31/03/2009

Isaac Levitan, pintor (1860-1900)

Isaac Levitan
By the Deep Waters
1892, Oil on Canvas

29/03/2009

Velas - de Kaváfis


Souto, Casa, manhã de 29 de Março de 2009


A fotografia é de Sandra Bernardo e foi conseguida em Viseu, no Teatro Viriato, a 3 de Setembro de 2008. O poema não é meu, pois pudera! É de Konstantínos Pétrou Kaváfis (n. e f. em Alexandria,1863-1933), um senhor cuja grafia onomástica varia de língua para língua, muitíssimo bem apresentado por uma senhora chamada Blanca Gago (v. texto depois do poema). Como não sei grego (nem antigo nem moderno) e por não dispor de tradução portuguesa, atrevi-me a traduzir do inglês estas


Velas
*
Os dias futuros, temo-los em frente
qual galeria de pequenas velas acesas,
douradas, tépidas, vivas pequenas velas.
*
Os passados dias ficam-nos antes,
velas em lutuosa linha extinta;
fumegam ’inda as mais recentes,
frias, derretidas velas, e inclinadas.

Não quero olhá-las; entristece-me como parecem,
como me entristece evocar delas a luz primeira.
Em frente olho e as minhas velas acendo.
*
Não quero olhar para o antes, tal que me estremeça
ver quão velozmente se alonga a escura linha,
quão velozmente se multiplicam as velas extintas.
*

Candles


The days of our future stand in front of us
like a row of little lit candles –
golden, warm, and lively little candles.
*
The days past remain behind us,
a mournful line of extinguished candles;
the ones nearest are still smoking,
cold candles, melted, and bent.
*
I do not want to look at them;
their form saddens me,
and it saddens me to recall their first light.
*
I look ahead at my lit candles.
I do not want to turn back, lest I see and shudder
at how fast the dark line lengthens,
at how fast the extinguished candles multiply.
*
Constantine P. Cavafy (1899)

*******************************
Blanca Gago
*
Constandinos P. Cavafis
*
in
http://www.espacioluke.com/2002/Marzo2002/perfiles.html
La obra de este poeta, nacido en Alejandría en 1863 y muerto en la misma ciudad en 1933, se compone únicamente de ciento cincuenta y cuatro poemas revisados y pulidos hasta la perfección, lo cual da una idea de su concepción de la Poesía: Señora altísima, objeto sagrado de culto, muy semejante a la midons de los trovadores medievales. Cavafis es por ello y por otros motivos un poeta excepcional: máximo representante de la literatura griega contemporánea, educado a la inglesa, influido por el simbolismo y el parnasianismo franceses, habitante de una Alejandría tradicionalmente multicultural, multirracial y moderna, admirador y estudioso de la Grecia helenística...todo eso lo convierte en un autor original ya sólo por su contexto.
Europa Occidental suele mirar con indulgente simpatía a las literaturas orientales, como si éstas pudieran ofrecer únicamente un cierto toque de exotismo en los momentos de monotonía creativa. La obra de Cavafis es una de las pocas que trascendió en seguida la difícil barrera literaria entre Oriente y Occidente, quizá porque presenta múltiples puntos de encuentro entre ambos mundos, quizá por el oportuno acierto de algunas traducciones, quizá por la universalidad que se reconoce en cada poema.
Los mejores textos de Cavafis fueron escritos en su madurez, a esa edad en que algunas personas adquieren una cierta intuición vital que les permite estar en el mundo como si ya lo hubieran visto todo. Sus poemas no contienen ni un desgarro, ni un grito, sino que contemplan la existencia desde una distancia grave e inteligente, solemne e irónica a la vez, como contempla el mar un hombre que ha pasado navegando toda su vida. Por los poemas del autor alejandrino desfilan efebos ingenuos y deseables, personajes históricos, gentes anónimas...y objetos, objetos cotidianos que siempre tienen un significado hondo y preciso (los cirios apagados son los días consumidos; los cirios encendidos son los días que nos quedan por vivir). Uno de los mayores logros de su poesía es el acercamiento de los personajes y hechos históricos al lector moderno, normalmente poco versado en lecturas clásicas. Mediante la técnica de la máscara, o usurpación de la personalidad, la voz del yo-poeta se apropia del alma de Marco Antonio –y su pensamiento al dejar Alejandría, en El Dios abandona a Antonio-, la temeridad de Julio César, el miedo de Cesarión, las emociones de los dioses del Olimpo...y nos presenta a todos ellos como seres perfectamente humanos. La re-creación constituida a base de elementos irreales es lo que los hace reales.
Y así, Cavafis muestra que la historia, como creían los griegos, tiene algo de cíclica, porque los Senadores de hace veinte siglos hacían gala de una ambición parecida a la de hoy en día. Y la nostalgia del pasado, el miedo a lo desconocido, la debilidad que nos acecha en los peores momentos, la atracción sexual ligada muchas veces al sentimiento de culpa, la impotencia ante el paso del tiempo...todo eso, que es inherente a la condición humana y no cambia nunca, lo supo expresar Cavafis maravillosamente en cada uno de los ciento cincuenta y cuatro poemas que componen su obra. Una obra de lectura exigente ( no olvidemos que la Poesía es la Señora a la que debemos rendir culto ) pero agradecida, que huye de la identificación fácil para adentrarse en la esencia de la experiencia humana. Salir ileso del viaje es ya cosa de cada cual.


