19/03/2019
16/03/2019
15/03/2019
12/03/2019
11/03/2019
10/03/2019
09/03/2019
08/03/2019
07/03/2019
06/03/2019
04/03/2019
02/03/2019
23/02/2019
21/02/2019
17/02/2019
15/02/2019
07/02/2019
30/01/2019
24/01/2019
15/01/2019
08/01/2019
31/12/2018
30/12/2018
25/12/2018
24/12/2018
23/12/2018
21/12/2018
20/12/2018
18/12/2018
17/12/2018
07/12/2018
04/12/2018
22/11/2018
05/11/2018
21/10/2018
20/10/2018
Quatro poemas de BASHÔ traduzidos por JORGE DE SENA
BASHÔ (Japão, 1644-1694)
“Amigos, adeus:
tal como os gansos selvagens
perdidos nas nuvens.”
“Um branco narciso
e um branco biombo se reflectem
na sala quieta.”
“Bendito este vale
onde o vento suave cheira
vagamente a neve.”
“Recordação de Edo:
este vento frio e fresco
que guardo no leque.”
19/10/2018
18/10/2018
17/10/2018
16/10/2018
14/10/2018
11/10/2018
28/09/2018
Outro soneto de sexta-feira, 28 de Setembro de 2018
Inscreve mansidão por ruas
breves
O cavalheiro firme & calado.
Sustenta demoradamente aves
E, do que sobra, obra ele dá ao dia.
Domingos há queimado sem remédio,
Conhece o carnaval mais solitário.
Em sono, reconquista as origens
E da morte se serve imitação.
Mansarda com vasos de sardinheiras,
Latadas de cachos gordos suspensos,
Cães serenos guardando a própria sombra:
O cavalheiro é grato à conquista
De horas sem mensagem nem destino
– E assim tem sido sempre de menino.
O cavalheiro firme & calado.
Sustenta demoradamente aves
E, do que sobra, obra ele dá ao dia.
Domingos há queimado sem remédio,
Conhece o carnaval mais solitário.
Em sono, reconquista as origens
E da morte se serve imitação.
Mansarda com vasos de sardinheiras,
Latadas de cachos gordos suspensos,
Cães serenos guardando a própria sombra:
O cavalheiro é grato à conquista
De horas sem mensagem nem destino
– E assim tem sido sempre de menino.
Soneto de sexta-feira, 28 de Setembro de 2018
Tantos anos volvidos – plena
bruma
Adoça amarga a interioridade
Do ser que vai estando na
passagem
À bolina de dias repensados.
Já inclinada mais está a
ladeira
Que outrora subiu arborizada.
Panos de relva mui estendem
sombra
De que aves invisíveis tomam
posse.
Silêncios mores estend’ em
lençol o céu
Que a névoa sequestrou por
estas horas.
Laurindo chega à obra, pousa
o saco,
Confere em torno d’ontem os
despojos.
Em vinte anos, tudo
resolvido:
Nem sonetos, nem doce
amargura.
22/09/2018
19/09/2018
Um soneto de segunda-feira, 26 de Julho de 2010
Nem tudo o que vem
do coração está certo,
nem tudo errado é quão
coração parece.
Ele há coisas que a
razão reconhece,
mais longe são umas
& outras mais perto.
A gente assim faz:
vive. Passam as viaturas,
derredor há sol que
esbraseia peles.
Queima-as à boa gente
& a outra mais reles,
mas todas de Deus são
as criaturas.
O mais que não digo,
vem só da verdade,
que ela é ser a
mesma vontade
de menos ser que
viver, está certo, está certo.
Nem tudo é erro,
nem a razão conhece
o que o coração quer
e apetece:
está perto, é
longe; está longe, é perto.
14/09/2018
13/09/2018
11/09/2018
07/09/2018
05/09/2018
03/09/2018
30/08/2018
28/08/2018
Duas sentenças judiciosas
Recentemente, chegaram-me ao saber duas sentenças judiciosas.
Da primeira, desconheço o autor.
Da segunda, sei que foi proferida pelo grande contista britânico H:H: Munro (pseud. Saki, (18 December 1870 – 14 November 1916)).
1 - Se partires um braço, não te faltará quem queira assinar melhoras no gesso.
Se sofreres de depressão, todos fugirão de ti.
2- Acho os Americanos grotescos quando tentam falar francês. Felizmente, nunca tentam falar inglês.
22/08/2018
“Nem a luz da música tive” - Coimbra, 14 de Agosto de 2018
Eduardo V. N., 64 anos, no Largo do Pôço, Coimbra
“Nem a luz da música
tive”
–
diz o cego Eduardo,
a
quem o pai não quis oferecer,
menino,
um
acordeão-de-pedir.
