quinta-feira, novembro 21, 2019

CADERNETA PRETA - 6




6. Esferovite & Bailes-Ateneus

a) Domingo, 27 de Outubro de 2019



Recebamos & assimilemos, um pouco ainda, este Outubro não de todo desprovido de glória, esta estação tão predatória quão as melhores.
Já anteriores linhas deram de si nomes confundidos pela omnipotência dessa lembrança elaborada & voluntariosa chamada esquecimento. É mas não é, segue sendo no sido qualquer-coisa-1970. 
Como ver em um Victor Hugo apenas um velhote barbado de branco numa ilha do Canal.
Como achar na mais gélida madrugada o cadáver etílico de um Edgar Corvo.
Esses dois na multidão espectral de um gajo outonecido à sua própria custa, aqui, portador de uma carta recebida em data, como todas, definitivamente provisória.
Como Jonita Miguel, rapariga escapada à imensidão canadiana, chegada enfim ao barulho-das-luzes das maiores metrópoles que a sul congeminam o império & a carnificina sistemática.
Em outra linha de outro novelo, o galego Jacob Letício rumando a equivalente sul ele também, onde o aguardava a futura dinastia.
Em obliquidade, um Donato Faldar reporta-se a um celeiro pela época das colheitas, à noite os migrantes tocavam rabeca à face do fogão-a-lenha enquanto as papas ferviam.
Estigo-o-Muito-Claro trepou às faldas da encosta, susteve-se para repor oxigénio, bebeu água do fio que vinha gelando do cume, nenhuma fêmea o turvava nem já nem jamais.
Estas acções invisíveis percutem címbalos inauditos. A manhã espraia-se pelo caderno em feitoria sem mal nem bem. A véspera, nada isenta de certa doçura inócua, produziu seu lote.
Massivo nevão sitia o lugarejo. Dele debandou o grosso de homens em idade viril. Vivem longe, ficaram os velhos e o padre. Até Cristo tem frio. Já pouco gado ferve nos curros. Agosto fica longe como um país ao sol. É mais dura a pedra, mais afiada. No Verão, pela festa, os moços deixaram os paióis plenos de lenha. Criança alguma celebra a terra. A infância acabou como vela soprada. Não Vos deixeis emaranhar de tristura. É como é, são o que são as coisas, uma capela não faz Deus. Soalhos de castanho estendidos em melhor tempo. Na venda, latas guardam alimentos prontos, ferramentas esperam mãos que tão-breve não virão, o olor é compósito: naftalina, bacalhau, café, sabão, cera, vinho, plástico gretado. A rádio murmura lisboas improváveis.

Vai para cinquenta nevões, houve aqui nomes. Sei alguns. Alguns resistem como podem ao meu lápis, tinta por vezes. António Pratas, António Simões de Abadia, José Leão, Joaquim Pratas, Arnaldo Benje Caniço, Augusta Sério, Norberto Corvo (irmão de Edgar), Nina Veríssimo, Nino Júlia Mário, José Maria Morais, Maria Francisco Morais, Rogério Nunes, Jaime Velindro, Alberto Rebelo Ribeiro, Alcides Botelho, Augusto Quintas Borges, Elói Carvalho Elias, Carlos Eduardo, António Lopes Lucas, Edite Maricato, Teresa Pais, Victoria Douta, Fernanda Mota Américo, Augusta Catarino, Anabela Jeremias.

Poucas ruas não diminuem o labirinto. Aqui sitiei a minha casa terminal. Leio pelas veredas o sânscrito de ramitos & galhos caídos no cascalho ralo. Aramaica literatura minha, fácil afinal se se tiver em conta o que por ’í vai de bom vinho.

Tinha armas em casa, o velho João Barbeiro Notel. Não era caçador, amava os animais, todos eles, era buda de nem moscas matar. Herdou o rifle de seu avô Benedito; a caçadeira, de seu tio Álvaro Diamantino. Nunca usou maldade. Esteve todavia a ponto de fazê-lo – mas contra si mesmo, quando a mulher o deixou por um criado-da-lavoura, como é de papel-selado nestes folhetins da camiliana vida. Ficou-lhe leal o mulato Assis. De ambos, resta nada senão isto: um rodapé de livro nenhum, caderneta-alguma.