28/03/2009

Pomba - um texto antigo com foto recente




Diana voa Meyerbeer

Sei muito bem Quem e Onde

© Arno Rafael Minkkinen




Souto, Casa, manhã de 28 de Março de 2009


Quem na minha infância foi infante
onde está e quem é
agora que a infância não é nem pode haver?

Vendedores, compradores, gordos, encanecidos,
fatigadas, esmaecidas, peixeiras, advogadas:
por que ruas evanescem as meninas e os meninos
que noutras meninas e meninos em vão tentaram
repetir-se?

LIDO CO’ LÁPIS – 2 - Camões Lírico segundo Agostinho de Campos (II Parte)


II Parte



Souto, Casa, 5 e 6 de Dezembro de 2008,
28 de Março de 2009





Parece que também houve ingleses rendidos a Camões.
Byron conhecia-o, admirava-o e oferecia-o.
Wordsworth citou-o de dignidade a par de Dante, Petrarca e Tasso, quando, defendendo de críticos o soneto como forma poética, invocou Shakespeare, Spenser e Milton.
A poeta Elizabeth Barrett-Browning terá tido em Camões nada menos do que um modelo. Isso se aprende (é uma passagem curiosa) na referência que Agostinho de Campos faz a comunicações feitas circa 1918 por um sócio da Academia das Ciências de Lisboa, o “polígrafo general” Fernandes Costa. Este sócio institui que Elizabeth

“num volume de versos, publicado em 1844, menos de dois anos antes do seu casamento, inseria uma admirável e lindíssima poesia, que intitulou: Catarina to Camões: dying in his absence abroad, and referring to the põem in which he recorded the sweetness of her eyes”.

A citação seguinte é mais longa porque Agostinho de Campos recolhe uma pérola da exegese do conferencista Fernandes Costa. Esta pérola:

“Isto diz Fernandes Costa depois de haver mostrado que aos quarenta e quatro sonetos amorosos de Isabel Browning, intitulados Sonnets from the Portuguese, foi pela poetisa dado êste nome, porque êles se inspiravam no seu amor ao poeta Roberto Browning, com quem mais casou; e ela, por delicadeza compreensível a todos que bem conheçam qual era a sensibilidade dos dois, simulou que os havia trasladado de uma literatura estranha, a portuguesa.”