19/08/2018
18/08/2018
14/08/2018
09/08/2018
07/08/2018
Soneto pela finimanhã de Terça-feira, 31 de Julho de 2018
O
harmonioso moço semblante da menina vi,
era
em um autocarro que ao Calhabé nos levava.
Humana
síntese de gladíolo & codorniz senti
naquel’
aparato feminil que, ’li, se m’apresentava.
Era
de curtas roupas, quási porém longas pernas:
mas
não dessas que se encontra pelas tabernas,
isso
não, antes sim por bibliotecas de honesto estudo
onde
a vergonha é nada & a honra é tudo.
Senti-me
de pronto o mais juvenal senil,
que,
enfim, juvenil não, tal me há muito passou.
Fiz
de discreto mirone, colector de vãos sonetos.
Pode
ser que um dia, à face de meus netos,
à
lareira lhes conte daquela que viajou
em
noviço julho, ante meu extinto abril.
05/08/2018
02/08/2018
25/07/2018
14/07/2018
13/07/2018
05/07/2018
ADEUS, PAPEL - Rosário Breve n.º 562 e ÚLTIMO EM PAPEL in O RIBATEJO de um destes dias de Julho de 2018 - www.oribatejo.pt
Adeus, papel
Na
passada segunda-feira, 2 de Julho de 2018, o telefonema de um Amigo
anoiteceu-me a manhã. Reservo-me por enquanto o entristecedor motivo. Narro-Vos,
todavia, o que se seguiu a tal.
Saí,
a sós como toda a vida, às minhas vielas natais. Escolhi uma esplanada discreta
para acampar a tristura portátil que me é própria. Perto, num largo
embolorecido pelos séculos perdidos, soava o realejo electrónico de um cego
esmoler tão pobre, mas tão pobre, que nem macaco tinha. No chão, a escudela de
baquelite acolhia dezassete centavos, perdão, cêntimos. Demasiado porosa a
estas merencórias & lacrimosas realidades, a matéria virtual da mente azedou-se-me
mais ainda um bocadito. Pior: pus-me a reler Camões. Não reli muito: fechei
depressa o canhenho de sonetos desse glorioso desgraçado. Viver atrapalhava-me
o existir. Pus-me a assobiar baixinho. Foi então que, a páginas tantas só agora
aqui escritas, passou uma senhora mais formosa ainda do que o sol de Inverno.
Deveria
ser da minha idade. Não era de corpo nado mas esculpido. Aquilo nem era andar –
era florescer. Ou: era flores ser. De zénite a nadir: cabelo lambido a luz,
fiado aqui & ali a encanecida prata natural; olhos feitos de cinza de
lareira em que refulge ainda a queimadura do ouro; nariz perfeito, cleopátrico,
mortífero; boca única, de um vermelho biológico sem tinta francesa; dentes que
morderam a maçã do Éden; colo de hipnótica simetria sustentando o alabastro do
pescoço; braços de mármore respiratório; mãos impossíveis, com algo de aranha
uma, de mariposa outra; ventre nunca tocado; pernas de cisne próspero; e
pèzitos de tal insignificância volumétrica, que me causaram o desejo de
ofertar, à dona deles, framboesas que não posso & versos que não sei.
As
coisas, portanto & afinal, recompunham-se: a beleza alheia é paliativa da
nossa íntima feiura. O meio-dia já era. Eu não almoçara ainda, nem de seguida o
fiz: o pão-nosso-de-cada-dia é contra as hipersensibilidades doentias como a
minha. A passagem da dita senhora tivera todavia para comigo a bondade & o
condão de desempobrecer a hora amargada pelo tal telefonema do tal Amigo. Nisto,
o telemóvel guinchou de novo. Era o meu mui querido sobrinho Zé Daniel. Ele
fazia anos, eu mandara-lhe uma festiva lembrança de amor. Sequência &
consequência: foi ele afinal a dar-me uma prenda. Esta prenda: vai ser Pai em
Dezembro próximo, tornando-me tio-avô pela quinta vez na vida. Muito
provavelmente, de uma menina. Quinta sobrinha-neta, aliás: os meus sobrinhos
& as minhas sobrinhas parecem avessos a gerar rapazio macho.
Definitivamente, a segunda-feira volvera-se-me vitoriosa, poalhada de grácil
glória, nimbada mesmo de uma algo desaforada ilusão de perpetuidade.
