Tuesday, May 14, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 1 a 5


BAILE SOZINHO
ou
O INVERNO DE QUELUZ





Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior – a memória mortal.

HERBERTO HELDER, in Doenças de Pele (apud OS PASSOS EM VOLTA)


De 30 de Abril de 2013, terça-feira,
a 14 de Maio de 2013, terça-feira


1

Leiria, noite de 30 de Abril de 2013, terça-feira

Em invernia antiga, uma vez em aldeia
de que não guardo o nome, chovia
debilmente través a pouca luz
pública, a noite vinha armadurada
de veludos frígidos, cheirava das casas
a caldo e a cães e a mato.

Dormiam já os animais maiores,
já os humanos seniores dormitavam
sentados à face do brasido, eu não
tinha aonde entrar, esperava que me
viessem buscar, tinha tocado no
conjunto que deu baile, tudo acabara.

Muitos eram os quilómetros a cumprir
no regresso a Coimbra, músicos éramos
quatro mais a noiva do baterista,
que era bonita e estudava então
para enfermeira ou professora, não
guardo bem o que me não pertence.

Fomos desenrolando a fita preta
da estrada, não havia então icês
nem tanta auto’strada, eram beirãs
as curvas apinhadas de pinheiros,
não nos largou a plúvia até ao Café
do Silva, onde libávamos o fim do contrato.

2

Ibidem

Levantava-me cedo ao outro dia,
que não sei já qual, refeita a manhã.
Se no sincelo atentava, gostava daquele
vidro ge(r)ado sobre a flora simples
da Cidade: planava sobre essa arte do
cristal chamada Frio.

Tinha algum dinheiro no bolso quando
o cantor pagava, era ele quem tratava
do metal não assim tão vil, naquele
tempo em que comer uma sandes e
beber café-com-leite sabia à música
que se tinha tocado num salão recreativo.

Retomo uma dessas manhãs de invernias
nessa Coimbra desses acabados dias:
saía muito cedo da cama, muito cedo
do quarto arrendado ali perto de S. José,
nada longe do Liceu onde me preparei –
para ser só isto.

Outro trabalho não tinha nem procurava.
Dava pontualmente explicações de francês
a meninos capciosos que queriam era
ser músicos como na televisão viam eles
que havia, e tantos. Mas trabalho-
-trabalho, não tinha nem demandava.

3

Leiria, manhã de 1 de Maio de 2013, quarta-feira

Com discrição era que devagar olhava
os silfos aéreos terrenamente ditos
Mulheres, vaporosos génios de que Coimbra
é tão profusa, tão fornida.
Ubiquista quase fui e decerto me senti,
sem magia e sem anátema.

Foi de certo modo um tempo perfeito.
Havendo por certa a morte, a vida
parece uma prenda fora do aniversário.
Outras vezes, todavia, cruzando pela
ponte diagonal do Calhabé para o Norton,
o absurdo ganhava transporte por meus pés.

Quando fui músico para comer, comia
também das muitas laranjeiras que havia
por aqueles pátios ferrugentos onde
casotas desertas chamavam em vão
por cães antigos e donos que já não
eram, viúva marquesinha, viúvo conde.

Cheguei, claro, a falar sozinho, praças
e ruas por meu auditório o mais
surdo. Chegado o Natal, tremiam
as gambiarras em os pinheirinhos
de plástico para os matrimónios sintéticos
& suas crias de celofane.

4

Ib.

Transido transito ’inda, em pleno Estio mesmo, pelo trânsito
de imagens desse tempo músico. Ensaiávamos num anexo
de ferramentas que pertencia aos pais do pianista,
era perto daquela via de S. João que leva
à Portela, à Lousã, a Espanha, ao Mediterrâneo.
A mim nunca me levou, valha a verdade.

Penso que o António Nobre por ali refrescou
ante uma criança a gentileza de papoila
(vermelho tossido de héctico, fatal cor).
Sá de Miranda, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro,
Camões até, podem (devem) ter sabido
onde ensaiávamos, perto o Mondego claro.

O cantor e eu íamos depois aos bilhares,
o guitarrista era já casado então,
o baterista morava mais longe e não podia,
o último comboio levava-o para os campos de arroz
que as cegonhas regiam como fadas vorazes,
dessa voracidade lenta de que o amor é feito.

E se hoje isto recordo e assento em letra de canção,
é por hábito imorredouro, eu fazia a segunda-voz,
tom e meio acima da linha do vocalista,
ficava bem, as pessoas gostavam, pelo menos dançavam.
Íamos aos bilhares, conhecíamos raparigas,
algumas por vezes ficavam, por festa.

5

Leiria, tarde de 8 de Maio de 2013, quarta-feira

Muitos anos são volvidos já desse (m)eu-corpo,
ainda canto mas em surdina só, e cambaleada,
por ruas & praças de cidades acumuladas,
outras de si mesmas, como mesmas e outras são
as jornadas em salmoura de literatura,
nem outra coisa me surge que isto de escre’viver.

Procuro talvez tão-só a serenidade, não importa
que mais do que ela cinzas coleccione, pouco
é deveras o que ainda importa, uma saúde
razoável, moedas para cigarros e refrigerantes,
algum trabalho de vez em quando que eu possa,
saiba e queira fazer, sim, pouco importa.

Gostaria ainda, claro que sim, de ser olhado pelo mar
no Inverno, quando os penhascos se apalaçam
à monarquia de gaivotas & albatrozes, caiado
de sal e juncado de naufrágios equivalentes
aos despojos das vidas, quais vidas?, todas elas.
(Ou quase todas elas, há casos que felizmente não.)

Em poucas meias-dúzias de anos, os leitores
chegarão à foz do espelho terminal no Inverno
de Portugal, país que a infância soube perder
por todos os lados menos pela Língua, os leitores
terão frio, não será já amanhã nenhum,
entretanto penso no Baile que toco sozinho.

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