Thursday, July 30, 2015

Rosário Breve n.º 418 - in O RIBATEJO de 30 de Julho de 2015




Missão Jorge



Uma das (poucas) missões sérias que tenho, sigo e persigo na vida é a de manter vivo o meu Irmão Jorge. Não é tarefa fácil: vai para trinta anos que morreu.
Como faço? – querereis, talvez, saber Vós.
Faço assim:

Onde a tua sombra refrescou o chão, acendo a vela do olhar.
Àquele e àquela a quem o teu nome lembra ainda um rosto vivo & bonito, saúdo pelo próprio nome no rosto mesmo.
Se uma das tuas canções favoritas me acode aos pavilhões auditivos, cantarolo-a com a tua voz.
Se algo é referido como Património Mundial da Humanidade, penso sempre que é do teu Corpo que falam.
Se vêm com aquilo do Objecto Voador Não Identificado, eu identifico-o logo como sendo a tua Mente.
Os cães vadios das ruas tresandam à tua bondade e à tua solidão, meu malogrado Irmão.
Na época das andorinhas, Maio não é o mês da tua morte – nem o do meu nascimento.
É um bocado chato da tua parte fazeres-te de nove-horas, agora que são as dez para sempre.
O Pai declinou a olhos nus com o teu passamento: era um pássaro quebrado como um galho. Não durou oito anos, esse pássaro nosso progenitor.
A Mãe deu mais luta. A Mãe deu sempre muita luta. Luta & luto. Durou quase um quarto-de-século sem ti. Ou contigo, lá bem à maneira só dela, essa campeã de filhos, essa vencedora nata.
Passo muitas vezes à porta do teu quarto-casa terminal: fecharam a janela ao n.º 210, receio que lá dentro as trevas te impeçam o gesto branco, a fala clara.
The Rolling Stones ainda andam por aí. (Percebo que isto te faz sorrir. A mim, não – deverias ter-lhes seguido o exemplo.)
Outras famílias como a nossa perderam também seus Jorges – a família Conceição do teu Tó, por exemplo. (Arrependo-me e penitencio-me: não deveria ter-te contado isto.)
O Botânico continua frondoso & formoso.
O Mondego continua de cobalto vivo: uma tira de Céu.
A tua Filha Daniela é uma mulher linda como uma manhã de sol acordando em vidro não-cortante um campo verde-ferrete.
Os Irmãos sobreviventes fazemos pela vida: endureceu-nos a todos, a manhã de 23 de Maio de 1986. Do teu gémeo Fernando, nem falo.
Repara: tu em Maio, o Pai em Abril, a Mãe em Março – o Tempo desce.
1986. 1994. 2011.
Sim, passei hoje pela tua rua Antero de Quental, alimentei o pombal à tua porta, a altaneira Torre da Universidade já não cabreja a estudantada como antigamente, mas também a verdade é que tudo me sabe a antigamente quando entristeço de arroz & pombas à tua porta, à tua janela fechada.
És difícil de manter vivo. Uma pessoa sobrevive por egoísmo. Tenho livros & discos que te dar e de que te falar, dá-me uma trabalheira dos mil-diabos andar com este sacão repleto de belezas escritas & cantadas, pareço a Liginha com o saco dos brinquedos a caminho da praia, pá.
A minha Filha Leonor formou-se em Composição Musical na quarta-feira, 22 de Julho de 2015. Ela não faz (mas faz) ideia de quem sejas.
Eu faço: És.
Não deve ser fácil para ti, isto de ser.
Mas És.
Tu seres é o meu trabalho.
A minha missão não impossível, Jorge Manuel Leite dos Santos Abrunheiro.




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