E
quanto ao tal telefonema matinal de tal Amigo? Era a dizer-me que O RIBATEJO acaba em papel a partir desta
mesma edição. Mágoa & impotência: foi o que senti (e sigo sentindo). Este
Jornal foi o meu mais seguro porto, o meu mais hospitaleiro abrigo – durante
onze anos, um mês & nove dias (a partir, precisamente, de 25 de Maio de
2007). Um mero riscar de fósforo à chuva. De mil pequeninas mortes, enfim, se
faz cada existência. Mais: o mundo não pertence aos sérios, pertence aos
espertos; a realidade não se pauta pela honestidade, mas pela manha; e o tal
pão-nosso-de-cada-dia não é de quem o trabalha, mas de quem o usurpa.
Em
papel ao menos, O RIBATEJO acaba hoje
& aqui. Só posso, agora, deixar aqui um derradeiro sinal de gratidão às
pessoas que ao longo de quase 33 anos fizeram o Jornal, honrando-me
profundamente ao me considerarem como uma delas. A esses grandes profissionais
sou todo grato – a eles e aos/às Leitores/as, que alguns tive por & para
minha boa-sorte. Saudades de Coimbra a todo o Ribatejo.
A
senhora muito bela passou sem deixar nome – mas a minha novel Sobrinha-Neta
nasce em Dezembro. Oxalá que a 25.
30/06/2018
PEDRO CANAVARRO: UM ESPELHO PARA O FUTURO - Rosário Breve n.º 561 in O RIBATEJO de 28 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt
Pedro Canavarro: um
espelho para o futuro
Como
prometido, a crónica desta semana resulta da minha leitura do livro intitulado A Única Coisa que Fiz Foi Viver. A obra
é, estruturalmente, um diálogo; essencialmente, é uma memória autobiográfica.
As voltas do diálogo acontecem a mote das perguntas que Yann Araújo (nascido em
1979) houve por bem colocar a Pedro Canavarro (nascido em 1937). A leitura do
resultado de tal encontro entre estes dois homens é muito branca, digo, muito
clara – digo mais: e, não-raro, luminosa.
Posto
isto, retomo da sabença popular um
adágio assaz empírico: “Não há bela sem
senão.” Assim sendo, passo a referir de imediato o único senão com que esta publicação me
confrontou. Ele é: apesar da promissora nota
constante da ficha técnica do livro (“O
autor não adopta o novo acordo ortográfico”), o texto final está infestado
de barbarismos acordistas. Tal
profusão de incorrecções macula inapelavelmente a elegância das palavras
memoriais do entrevistado. Os exemplos são, infelizmente, mais do que muitos.
Enumerá-los aqui truncaria, em espaço tipográfico, esta crónica. Digo apenas:
na eventualidade muito desejável de uma segunda edição da obra, deve ser tida
como primacial uma revisão total & cabal do texto. Repare-se que até por
isto: há gralha gravíssima na página
62. O “Professor” nela referido não pode ser Luís Miguel Cintra. Não pode. É
grande actor e grande encenador, mas não pode ser ele. Trocaram o filho pelo
pai. Só pode ser Luís Filipe Lindley Cintra, este sim, figura gigante da história
pedagógico-cultural portuguesa. Errar é
humano, enfim.
Quanto
à bela, o livro é deveras uma beleza.
Este homem Pedro Manuel Guedes de Passos Canavarro, ribatejano de íntegra &
ínclita gema, discorre sem soluços a propósito de seus/dele primeiros oitenta
anos de vida. O fio narrativo é linearmente cronológico – Infância e Juventude; Percurso Académico; Do Japão à Docência, da
Museologia ao 25 de Abril; XVIIª Exposição de Arte, Ciência e Cultura; Política
Nacional – PRD; Política Internacional – Parlamento Europeu; Arte, Ciência e
Democracia – Fundação e Casa-Museu Passos Canavarro.
Do
tudo disto, que pouco não é, ressalta a evidência de Pedro Canavarro
configurar, a olhos tão vivos quão nus, uma espécie de numismática efígie – que
no caso, e para mim, é moeda de uma perpendicular dignidade senatorial. É um
campeão moral. Ou por outras palavras: o homem é de forte delicadeza, de
desassombrado espanto, de orientalizado ocidentalismo, de irmanado conluio
entre Beleza & Perigo – e nostálgico de um porvir que,
trazendo embora a morte, só pode (por)vir a reiterar a autoritária & serena
concertação de um amador da vida em paz com ela.
Pedro
Canavarro é homem que não desconhece o espelho: Narciso não lhe é estranho. Mas
se todo o dom da memória é autobiográfico, não será narcísica toda a lembrança?
