Sunday, February 26, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 19 (integral)




19. MERCEARIAS, MERCADORIAS E EXTRAS

Leiria, segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

I

Numa álea de ulmeiros, que como podem à álea abrigam do cutileiro vento, pelo entardenoitecer respiro o rio que é, passa, não passa e volta a ser.
Não diabolizo a Vida, que, tal cão e mulher, me pertence enquanto dela (e dele) eu for – e passe, e não passe, e volte a ser: até que não seja ále’alguém.

II

Mercearias e outras mercadorias constam também dos sonhos que as pessoas, ao gás das noites, entretecem. Os bebés mijam-se e tentam falar, os directores de serviços compram cêdês dos Queen às amantes do gin-vermute pós-reunião, as reformas acrílicas protesiam dominós de jardim público, pássaros pousam nos sacos das merceacadorias mais recorrentes, acho-que-a-menina-está-a-chorar-vai-lá-tu-hoje-que-me-sabe-o-fel-a-cinzano-hoje.

III

O Número Dezanove está deitado de barriga no chão, não é fácil andar nas obras à chuva, tanto nas que são líricas como nas que são betoneiras.
O Número Vinte-Dois veio de terras vermelhas que outros sóis alumiam sem brandura nem previdência social, mas ao menos está de pé.
As Bidonvilles do nosso tempo são más traduções do hip-hop alegadamente afro-cigano. O nosso tempo é uma merda tão inumerável (19, 22 etc.) quão enumerável.
Tenho muita pena do nosso tempo.

IV

A Vida, isto é tudo uma passagem
– ouço sempre dizer em cada enterro.
É capaz.

V

Coisas com que absoluta maravilha absurda venho escorando a minha vida: versos; jantar com a minha mulher (ou antigamente com o meu cão, quando solteiros ambos) através de frases que trocam os episódios do dia uno que em separado acabamos de viver; um irmão que tive e já morreu e que continua a sorrir numa fotografia que depus ao lado do boião de faiança em que guardo trocos para se houver falta de tabaco; enquanto não acabamos de viver, nem de vir, nem de ver.

VI

Os artistas saem pelos fundos e mundos da manhã, reconhecendo em cada manhã a promessa não cumprida (não a ida, não ainda) da vida, que é aliás, e a lilás, linda.

VII

Tenho um amigo que adoeceu sem nos pedir licença. Há festivais de teatro que os municípios aproveitam para inculcar sardinha assada. Na infância tive um prato azul de plástico duro a que chamavam domplex. Há um tipo de lagarta que para subir um pinheiro se faz til. Quando o mar cheira a chuva é porque o peixe-voador voou. Tenho um amigo que adoeceu antes de nós. Se uma senhora envelhecida nos surge em sonho toda de lingerie, nós rapazes somos o Pai, atenção. A maravilha de quando faz muito sol é, mesmo assim, um gajo ser capaz de molhar o mundo só com os olhos. Esse meu amigo entretém as noites como nós: fatalmente, portanto. De bandas das docas, a salsugem é bravia como no tempo da II Guerra Mundial, que foi quando os meus Pais se casaram para isto, isto que escreve.

VIII

Tenho há mais de trinta anos um livros sobre os povos antigos da Anatólia que ainda não li nem sei onde fica, se na Turquia, se amanhã, que é outro dia.

IX

(Agora mais trint’anos é que duvido, Ana, não sejas Tól(i)a.)

X

Vim daquele lado onde assam frangos e costuram hemistíquios. Também cozem batatas, mas menos do que o quanto censuram cesuras. (Um homem de olhos completamente azuis e bigode preto por completo desconfia de eu tanto escrever no café onde ele descansa do dia dele, que foi completamente de afagar paredes a cimento húmido como um beijo dado-e-recolhido aos catorze anos.) venho desse lado húmido, afagado, cozido.

XI

Toco a verde acordado um papelito que sonhei.

XII

Entre a Poesia e a poesia, a coisa ou é gládio, ou canivete-suíço.

XIII

(Vincula-me à terra passada a sombra aromática,
que da meninice trai a clara solução.
Norma outra não tinha que a da gramática,
qu’ind’oje me é p’ra tudo solução.)

XIV

Dinis recebendo em Trancoso, de Aragão, Isabel.
Moluscos e bivalves às frias águas azuis borbulhando.
(Devo sempre a estas enumerações proceder para sempre, se é que estilo quero-man-ter.)
As janelas manuelinas e as correrias afonsinas.
A navalha, a azeitona, a lua, o homo-homem.
Os 75 anos da morte de Federico García Lorca e os 65 de nascimento de Freddie Mercury, diz o vermute-director à amante-gin, à excepção de Lorca, que não sabe.

XV

Arredei há muitos anos da minha porta o lixo não voluntario que a involuntária mocidade permitiu. Digo “lixo” pretendendo dizer “lixo”. Antigamente, havia umas pacotilhas de pó chamadas Tang que queriam ser sumo de laranja.

XVI

O Número Vinte-Três passa por nórdico – mas é do Sabugal e albino, apenas.

XVII

Conversa comigo na conservatória-do-registo-civil, que é onde as asneiras se assinam e as idem passadas se assassinam, vá, vem, anda, passa, não passes.

XVIII

Um corpo no mar faz de flor dura.
O pêndulo vibra torsos e torções.
O norte-magnético não ilude cães-esquimós.
A nós sim, a nós.

XIX

Nunca da nossa Língua parti de vez. O mais que não fiz, foi deixar de refazê-la. Mira, Graça, como Ela acode, líquida, a cada interstício significativo. Repara, Ana, em como Ela se faz filha sem concurso de parente pai ou aparente mãe. Observa, Lucília, a maneira com que ela insiste em fazer o 5.º-ano à noite no S. Tomás de Aquino. Olha, Mãe, como Ela ainda te fala
(e não se cala).
Não, nunca parti.
Mas por ti,
sim.

XX

O meu trabalho desta noite está quase feito. Talvez coma ainda uma sopa, ou refaça amor, ou veja um documentário na têvê-cabo, ou talvez isto tudo faça sem ser por esta ordem.
E depois, pendular, hei-de dormir com a velha outra vez, abrigada de ulmeiros como puder ela, o meu cão-rio aos pés dela, coitada, à sombra vinculada, álea e, Dinis, alada.

(EXTRA 1:)

Mansos toques do lado do coração físico
alertam o corredor de linhas quanto à insensatez
do Tempo, digo, a XIV Olimpíada (Londres, 1948),
a flacidez do ligamento suspensor da mama
(tanto a esquerda da Cardinale como a direita
do Stallone),
se eu sou um corredor de linhas?,
sim-sou,
a-ante-após-até,
a-ab-abs-coram-cum-de.
Os signos úricos do ácido nas articulações
chegam da renal escassez para purinas-soluções.
A Poesia é, por mal, bem outra coisa.
Uma pessoa faz que não liga aos sinais.
Eu costumo pôr a mão no equador do corpo,
o manso toque é pulmonar mas a gente
costuma não ligar nem à hipocondria
nem à poesia.
A Poesia é bem – por mal – coisa outra.
(Castanha, onde, flava, o mel s’insurge
etc.)

(EXTRA 2:)

Sobre o alegado “acordo” & “ortográfico” da alegada lusofonia, digo:

As irâmides do Egito.  

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