Thursday, September 08, 2016

Rosário Breve nº 471 - in O RIBATEJO de 8 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Utopias e boas companhias



1 O senhor meu Pai comprava todos os dias o jornal. Era o Diário de Lisboa. Nenhum dos dois existe já. Era um senhor bom Pai. Era um senhor bom jornal. Fui bem criado, pois: como filho e como leitor. Cheguei a desejar escrever, um dia, naquele periódico. A realidade da extinção tornou-me irrealizável tal utopia. Em compensação, escrevo aqui, nO Ribatejo. A vida não me foi madrasta de todo, portanto. Só tenho pena de, chegando a casa, não poder mostrar ao meu Velhote as palavras que tão boa companhia me fazem, a saber: as dos grandes Armando Fernandes, Arnaldo Vasques, António Branquinho Pequeno, Beja Santos, Fernando Paulo Neves, João Salvador Fernandes, Joaquim Jorge Carvalho, Mário Rui Silvestre e, de longe em longe, Carlos Cruz e Carlos Chaparro. Mais o traço impagável do António Maia. Mais tudo o que fazem os profissionais desta Casa.
Não digo isto por mariquice sentimentalóide. Digo-o por gratidão. São quase nove anos e meio de comunicação com as gentes leitoras de uma Região tão bela quão mal aproveitada. Pronto, está feito e fica dito.
2 Derredor o meu par de óculos, a Realidade quotidiana é insalubrezita. Muita (demasiada) gente sem trabalho. As televisões industrialmente jorrando lixo. Lixo propriamente dito pelo chão, manado por gentalha sem pinga de civismo nas ventas. Estoiros rodoviários perfeitamente evitáveis. Incêndios criminosos. Coisas mal pensadas, mal escritas & mal lidas. Um ror, enfim, de mediocridades que vou fazendo por desprezar com a tranquilidade possível. Como não sou super-herói, desforro-me na frequência agradecida de bons impressos, tais como: A Morte É um Acto Solitário, de Ray Bradbury; Papéis Inesperados, de Julio Cortázar; Silja, de F. E. Sillanpää; As Grandes Correntes do Pensamento Antigo, de Albert Rivaud; Las Doctrinas Políticas en Portugal (Edad Media), de Francisco Elías de Tejada Spínola; a maravilhosa Hélade, compendiada pela também maravilhosa Doutora Maria Helena da Rocha Pereira; e ainda, claro, o nossO Ribatejo. Vou-me safando com algum garbo. Vou, vou.
À maneira de despedida, sempre V. digo que, se me sair uma batelada brutal no euromilhões, reactivo o Diário de Lisboa e ponho-me Director dele, para alegria secreta do senhor meu Pai. Há-de ser limpinho. Ou nunca, que sempre é o mais certo.




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