Será. É. Não há nisso pecado. Todos certamente morremos – mas deveras vivemos
todos? Posso garantir-vos que Pedro sim.
Esteta
da tranquilidade, acalmado epicurista. Alma que se não esqueceu de ser corpo.
No fundo como à flor, um conservador de periferia esquerdo-humanista. Mordomo
só de si mesmo, amo de sua casa, benigna reencarnação talvez de um Wenceslau de
Moraes. Cultor de benignos fantasmas, apreciador de vagaroso chá na
contiguidade de roseirais.
Concluo:
o livro é bom, a obra é útil, a vida é muito meritória. A página 23 é modelar.
Nela se evoca a primeira recordação vital de Pedro quando menino. A uma janela
de rés-do-chão, numa praia do Norte, assiste em deslumbramento a “Uma festa, uma procissão, com banda, flores
e andores.”
Esse
menino tem hoje 81 anos, completos que foram a 9 de Maio último. Tudo me leva a
crer que, daqui a mais 19 anos, Santarém e o País terão tudo para comemorar o vivo
centenário de uma criança que, desde sempre, tem preferido pessoas a brinquedos.
E com tal não se brinca. Assim seja.
MANHÃ TODA SCALABITANO-COIMBRÃ - Rosário Breve n.º 560 in O RIBATEJO de 21 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt
Manhã toda
scalabitano-coimbrã
1
Às 9h33m da manhã de sexta-feira, 15 de Junho de 2018, cheguei à paragem-de-autocarros que fica ali ao sopé do restaurante chinês e da escola de dança. (Nota: a mesma paragem do desmaio da rapariga grávida que consta da crónica de 7 de Junho passado.)
Às 9h33m da manhã de sexta-feira, 15 de Junho de 2018, cheguei à paragem-de-autocarros que fica ali ao sopé do restaurante chinês e da escola de dança. (Nota: a mesma paragem do desmaio da rapariga grávida que consta da crónica de 7 de Junho passado.)
Abordou-me
então uma senhora já outonal, já provecta, já mais lembrança do que
planeamento: “ – O senhor sabe dizer-me
se temos autocarro daqui a pouco?”.
Eu
sabia: “ – Só daqui a dezassete minutos,
minha senhora.”
E
ela, muito expedita: “ – Então vou indo a
pé, que tenho consulta no centro de saúde para renovar as receitas na minha
médica, fui há dois meses operada à tiróide, sabe?”
Eu
não sabia. A dita paragem alcandora-se a um íngreme cimo de ladeira, pelo que
todos os santos nos ajudaram, a ela & a mim, a ir descendo. A senhora não
era tagarela – era interessante, pelo contrário. Muito interessante, aliás:
antes dos primeiros semáforos, já em terreno plano, aprendi ser ela uma senhora
nascida & criada em Santarém (“ –
Perto da Escola Agrícola, sabe? ”) mas radicada em Coimbra há para cima de
quarenta anos. Eu quis saber porquê.
E
ela: “ – Ora, porque o meu marido era de
cá, morreu muito novo, tinha 57 anos só, foi do cancro no pulmão, mas em novo
foi interno dum colégio em Tomar, nas licenças vinha aos bailaricos em Santarém
– e foi assim.”
Aprendi
mais: viúva ainda não velha, trabalhou muito para criar os três filhos como
manda a sapatilha – dois são formados e estão bem postos na Função Pública, o
terceiro trabalhava com o pai mas pela morte deste decidiu ir para Londres, onde
também se acha senhor da própria vida com casa, mulher & filhos. Fiquei a
saber ainda duas coisas mais.
Primeira coisa – Certa vez, ela
foi a um médico-especialista (não perguntei de que especialidade, há sempre que
ser cavalheiro). Vai o médico gentilmente assim para ela: “ – Então que faz uma senhora scalabitana cá por Coimbra?”.
E
ela: “ – Ora, senhor doutor, o meu marido
era de cá, morreu muito novo, tinha 57 anos só, foi do cancro no pulmão, mas em
novo foi interno dum colégio em Tomar, nas licenças vinha aos bailaricos em
Santarém – e foi assim.”
E
o gentil doutor assim para a gentil viúva: “
– Sabe a senhora?, também sou de Santarém, sou filho do doutor Manuel(…), que
toda a gente do seu tempo conhecia por lá.”
Claro
que ela reconhecia o dito clínico santareno, garantiu-lho. E ambos se sentiram
migrantemente felizes pela coincidência natalícia que em terra emprestada os
reunia.