Neste ponto, que encerra a página XVI da Introdução, Campos cede caneta e tinta ao polígrafo académico da Academia das Ciências de Lisboa:

“É para nós, portanto, mais do que intuitivo (conclui Fernandes Costa); chega quási a ser uma opinião fundamentada, que o conhecimento que Elizabeth Browning possuía de Camões, como poeta lírico e como sonetista amoroso, não foi estranho à sua deliberação de encobrir, com um véu de delicada reserva feminina, as cruas e exaltadas declarações amantes dos seus sonetos, atribuindo supostamente estes a uma literatura, já pelos outros enriquecida.”

(A CONTINUAR)

27/03/2009

Rosário Breve nº 96 in O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Nem dívidas nem dúvidas

Não tenho qualquer dívida para com Angola, Brasil, Cabo Verde, Damão, Diu, Goa, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor. Nem histórica, nem moral, nem ética, nem económica, nem linguística, nem cultural, nem nada. Nada e nadinha.
Viseu e um pouco mais a norte; Pombal e um pouco mais a sul – eis o meu quintal. A exclusão abrange, natural e irreversivelmente, o ultramontano Vaticano, o Teerão zuca, a mistificação multinacional Cova da Iria/Lourdes /Vale dos Caídos, a seca de Meca, o Estrasburgo mafioso, a Bruxelas pseudo-regional, Paris (Hilton), a Baixa da Banheira não sei porquê e o Bairro Alto também cá por coisas.
A vida é pouca coisa, mas é o tudo a que temos direito. É um fragmento de século, um caco de décadas. Não vale a pena estragá-la com falsas totalizações de aldeia dita global. A vida é a Linha do Tua, não é a mentira do TGV.
“Orgulhosamente só”? Não. Mas o que me interessa, senhores, senhoras, é a minha terra nossa. A terra e o sal de que é feita: o trabalhador explorado, roubado, vilipendiado e despedido; o aluno adiado, desinstruído, mecanografado e esquecido; o doente acarneirado, procrastinado, xaropado e falecido; o queixoso julgado, ignorado, condenado e detido. A minha terra e o sal da minha terra: trabalho, educação, saúde e justiça.
Porque só nos deveria interessar deveras o que, precisamente, não temos. A desclassificada política que nos desgoverna, o decadente “jornalismo” freteiro, a massiva pimbalhada rádio-televisiva – isto é que é a nossa SIDA, o nosso preservativo, a nossa fé armilar.
O resto? O resto é colonialismo do avesso.
Não, não tenho dívidas. Não tenham dúvidas.

Ilya Repin, pintor


Retrato do compositor Modest Mussorgsky (Ilya Repin, 1881)

26/03/2009

LIDO CO’ LÁPIS – 2 - Camões Lírico segundo Agostinho de Campos (I Parte)





Camões Lírico segundo Agostinho de Campos (I Parte)

Souto, Casa, 5 e 6 de Dezembro de 2008,
26 de Março de 2009





“Poderá admitir-se o conceito de Benedetto Croce:
‘O poeta não é outra coisa senão a sua poesia’?
Sim, quando for fácil entre o poeta e o homem, e entre a poesia e a vida, uma nítida, inconfundível separação. Assim está próximo de suceder, quando o poeta se não contenta de fazer da sua poesia uma rítmica repercussão oral das palpitações do coração
o vil músculo nocivo à arte,
como o considerava Carducci –
ou desdobramento, em palavras e frases, das interjeições de dor e alegria, entusiasmo e depressão; quero dizer, quando o poeta se empenhe em comunicar imagens criadas em puro estado poético, ou seja em tensão vital que lhe anormaliza a existência quotidiana, no anseio de a superar em beleza, profundidade e altura. Em tal estado, não pode ser espontânea e natural a comunicação, nem o que se comunica é da pobre existência de que se tentou a evasão.

Hernâni Cidade,
in Camões,
2ªedição, Círculo de Leitores, Agosto de 1980




Agostinho de Campos (1870-1944) assinou em Lisboa, a 3 de Março de 1923, a Introdução que abre o primeiro dos cinco volumes de Camões Lírico, cuja organização lhe pertenceu sob a égide da Aillaud & Bertrand. Os tomos camonianos integravam um plano editorial globalmente denominado Antologia Portuguesa, que compreendia e pretendia divulgar popularmente autores como Fernão Lopes, João de Barros, Manoel Bernardes, Frei Luís de Sousa, João de Lucena, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, Eça de Queiroz, Augusto Gil, Antero de Figueiredo e Afonso Lopes Vieira, entre outros paladinos da linguagem portuguesa.

