Saturday, February 25, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 16 (integral)



16. SOU AGORA COISA

Leiria, quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

I

E a íntima vigilância de, por um lado, os Livros, e de, por outro, os Gestos Olhados, me dará clareza que das Luzes vem. Pois que, lendo, irei sendo. E vendo, sendo mais.
Cometo transes que ao sortilégio da Atenção atribuo, mas por igual pode que também da Abstenção provenham: tal que dormindo.
Venerável, veneranda e venerada seja ainda a ávida vida a haver, qual, por breve, menos abrevia eternitardes qual esta de Leiria, dez mais oito dias a Gosto do Senhor, cujo ano passa onze de dois mil.
Assim por modos logro desagravar-me de mais fundas tristuras, à maneira das que ante o Mar se têm dele vendo vindo ao vento lento os Amados Mortos de Família & Amizades.
Feição sem perfeição como todas a minha é. Proveito aufiro de sabê-lo sem ressabiá-lo. Medíocres perversões não raro a conquistam e enquistam, sei-o bem, por mal meu. Mas nas Estalagens os televisores ardem, e funcionam as Máquinas de que se ordenha café, e as moças envelhecem elasticamente quitando a Beleza de aromados pós de âmbar macerado em malvasia, depende porém também do dia.
O problema está nas Moscas, cuja cola dérmica sobremaneira excita, por irritação, a bonomia de um escrivão como eu, que sou sem Pais mas com Filhas. Prática burburinhada eu labie em contra elas, foda-se-ando-as cada vez mesma que me ouriçam. E, podendo, esmagá-las de firmes palma e palmada.
Honra, Reverência, Paciência, Probidade, Munição, Premonição, Observatório & Observação: Qualidades eu possa ainda, embora minhas não, ir mancheando de aberta mão, que escreve, mais de mão fechada, que ao manuscrito segura.
Assim seja – e agora, ó Rosa!, uma cerveja.

II

Uma quinta-feira
de luz tão formosa
que viva se goza
viva e inteira.

Passa o mês a ano
e o ano acalma
na maré da alma
do temp’oceano.

Ilha mais vetusta
a do coração
a quem bem mais custa
olho do que mão

e palavra armada
e bélico modo
angélico todo
da fereza usada.

Arcanjos nos valham
na cidade feroz
somos barcos nós
que em voz s’encalham.

Diga, senhor Martins,
que coisa há-de ser
certa no viver
que certo é o morrer.

Álamo e salgueiro
faia e pinheiro
vento sobranceiro
rama os faz viver.

Uma quinta-feira
etc.

III

Sou agora coisa de dois meses mais velho
do que o meu Pai no dia em que nasci
por dele obra e graça da minha Mãe.
Disto,
nem húmida vaidade
nem vã humildade:
uma pessoa nasce, morre-lhe quem a/se ama,
depois
etc.
Sou agora coisa. 

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