira
tenho mais que fazer recebi telefonemas
mas penso que a pomba de chumbo ligeira
me aceitaria migalhas e poemas
a gaiteira.





II. Um Dia Terei Sido
Viseu, tarde de 31 de Março de 2008

Um dia terei sido menino na velhice
rosas terei consumido amigo rui amiga alice
e dos meus passos pelo litoral
não restará pègada sequer mas não faz mal.

Um homem é dois homens
se contarmos com a sombra
três se com a luz.
Acredito nada em Deus
um pouco talvez em Jesus.

Terei tanto convosco sido parecido
contando trocos ao balcão da mercearia
pedindo à prata da lua o ouro do dia
amando como vós o que parimos
filhos palavras atitudes e até postais.

Um sábado pela manhã terei sido feliz.
Era um sábado eu era velho eu era petiz.




III. Postais da Cidade de Viseu
Viseu, manhã de 2 de Abril de 2008

1

As mãos dentro de água abafamos o grito
que nos curva o corpo para o tanque não o grito
de hoje mas o grito recordado o grito
que somos por dentro perante o que for água
o que for de risco de afogamento das mãos.

2

Se esta é ora a nossa cidade
quiçá a última de quantas houvemos a perder
nossos são os loucos dela
e seus pardais jornais e cor amarela.

Não sabe ninguém quanto nos pergunta
quando resposta espera de onde somos ora
como se o que somos fosse em que estamos.
Sê-lo-á talvez no futuro
não agora.

3

Ai as crianças que em nós se tornaram velhas
e de sacos coxeiam pela cidade
como rombas pombas ao lixo do capitalismo
apeados plúmbeos anjos do catolicismo
ai as crianças que de nós.

4

É decerto mansa a nossa loucura
cidadãos somos uns contra os outros
dois militares vestidos de azeitona
da paz porém o pousio não dispensa o atavio
três raparigas seis coxas de ganga
as faixas das três barrigas ao sol
a chaminé de uma fábrica que já não há nem é
o largo onde em setembro a feira cheira a novembro
um profeta de varapau e barbas emaranhadas
como uma silveira de báculo
o rio que nos amplia a água dos olhos
de quantos postais forramos o coração
é decerto louca a nossa mansidão.
******
Fotos: Viseu (Casa da Cera, à Rua Direita, e Largo do Pintor Gata - manhã de 2 de Abril de 2008)

Fala-vos um Homem de Posses

Viseu e Viseu-Caramulo, manhã e tarde de 1 de Abril de 2008

I

Tenho duas mãos duas máquinas
de armar o dia ordenhar a noite
duas aranhas operárias duas abelhas cantoras
duas máquinas portuguesas de dar de comer
aos pombos aos cães aos sonhos às esquinas
duas coisas por assim dizer duas meninas.

II

Tenho pouco mais do que este olhar castanho
perante tanto azul tanto verde tanto branco
o céu as árvores as praças onde cantam as fontes
onde as fontes manam florões de água cantora
tenho pouco mais ser do que este homem
no meu corpo na minha roupa
pelas ruas da cidade das igrejas
ruas onde nunca passou Cristo
mais que Ele tenho eu ainda assim
isto.

III

Tenho necessidade de olhar com as mãos
o mundo que me sobrou do amor feito
por um homem e uma mulher
noutro século noutra casa noutro mundo
e a única coisa que peço às mãos é
que olhem fundo.

IV

Tenho do envelhecimento a segunda infância
cresci já tudo resta-me descer ao pátio da primeira
a colher do pessegueiro o terno fruto tenro
decerto que o comendo terei a sensação
de à boca me ter subido um coração.

V

Tenho dos teus ombros a imagem do candelabro
à espera desçam aves que venham ser velas
na minha noite espalhada por toda a casa
ambas as mãos te chego além deles além delas
e sinto a comoção tremer-te em cada asa.


01/04/2008

Documentário sobre um gigante chamado Julio Cortázar


http://bibliotecaignoria.blogspot.com/search/label/Cort%C3%A1zar%20Julio

Filme de Eduardo Montes-Bradley Cortázar: Apuntes para un documental (Argentina, 2002).

Poemas que aborrecem o artista uruguaio Miguel Ruibal

de http://miguelruibal.blogspot.com/


LOS POEMAS ACTUALES QUE ME GENERAN REPAROS:

Los poemas plañideros que siguen usando el recurso de dirigirse a un "tu".
Los poemas poéticos.
Los poemas emotivos cuando no deben.
Los poemas que no emocionan cuando deben.
Los poemas afectivos sin pudor.
Los poemas pudorosos sin afecto.
Los poemas recostados en la adjetivación.
Los poemas que dejan ver el esfuerzo del que los escribe.
Los poemas pasibles de ser recitados, o que delatan la voluntad recitativa de su autor.
Los poemas que hablan directamente de su objeto.
Los poemas escritos con expectativas.
Los poemas cuyas entrelíneas no dicen nada.
Los poemas que no respiran.
Los poemas que no producen misterio alguno.
Los poemas escritos desde la cultura general.
Los poemas que luego de un hallazgo, decaen sin remedio.
Los poemas tediosos.
Los poemas pretenciosos.
Los poemas afanosamente cálidos.
Los poemas deliberadamente fríos.
Los poemas obvios.
Los poemas innecesarios.
Los poemas superabundantes.
Los poemas de las personas normales que quieren dejar de serlo.
Los poemas de las personas aburridas que quieren dejar de estarlo.
Los poemas de los que no toman riesgos.
Los poemas de los que no entienden que es tomar riesgos.
Los poemas escritos para agradar.
Los poemas escritos para impresionar.
Los poemas que no deliran en el momento justo.
Los poemas de los que no son poetas, y no lo saben.

Canzoada Assaltante