Freixos & choupos bordam similares aléns a poente, para lá arfa a instância aromática do mar.
Nisto, Branquinho da Fonseca na Nazaré. Raul Brandão no Baleal. Fialho de Almeida pitoresco pela Galiza. Forjaz Sampaio também pela mulher traído. Um Zamora em processo histórico (capa verde). Kurt Tucholsky & José Cid, ambos hoje-ontem-amanhã. Camilo de Oliveira & João Gaspar Simões naquela Figueira que não volta. Maria do Céu Guerra & João Perry nessa mesma dita, mas depois que ora é já tão antes.
Bato no escuro. Trago à claridade. Não leste, escrevesses.

Pessoas ardendo à face do país local: inscrevo-as na caderneta-razão em paralelo às minhas mansas – tão mansas – mentiritas. Das mãos: uma quer, outra pode. Chama-se Sânscrito – ou Freixo – ou Arma – ou Pratas.

Recolhe-se a casa Daniel, esteve de plantão nocturno em sua farmácia de serviço, toma café-com-leite com Alice, a mulher, & Alicita, de ambos a Filha Querida & Tida. Deita-se no sofá da sala, não liga o televisor, farto anda ele de tanto Sócrates, tanto futebol, tanta ex-mulher morta à porrada, tanta brasuquice novelesca. Daniel é sardento, é franzino e Barbosa Adamantino. Não chegou a estudar para enfermeiro, os velhos não podiam prover Coimbra, propinas, pensão, sapatos, viagens, comer, livros, uma bica por festa. Não lhes guarda rancor, longe disso. A coisa é o que é, enfermeiros & chapéus ele há muitos, doutor Vasquinho & suas tias no Zoológico, o que nos rimos, Daniel, sim, Alice, o que nos namorámos domingueirazitamente.

Ai tanta voz, Filipe Costa! Foste a escutar João Sebastião naquela noite de nortada a mais cuteleira? Foste. E feliz foste & oratório & tomista & tudo. Ainda nem mínimo indício te ameaçava depressão. Ainda não eras, de ti mesmo, menos uma hora – como os Açores são.

Mishima & Salazar em 70/XX foram a enterrar. Deram ambos na rádio. O Pai ouviu as novas em silêncio. Consultou depois a velha oliveira, deserta então de pardais. Alimentou pombos, gatos, cães, patos, voltou à oficina para desligar a luz, veio pelo pátio com um belo sorriso pátrio no rosto remoçado, beijou Hélia, a mulher, e deitou-se com um suspiro de menino, assim-seja.

Piedade & Ricardo, Luiza & David – r/c-esq.º, Miranda & Soeiro, Pinto & Paula – r/c-d.tº: ninguém no primeiro-esquerdo; Saul a sós no direito; Carlos Alberto na mansarda, a sós ele também.

Eu sei, eu sei: é de esferovite o meu nevão. Não deixa, por tal, de ser gracioso, como graciosa era a entrada a raparigas nos bailes-ateneus. É muito, muito a norte deste cá. Mas olhai, isto não é hermetismo, isto é como tudo conVosco, nada de novo debaixo da neve, tudo tranquilo na frente central. Menos tolerável seria se nos conhecêssemos, os segredos de uns contra outros. A privacidade dá-nos ao menos a ilusão do tesouro próprio, íntimo, gananciosamente intransmissível. Em cursiva escritura, não é menos assim. Daí que eu vença etapas na Revelação Aldrabona, ah pois é. Nem de existir mesmo precisais, Vós. A voz, sim. Essa sim. Ouvi-a Vós:

Ouvi a Voz. De novo a ouvi – mas não era já fármaco-depressiva como em anos piores, esses em que Álvaro, Manuel & Cesaltino naufragavam de pé uma & outra & ainda & sempre & mais uma vez. Não, já não. A minha mudez garantia-a. Era comigo como alguma coisa a tiracolo. Dela eu próprio me agasalhei. Agora que o conto, chove bem no país local. Terei de desandar de casa por algumas horas, espero que poucas. Levo comigo uma carta, talvez me faça cortar o cabelo, aleluias hossanarei ao balcão de Zé Carlos & Fátima, lá onde o viaduto se volve, de Camões-Calhabé, Norton e Matos. E, se não tinta, lápis então.

