Thursday, February 28, 2008

CRÓNICA ESCURA seguida de NÃO MUDAS IMAGENS

Hoje, duas coisas:
Crónica Escura, nº 41 da série Rosário Breve
(n'O Ribatejo, http://www.oribatejo.pt/, esta semana)
e, ainda, uma coisa armada ao pingarelho poético chamada
Não Mudas Imagens.
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Crónica Escura

Há vinte meses que todas as manhãs, muito cedo, entro num determinado café. Não só o tónico cafeínico me lá chama. Também a luz natural que ingressa pelas vidraças altas e a imaculada higiene do estabelecimento são de uma força convocadora que me reforça o hábito. O sítio só tem um senão: é a luz automática do cubículo da sanita. Odeio profunda, visceral e totalmente tal engrenagem.
Ainda por cima, aquela geringonça de que vos falo, para mal dos meus pecados e extrabílis das minhas glândulas, tem o irritantíssimo desplante de se apagar cada dez segundos. Um gajo de olhos muito abertos de esforço e zás!, não se vê nadinha. Lá tenho eu de esbracejar como um doidinho para que se me faça luz. De modo que a metáfora única desta crónica se me volveu inelutável: é que esta manhã (sentado no tal sítio, às intermitências como um pirilampo monstruoso) tornou-se-me claro, às escuras, que tudo aquilo (o exíguo cubículo, o trono de louça e o apagão regular) em tudo equivale à vida portuguesa: pois não nos embrulham diariamente em trevas aqueles que nos mandaram sentar no frio de calças caídas aos pés? A resposta é, triste e apagadamente, afirmativa.
Sim: quase todos nós fazemos o serviço (qualquer serviço) do lado avesso da luz, pelo que nos resultam obscuras tanto a necessidade (qualquer necessidade) quanto a satisfação (mas qual?) dela. Fisiologicamente regulares mas moralmente arrítmicos, dirigimo-nos quase todos, sem sairmos do sítio, para o mais claro cataclismo cada vez que procuramos às apalpadelas o autoclismo. Trata-se, deveras, de uma espécie de autocataclismo que, ao fim e ao cabo, nos confirma a linhagem e nos apaga o futuro, cada dez segundos.
Quem diz cada dez segundos, diz cada acto eleitoral. E como não somos um povo eleito mas eleitor apenas, adivinhai comigo o que, sentados na louça e seminus no negro breu, acabamos sempre, rangendo os dentes e cerrando as vistas, por eleger.
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Não Mudas Imagens

I

Do horto da fala emergem vocábulos:
tubérculos da voz remaminescente.
Poetas e asnos partilham estábulos
e açordas (farinhas) da fala da gente.

Papagueiam em ramos passaritarbóreos,
caganetam silvos de prata ramagens.
Uns são viriatos, outros mais sertórios,
mas todos, enfim, não mudas imagens.

II

Não mudas imagens.
Gritam, escuras, as visões à claridade.
A todas recebo como a voragens.
Meu mais fundo tempo, minha vera idade.

Desde velho menino vejo dentro.
O mundo de fora mal pouco m’ importa.
O que a chuva cola, vem o vento e corta.
E eu entro de fora, coração adentro.

III

São espelhos os copos, turv’ acidulados.
As estantes espelham de vidro a vida.
Já andei nas obras, já cantei uns fados:
por cinco euros à hora ou uma bebida.

No estreito largo que a vida me é,
eu tomo e retomo – queres uma, ó Zé?
Depois, devagar, retorno ao futuro:
levo um dedo ao cu, coç’ um oxiúro.

IV

Ou então não, então das rosas o fulgor,
das grand’ árvores do parque, a oriente,
um tal umbroso maná, que é feliz ser gente,
que é bom estar aqui, igual e diferente.

Ou sim, então, da montanha a imperial
catadura serrada pela Lua tão triste e total
e a tanta altura, que parece até desmesura
o fulgor feliz da rosa humana e pura.

V

Senhora da capucha negra pela álea
que de floresta é domesticada:
dela a pobreza tanta parece que encanta
a pobre natureza, virgo devassada.

Negra dália, virgo viúva.
De costas a vejo, sem retorno indo.
Contrária à vida, avesso da chuva,
é feia a pobreza, mas o verso é lindo.

VI

Uma boca amarela nesta solidão:
é do belo melro, negro campeão
do parq’ arvoredo defronte à casa
a cuja varanda estendo uma asa

que é preta caneta de voo rasteiro
de pateta poeta daniel abrunheiro,
nem melro nem belo, sequer campeão,
uma boca amarela nesta solidão.



Tudo no Caramulo,
entardenoitecer de 27 de Fevereiro de 2008 (I)
e manhã seguinte (II a VI)

1 comment:

Manuel da Mata said...

Boa crónica, Daniel. Abraço.