À data da edição que possuo (a segunda, de 1925), a dita Antologia Portuguesa compreendia já 23 volumes publicados. O projecto mereceu da Secretaria Geral do Ministério da Instrução Pública uma nota de louvor publicada no Diário do Governo, II Série, nº 98, de 28 de Abril de 1920. Reza assim o registo oficial:


Considerando que à excepção dalgumas raras jóias do património literário nacional, se não conhecem geralmente as obras primas da literatura portuguesa, muitas delas de difícil aquisição pela antiguidade ou raridade das suas edições;
Atendendo a que a
Antologia Portuguesa, organizada pelo escritor Agostinho de Campos e publicada pela Livraria Aillaud, procura obviar àqueles inconvenientes, oferecendo ao público uma colecção onde fique arquivada a produção literária de muitos dos bons prosadores e poetas nacionais de todos os tempos e escolas:
Atendendo ainda a que a forma material como a
Antologia Portuguesa é apresentada, a torna verdadeiramente agradável e atraente e, por-tanto, de fácil vulgarização e largo proveito educativo;
Manda o Govêrno da República Portuguesa, pelo Ministro da Instrução Pública, que seja louvada a Livraria Aillaud pelo seu patriótico empreendimento, em vista dos altos benefícios que essa casa editora vai prestar à divulgação das preciosidades da literatura nacional, com a publicação da
Antologia Portuguesa.
Paços do Govêrno da República, 24 de Abril de 1920.
O Ministro da Instrução Pública, Vasco Borges.


A Introdução de Agostinho de Campos (47 páginas numeradas a romano) invoca testemunhos de “doutos Alemães”: F. Bonterweck (1805), F. von Schlegel, K. Rosenkranz (1833), B. ten Brink (1881) e o famoso tradutor e comentador W. Storck (1881).
(Diga-se à passagem que “Guilherme” Storck, aliás, integra a lista dedicatória do primo volume, Redondilhas, a par de Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Manuel de Faria e Sousa, Visconde de Juromenha, então já falecidos, e de Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Teófilo Braga e José Maria Rodrigues, então ainda não...)

Agostinho abre com um comparação resolvida:

“Luís de Camões, tão grande se não maior lírico do que épico (…)”.

Os sábios teutónicos de Oitocentos não desalinham do organizador português:

Bouterweck:

– “(…) uma tal graça”
resistente
“à crítica mais rigorosa”
e capaz de desarmar
“toda a crítica”.

Schlegel:

– “(…) pela grandeza do seu plano e propósito (…) não será fácil encontrarmos seu igual entre os modernos.”

Rosenkranz:

– “(…) cumpre considerá-lo na sua produção lírica, e não só na sua epopeia, como costuma fazer-se. Uma completa a outra.”
(A citação culmina com a manifestação da
“exuberância da sua alma poderosa”.

Brink:

– “Iniciado desde a mais tenra juventude nos mistérios da divina arte, e amestrado nela por uso e contínua prática (…)”,
Camões só pode ver provada a
“universalidade do seu talento”.

Storck:

– “(…) vale por muitos outros poetas e por uma literatura inteira. (…) êle é não só o maior lírico do seu país, mas um dos maiores líricos de todos os tempos.”
Storck conclui que o homem completo de Camões é nas líricas que pode ser visto:
“(…) mas o homem, no seu ser e na sua vida, na alegria e no amor, como no ressentimento e na tristeza; o filho do seu tempo pelo saber e pela fé, pelos devaneios e anseios; o consumado cavalheiro dos serões palacianos; o atrevido espadachim em plena roda dos companheiros de estroinice; o valente soldado de terra e mar; o destemido aventureiro que repartiu a existência pela Europa, África e Ásia; o finíssimo observador da natureza e da vida; o mancebo e homem feito, ilustre e cônscio do seu valor, mas pobre e infeliz; numa palavra: a personalidade íntegra, e os movimentos e impulsos que lhe imprimiu o Destino e os próprios erros – tudo isto só o podemos ver nas suas líricas.”
(A CONTINUAR)