Contado como vou contar, pode parecer mais rápido do que foi sendo – mas não tão brusco quão o ter-sido. Vamos:

I

Aldina Jorge, filha de Dário dos Anjos, rumou a norte depois de concluir com certidão o estágio industrial. Esperava-a uma colocação naquela fábrica têxtil sita onde a serra sobe. Pôs-se a ganhar a vida sem soluços.
Antes do primeiro Natal, integrou o grupo de cavaquinhos da associação recreativa da vila. Nessa qualidade, viajou a certames municipais de gastronomia & artesanato. Ocupando a casa pequena a partir da qual só pinhais respiravam, dispôs do logradouro como quis, até horta-jardim exerceu.
Tinha vizinhos a setenta metros, o guarda-caça Ismael Rosas & sua mulher Angelina, costureira para fora. Alguns homens rondaram-na, que ela repeliu com gentileza, primeiro, e assertiva rispidez, depois.
Depois do segundo Natal, foi promovida a encarregada-geral, não interessa ser ou não boato que se fizera amásia do patrão fabril. Nesse mesmo Janeiro, comprou carro. Foi nele a buscar Dário dos Anjos, cuja solidão, escreveram por carta a ’Dina, o vinha tornando impermeável à vontade de viver.
Na casa dos pinhais, o pai remoçou como salsa à chuva. Fez de pronto amizade com o guarda-caça, cuja Angelina não descansou enquanto lhe não passajou meias & camisas que a longa viuvez tornara lamentáveis & lamentosas.
O cancro fulminou Ismael em menos de um semestre, pelo que no quarto Natal Cristo renasceu para levá-lo sem inquérito preliminar nem julgamento. Três anos volvidos, Angelina & Dário casaram-se pelo civil, as noites tornaram a ser azuis, ’Dina foi testemunha, a outra testemunha foi um rapaz chamado Raul Fausto, sobrinho da noiva.
Nesse ano, foi campeão o Sporting de Braga.

II

Venceslau Agostinho, patrono dos árcades de Setúbal, foi bonecreiro dos oito aos noventa & dois anos, idade com que lindamente se finou – sem uma nódoa moral & sem dois tostões por junto. Enquanto árcade-mor, que o foi por quase meio-século, legou uma bem acima de razoável obra publicada – própria como, supervista por si, alheia.
Autor, criou Lamentação de Hermes, Penélope com Aquele de Que Ulisses Não Soube e Estela do Taumaturgo, além de crestomatias menores.
Editor, mecenou Carpo de Hollanda (Visões Legendárias), Melro Pasmaceno (Sonetos Autocratas Após Rebelião do Cometa), Dorivaldo Rionomar (Lusitânia Invencível) e Rosalina Guevara (Coração Armilar dos Trópicos).
Fora de versos e de bonecos, pode ser dito pouco mais de sua passagem pelo terreno caos. Se a alguém amou, nada consta em litera’ ou oratura. Se foi odiado, o mesmo. À uma, compareceu ao funeral uma meia-dúzia dos seus detractores académicos, vulgo Sibaritas Arrábidos, para quem o culto do soneto é a demonstração mais cabal de que Darwin era o vero AntiCristo. À outra, a viúva de Venceslau foi entrevista a rir-se mais do que uma vez durante o velório, não a sorrir-se condoída mas a rir-se-rir-se – todavia isso foi antes de saber que a junta do defunto não chegava a dois tostões. Terceiro, a amante não fugiu, antes deu de si a línguas & dentuças – mas dela radiou a invencível simetria de suas passadas, assim como o escândalo de ser bonita, não linda, não bela, não formosa, não toda-chicha, bonita sim: como as mãos lavadas, ou o cão esperando o dono crepuscular, ou uma manhã sem amanhã.
Sepultado Agostinho, fomo-nos dali a beber vinho.

