Wednesday, February 27, 2008

Alguns Segredos entre Homens


© John Gutmann – The Artist Lives Dangerously (San Francisco, 1938)

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Alguns Segredos entre Homens


(0.
Escrevo homens que não são homens mas palavras.
Eu também não sou um homem sempre.
A minha palavra não faz a diferença entre os homens.
É uma vida que seria perigosa se passasse da palavra.
Não passa.
Passa de si mesma, tão-só e tão só.
Da palavra, não passa.)

(1.
Vem, vem daí, não saias do sítio a que chamas teu
mas a que pertences como um móvel a uma casa,
uma árvore a uma berma, um peixe a um açude,
vem, fica e vem, mexe-te como uma estátua,
gira os olhos para o sol e cega de cal termonuclear,
passa a vida nisso, nisso que te passa a vida,
na mais terna tetraplegia, às quintas há cozido,
podes sempre dar uma passeata pelos hipers-zipers,
vem ter comigo à minha paragem, costumo, como tu,
não ser para que me deixem estar, faz muita falta aqui,
não sei, qualquer coisa movediça, uma visita,
um ramo de flores brandido por uma noiva violenta,
um elixir contra a caspa, a caspa que é, como sabes,
toda a neve que podemos, um lenço de fina cambraia
que nos bebesse, cada um as suas, cada um em seu lado,
as lágrimas, faz muita falta aqui, digo, uma tosse,
qualquer coisa expectorante como a poesia e a confissão,
vem, não mexas uma palha que o burro está atento,
não troques de cortinados que a vizinha não aprova,
os nossos bairros são sossegados como os concílios
daqueles homens estranhos com penicos cónicos
enfiados nas cabeças, gostaria de te falar dos homens
que escrevo, que nunca vi nem jamais verei,
parecem-se, como nós, tanto com mortos, tanto,
e no entanto movem-se como dizem que a Terra,
se viesses, experimentaríamos ali a nova casa de bifanas,
tem uma rapariga mamária ao balcão, o decote suado,
as mãos vermelhas, as unhas amarelas, os olhos aguados
de um castanho que pertence às litografias com nesgas de rio,
digo-te isto em verso por me faltar dinheiro para telefonemas,
de modo que a coisa vai, mas fica, em poemas.)

(2.
Z., meu caro amigo, escrevi-te outro dia uma carta
que me saiu, perdoarás, rimada. Era de sandices bem farta,
tal carta despudorada. Contava-te eu de imaginações
que, rés da noite, me incham de erectores sangues a glande
e os colhões. Tinha, calcula, a ver com pensões, onde,
às secretas de nossas legítimas, embarcávamos ambos
em fendas mui abissais e mui marítimas. Tolice tanta,
que dela desisti pronto, rasgando-a cerce, ponto por ponto.
Perdoarás esta, Z. amigo, que daquela fala.
A tua mulher não sei, mas a minha sonha com um magala.)

(3.
Desejaram-me felicidades, como se fora plural a felicidade.
Não pela primeira vez mo fazem, o que tristemente me dá
para rir. Tudo, aliás, me dá para o rir e para o tristemente.)

(4.
Não é que seja, A., tudo mentira.
Nem o ser poderia, que nem tudo é tudo verdade.
Vejo passar autocarros pesados como horas
e como anos cheios de gente dentro a caminho
sei eu lá donde. Mais do que a mentira, a verdade esconde
seu íntimo motivo, que é matar-nos de seriedade.
A isto porém não ligues mais do que ao resto.
Quem acreditaria que um menino, há setenta anos, traçaria
o índio seu pai num chão de estrada?
O sol, então, ardia o dia.
E o menino, desenhando, mentia.)

(5.
Daqui, sigo a pé até aos correios, passo pela banca de fruta,
compro cigarros no quiosque daquele a quem morreu ou fugiu
a mulher, aquele da mancha roxa na cara, depois vou cheirar
o peixe à praça, gosto de ver as espadas do mar, gosto muito
há muitos anos, há muitos anos que dou esta volta sem fazer
mais nada nem mal a ninguém, na volta do correio trago versos,
que escrevo à mesa daquele café pequenino onde uma vez
namorámos através dos versos de um poeta muito mau e muito
importante a quem o município deu todas as medalhas que tinha
e que todos os natais escrevia um poema ao Natal, à noitinha
vou um instante a casa ferver um knorr, tomo o caldo e depois
volto às ruas, já não há correios, nem quiosque, nem praça, mas
há sempre as ruas, há sempre a noite.)

(6.
Amei sim, amei um homem.
E não, eu não era uma mulher.
Era um dos filhos.)

(7.
No outro dia, manhã muito cedo, fui ver um rio.
Cheguei-me lá e deu-me a sensação de estar sendo
visto por ele, de ele me dizer assim:

Eu passo mas fico, tu não.

Eu não.)

Caramulo, início da tarde de 27 de Fevereiro de 2008

2 comments:

sophis said...

Começou bem, esta tarde. :)

rui said...

Tudo o que te faça pensar que "É uma vida que seria perigosa se passasse da palavra" é tão caído como falacioso.