J de Joni, M de Mitchell

25/03/2009

Um país faz os Malucos do Riso, outro tem Ricky Gervais

Alguns Aspectos desta Vida da Gente

Souto, Casa, manhã de 25 de Março de 2009





Chamam artérias
às ruas da cidade como às pistas do sangue.
E pistas e ruas respondem rumorosamente ao chamamento.
As mães correm labirinticamente, chamadas pela seiva
das estações, as do ano como as dos comboios,
rodas que chiam nos eixos, frutos
das árvores como do tempo.

Vistas de fora com a cabeça dentro da cabeça,
as cidades,
como as veias,
pulsam mapas que não cuidam
nem perdição nem salvação.

Tudo é por fora dos outros filhos.
As ninhadas mamam pólen, ambrosia, pão de cacete,
litradas de café-com-leite, folhas amargas de figueira.
Rodam as pedras, reverberam as nuvens, transita
o aniversário incontável de todas as coisas,
data de datas distraídas na insuficiência do cérebro.

Ambulâncias guincham, guinam, pedras de giz
com um aluído corpo escrito dentro.
Pedem aos médicos que o leiam, ao corpo, como
a uma posologia arrancada à terra fervida de estrelas,
a um quintal onde evanesce o remanescente pessegueiro,
antes do que aí vem, o próximo.
Tantos miúdos nomes dão severidade à sociedade anónima
cuja responsabilidade não deixou jamais de ser limitada.

O jazz segue no papiar desencontrado dos vendedores,
é por dentro que se calcula o que o fim do dia pode trazer,
as artérias levam como o fim do dia leva, vale
o que o sangue leva a suas esquinas, suas curvas arteriais
na cidade do corpo, onde a sós se diz imprestáveis segredos,
rumores tão-só.

E o tempo todo o tempo é de anamnese íntima: viver.
Demora a resposta interrogativa do corpo ante a brisa
que é tão ave como árvore na rotação dos céus de azulejo
lavados a sabão e a chuva e a perguntas do viajante
parado em seu patamar arrendado à década, na artéria
crianças suportam já o futuro anterior dos estacionados,
das bancas de fruta, da ronda policial ao sol, queimada
a manhã a gás, fragrância de flagrantes hortaliças,
volta do talhante doméstico, rumor das mães preparatórias.

Onde entra a pergunta
Que acontece às coisas fechadas na caixa?

E a caixa ser a cabeça dentro da cabeça fechada
a si mesma vista de fora como um estudante
descendo escadarias e escadarias longe dos pais,
as coisas fechadas dentro do estudante que brincou
fora à vista da doméstica que pendurava camisas
e do talhante ambulante que não quis nunca
aquela vida,
esta.

24/03/2009

Carta com Eucalipto Perto

Souto, Casa, noite de 24 de Março de 2009





A língua escreve na linha da boca.
A árvore exclama aves de vigia.
Um corpo alvo escurece o dia,
que a manhã se prometia rouca

e de si mesma sequestrada, vã
sua mesma glória falante: suas aves,
suas famílias no lunar afã
de dormidas horas não suaves.

Nisto, o carteiro traz distante
cotim que tão silêncio faz.
É uma carta que traz
do horizonte.

Tudo se une: barbeada de prata a lua,
um sol radial dando um passarito
e uma vaga de frio queimando o eucalipto
que sentinela a casa que é tua,

além de minha. Caiu entanto a noite,
deve ter escrito a língua já sua linha.
Uma carta veio. E foi-te
dizendo coisas da vidinha.