III

Guadalupe da Paz Moreira, recebedora de fodas em pensões de quartos-à-meia-hora, cuidou da mãe velhinha até a doentinha se deslastrar deste morredouro de putas sem resposta ao motivo de por-que-raio-se-nasce.
Pé-de-meia da falecida empochado, retirou-se Guadalupe da tauromaquia de rapidinhas, asilando-se sem sobressaltos em uma vida litoral cuja decência era à prova de espanhóis endinheirados. Não vegetou, porém. Fez dois cursos profissionalizantes do instituto-d’emprego, um de encadernação, outro de restauração de dourados. Se fodeu alguma coisita, fê-lo ou por desfastio ou para não lhe perder a mão, que isto dá muita volta & o amailo nunca se sabe.
Não praticou eremitério: travou conhecimento com raparigas da sua geração, divorciadas quase todas, a quem acompanhou em hílares bailes-das-velhas.
Faustino Miguel Amaral, acordeonista-residente de um de tais antros onde a geriatria ainda se dá a espasmos pasodoblantes, pareceu-lhe o que era: simpático, simples & caseiro como a brisa nos cortinados, parceiro sem ardis & remediado de provisão. Juntaram-se.
Foi boa ideia. Guadalupe reconhecia, dele, a dedicação aos valores ditos pilares: casa, trabalho, parceria. Serralheiro de dia de segunda a sábado, músico às quartas & domingos (matinées) e noites de sexta & sábado, Faustino dava tudo e pedia muito pouco. Era a verdadeira & boa anti-história. Fazendo contas, ela arranjou emprego numa lavandaria, pondo-se de lado o que ele ganhava com o acordeão + o salário dela, vivendo o dia-a-dia com o pré de serralheiro. Deram entrada para um T1 perto da Misericórdia. Sem filhos, foram afagando cão agora, gato depois, por aí.
Quando Armando, irmão dele, morreu de leucemia, ela quis ir, mesmo sem aliança, ao funeral. A ex-mulher estava lá – mas não houve sarrafusca nem nada que se parecesse, há sempre uma altura em que para-quê-o-quê, não é verdade?
Um dos cães de Guadalupe & Faustino era tratado em casa por Mondego – mas no Bairro da Misericórdia era por Xerife que se dava. Morreu de hiperdiabetes & mais cego do que o Ray Charles, o Stevie Wonder, a Helen Keller & o nosso poeta Castilho juntos – a mania do pessoal era dar-lhe do açúcar das bicas no Café Social, ali entre a Misericórdia e o Grémio.
Guadalupe, alertada por uma enfermeira do Asilo, ralhava com o maralhal: – Não dêem lambarices ao meu Mondego que ele tem muito que comer em casa. O maralhal retorquia-lhe: – Mondego? Mas q’ais Mondego? A gente damos ó Xerife, mai’ nada.
O Mondego nunca conheceu cadela mas o Xerife apôs-se a muitas, pelo que há descendência com fartura por aquela vila-mar: netinhos, por assim dizer, de Faustino & Guadalupe. A vida ilude repetir-se nesses cachorros desmemoriados que nem ao açúcar ligam, agora que, felizmente, é mais corrente a noção de que os canídeos não metabolizam a doçura.
Já só falta falar do pai do Mondego-Xerife. Era Sidónio. Crismaram-no assim por ele mendigar a ração de cada dia na sopa-dos-pobres da Misericórdia. O Sidónio uivava como um lobo perdido sempre que lhe tocavam perto uma gaita-de-beiços. Infra-sons, ou coisa que os valha, no espectro auditivo dele, não sabemos. Sabemos porém que tal cena foi durante muitos anos um dos mais seguros êxitos de rua naquele pacato bairro a que Faustino & Guadalupe, em boa-hora, nos levaram.

A Quarta-Feira dá de si o que lhe apetece. A jornada, que foi particularmente pluvial, andou daqui para acolá – mas eu, eu não. Eu consumi algumas pastilhas de resino (de extracto seco de tomilho) a ver se enganava a tosse, estes arrancos cavernosos que me entontecem até ao escarro forçado, oblíquo, agónico. Mais umas horitas vãs, menos uma folha calendária, o dínamo-motriz não perde centelha, de estrelas a descomunal arcada é hoje opaca, glaucomou a massa nublada, altas águas por cima, gelo por baixo nós, disputam algures na China o World Open de snooker, ontem ri-me com gosto, recuperei da net um colóquio sobre o grande Cortázar, o grande Carlos Fuentes era um dos da mesa mas foi Aurora Bernárdez quem fez sorrir o mundo, contou ela que o Julio (então) dela não falhava o vestir do seu robe-de-chambre verde, invariavelmente o fazia, o que Aurora disse transformá-lo, dadas a cor da vestimenta & a altura do marido, numa espécie de “mesa-de-bilhar na vertical”, muito me ri, decerto também se riria El Gran Cronopio.

É amanhã que saio, assim parece. É por obrigação, não por devoção lírica. Alguma coisa aproveitarei, dando-me o corpo para tanto. Uma parte da geografia, por imperativo da função devida, é certa: sair do autocarro ali ao Palácio da Justiça, depois Correios perto da antiga Auto-Industrial, Bota-Abaixo depois, depois logo se vê. O certo é haver sempre fauna digna de linha escrita, não há que perdê-la. Ou como. Os percursos são sempre generosos, o olhar é remunerado em géneros mais especiosos. Todavia, não os antecipo. Fazendo-se idioma, entesouro-os avaramente no papel à mão. E não me entedia tal (aparente) repetição? Não. Nada. Pelo contrário, a revisita segura-me identidade, essoutro nome de pertença.
Sem escrita embora, a senhora minha Mãe fazia o mesmo. Ela chamava-lhe “jogos”. Observava, retinha, cotejava, especulava: rostos, roupas, sapatos, gestos. Casas – como eram. O que entretanto aqui construíram, o que aluíram. Certo trecho do Mondego (nome de rio, nome de cão), alturas da extinta Alta (crime dos fascistas no poder, décadas de 40/XX e ss.), nomes de fantasmas que ela me repetia para eu ser livro (&livre) um dia. Agora, portanto.

Em relance à minha espiral, convoco certa noite do século passado em Madrid, voguei pelas ruas apinhadas, agradou-me la movida, como eles chamam ao corrupio a que se dão em ócio ambulatório, acho que apresentavam Lope de Veja em um teatro de bela fronte, disso não estou seguro já, dei essas voltas sem papel nem lápis, imperdoável mas pronto, lá vai; ou outra em Sevilha, seis anos antes da de Madrid, o calor à meia-noite era de uma pujança alucinante, como alucinante era o fêmeo gado pass(e)ante, nunca-jamais-em-tempo-algum da minha vida vi tanta senhora comestível em tão pouco tempo; outra noite, aquela que em Braga ajanelei, seis anos, não, cinco, cinco anos antes dessa de Braga, era Janeiro, padeci sucessivas noites com seus dias de uma infecção bucal muito imperiosa, fartei-me de encomendar a mudez forçada ao diabo que ma carregara – pela boca, precisamente; sete anos antes de tal abcesso, no decurso do Mundial da Argentina (sob ditadura ferocíssima então, deveriam mas era ter boicotado aquela merda), jantei ao ar-livre, a comida era arroz-de-vaca com ervilhas, tépida era a vida & tépida a respiração, pois que perto oravam rosas ao luar que enfarinhava de prata o céu dos senhores meus Pais. Volto a esta, a que amanhã chamarei ontem. Dínamo, espiral, roda, (v)idas & vi(n)das.

Recortes, por colar, ui, são matéria que me não falta, nunca me faltou, sem esforço prevejo que me não faltarão.
Baptismo de um menino filho de casal amigo, perfume da comida feita pelas senhoras avoengas, indiscutível majestade dinástica daquela gente não-abastada mas ricamente provida de obra, foi em aldeia dormente que o sol tornou volitiva de festa & volante de ouro humílimo, boa lembrança, excelente recorte.
Casamento de P. com P., amicíssimos, ele já morreu, foi por acaso que encontrei a viúva no exacto 33.º aniversário esponsal (um Agosto), lágrimas nos quatro olhos, andemos.
Funeral de Luís M.V.M. (outro Agosto, outro desgosto), música dele tocada para ele pelos alunos dele, sol fortíssimo, intolerável mas tolerado, foi naquela cidadezinha que as cheias de outros invernos tomavam sem promessa de recuo.
Divórcio de J./C., esta é das presentes evocações (ou recortes) a mais antiga, houve amargura que transcendeu os desavindos, comentou-se muito o des-enlace, à boca-mordida se disse mal dele, à boca dita se mordeu nela.

Posso (e aliás pretendo) estar nisto a vida toda. Quando digo nisto, digo isto:

Bordadura arbórea por caminho que desço se vou á zona perfumada pela tenra Carolina J.;
Sapatos encarnados de Rogério Q., inesperada cor que esmifrou falas a ponto de murmurações em pleno velório, delicioso escândalozinho de lugarejo;
Polícia reformado que mulher & filha rejeitaram por causa de muitos vinhos & bebidas-finas, para além de pormenores onerosos de retenção-na-fonte, vendo-se ora, o ex-polícia, em aparato de sem-abrigo;
Baldio próximo da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, nele armou tenda um dos circos mais pobres do mundo de circa 1970 d.C., foi das primeiras & mais obstinadas tristuras que senti, ainda sinto, hei-de ressentir sempre, não hei como escoá-la;
Em remota aldeia de montanha, libertação de um gato que tinham enjaulado a pretexto de tinha, mal de pele que aquela gente de rarefeito juízo julgava marca demoníaca, libertação que me fez feliz, uma vez na vida. 

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