Nome no Escuro

© Nadar
Young Woman in Profile
circa 1859




Souto, Casa, entardenoitecer de 24 de Março de 2009





Não já viver se não assim, atento ao perfume do lilás
que reconhecido rosto evola da galeria ignota.
Manter certinho o cuidado das terças-feiras disto
a que um dia chamámos por ignorância futuro, hoje
ainda.

Hirta rapariga aveludada, o cabelo apanhado pelo tempo
mais que pela objectiva, o brinco em perpétua gota
revelada a água de metal, aquela sombra cavando a raia
entre morder e engolir, entre pensar e sentir, algures
já longe de França e de aqui, onde

a reconheço minha igual, máquina de composta abstracção,
ortógrafa de um olhar calígrafo, contra um cenário neutro,
como nós em crianças e em velhos, praia de papel queimado
sombreada a pègadas silentes, finalmente.

Do todo, meio corpo, nenhuma alma senão a dos ácidos
marejando à luz vermelha, no escuro povoado de ilegíveis
nomes, hirtos, lilases, metálicos, aquosos nomes
certinhos entre duas datas.

Habitação e Povoamento de Pombal (14 e 15)

© Sandra Bernardo
Homem de Bicicleta
Cabanas de Viriato. 8 de Setembro de 2008




14

Manhã de 8 de Março de 2009

Fuma-se um cigarro à porta do prédio.
O sol não dá sinais de aparecer em esplendor. Um cartão de embalar frigoríficos pladurou o céu de gesso-cinza, faz um griso apesar de tudo moderado. Vê-se uma mulher varrendo um pátio e um gato estudando um canavial português. Os automóveis são quase todos cinzento-metalizados. Uma bátega de chuva nem cairia mal. Tempo (uma hora) até almoço, seguindo-se a cógnita tarde de domingo: papéis, fotografias, arquivos argolados, leituras de geografia e de criminologia, talvez um filme faça de tampão mental até cercanias de jantar.
(Mas ontem nasceu a Margarida, filha do Zé Eduardo, minha primeira sobrinha-neta.)

Almoçamos nos Marrazes, chez “Casinha Velha”, com Isabel C., a convite dela. A refeição foi um interlúdio suave nas três vidas à mesa. Comungámos queijos, enchidos, peixe (robalo) e carne (cabrito), mais doces e café. Havia na parede um texto autógrafo de Saramago com data de 16 de Abril de 2001. Fora, um sol fresco de fim de inverno, mui-pouco-nada marçagão. Investidas de sonolência pós-prandial. Voltou-me a boa prática de deitar-cedo-cedo-erguer.
Passou.

15

Manhã de 19 de Março de 2009


Usufruto da tranquilidade decorrente da irrelevância, até cósmica, de nós todos, assim na terra como no céu.
Condição humana e filmes à tarde, embalagens de pão fatiado à americana e bibliografias do XIX.
Perto, em frente ao Armindo do Pic-Nic, dois chorões ao sol matinal.
Leitura vagarosa do Dicionário de Milagres do Eça.
A irrelevância como um consolo.
Gente.
Um polícia leva à cara o par de óculos escuros.
Casal de velhos na rua: homem à frente, mulher a dois passos, ele conferindo a carteira, ela de olhar oblíquo, descendente.
Gente, nós todos.
Gente que só em funerais se permite o luxo insensato da metafísica, a moléstia da consciência, a esferográfica da efemeridade.
Gente que saca papel higiénico nos cafés para ter em casa sem comprar.
Um cigarro calmo, banal, matinal, um cigarro que ajuda a não permitir mais auto-impostura, mais máscara.
Recolha e recolhimento.
Andando calado pelas ruas, soliloquaz em casa, com as gatas e as publicações calmosas.
Águias, águas, magias, mágoas.

21/03/2009

Desvergonha total - a mesma Eduarda Maio escriba de "O Menino de Ouro" em publicidade anti-manifestações - Antena 1...



Em caso deste vídeo "desaparecer" (aconteceu noutro sítio da net), o link é este:
http://www.youtube.com/watch?v=u4UTx9KJKt4

Canzoada Assaltante