Segunda coisa – Aos dezassete
anos, esta jovem hoje antiguecida esteve para ser toureira. Teria sido fresca
novidade, à época. Por pouco não rompeu o marialvismo macho da cornúpeta
tradição. O senhor Celestino G. achou muito bem. Chegou a correr publicidade
por jornais e rádios a estreia da menina lidadora de redondel. Só não aconteceu
porque o senhor pai dela, pretextando não lhe poder (ou querer) comprar os
sapatos mágicos indispensáveis ao toureio, a ter na prática interditado de tal
brava aventura. Todavia, foi sem lágrima coagulada na voz que me relatou isto
assim: “ – Foi o que foi, passou-se
assim, está & é passado.”
Chegáramos
entretanto à porta do centro de saúde. Agradeceu-me a companhia & a
audição. E saiu-se-me com esta matadora
finalização: “ – Agora veja lá de que
maneira vai o senhor apresentar isto nO RIBATEJO…”
2
Julgais que o scalabitanismo da minha manhã coimbrã se ficou por aqui? Se sim, mal julgais. É que, já pela hora de almoço, vim a casa saber se me sobrara sopa da véspera. Antes, abri a caixa-de-correio. Suave maravilha: dentro, morava um envelope grande & fofamente blindado. Era um livro. Este livro: A Única Coisa que Fiz Foi Viver, memória autobiográfica do Dr. Pedro Canavarro (em diálogo com Yann Araújo). Ainda não chegara a tarde e já o meu dia estava duplamente ganho.
Julgais que o scalabitanismo da minha manhã coimbrã se ficou por aqui? Se sim, mal julgais. É que, já pela hora de almoço, vim a casa saber se me sobrara sopa da véspera. Antes, abri a caixa-de-correio. Suave maravilha: dentro, morava um envelope grande & fofamente blindado. Era um livro. Este livro: A Única Coisa que Fiz Foi Viver, memória autobiográfica do Dr. Pedro Canavarro (em diálogo com Yann Araújo). Ainda não chegara a tarde e já o meu dia estava duplamente ganho.
Da
minha minuciosa leitura desta obra V. darei conta na próxima edição.
Palavra-da-salvação.
15/06/2018
FALA O ENFERMO - Rosário Breve n.º 559 in O RIBATEJO de 14 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt
Fala o enfermo
Tenho
sido por estes dias (com suas precárias noites) o alvo involuntário mas
resignado de um episódio febril mancomunado com um foco infeccioso em
determinada reentrância do corpo, muito jeitosos ambos. Fui às cordas mas não
atirei a toalha ao chão. Na mesinha-de-cabeceira, o costume: chá, comprimidos
anticoiso, uma carrada de lenços-de-papel amarfanhados de muco & de vagidos,
canjas repetidas como ideias fixas & a pagela do Santo Irmão Doutor Souza
Martins – tudo através da minha vaga desesperança dos dias saudáveis consolidada
no egoísmo-coitadinho-do-doentinho.
Isto, é claro, incha, desincha & passa. Há tão-só que aguentar com pachorra
de santo estas veleidades do diabo. E há que ser homem vertebrado – o que aliás
nem é grande ideia, já que me doem & rangem quase todos os ossos do corpo.
Consequência
fatal: nestas condições, o corpo dá ainda muito menos trela ao mundo exterior.
Quero dizer: como já sou, em estado são a 37.4 Cº, um pessimista relativizador
dos absolutos absurdos do famigerado politicamente-correcto,
não é por agora estar com quase 39 graus que vou dar importância à rábula dos compères Croquete de Washington & Batatinha
de Pyongyang. Do Sporting pelas ruas-da-amargura, já disse o que tinha a
dizer. Pior: só na terça-feira passada tive acesso postal à edição em papel
deste V.º Jornal.
Foi
na cama que o recebi e assimilei. Não é porém o meu comentário dele que
interessa – é o que ele suscita de reflexão aos Leitores mais esclarecidos, que
os há e felizmente não tão poucos quanto isso. Marcelo na Feira? Passo.
Barreiras/EN 114? Ninguém passa. Benavente/Quercus/nove autarcas? Não me
surpreende. Falta de enfermeiros em Santarém? Pois. Sumiço do tartan de Riachos? Se não fosse triste,
daria para rir. Só espero que não o tenham transformado & levado para
Alcanena, onde apareceu um sintético dado como novo. Para piorar tudo (mais
ainda), temos o sinapismo do Mundial
à porta: Cristiano, Cristianinho, Dolores Aveiro, treinos da Selecção ao mais
enjoativo milímetro, mordomias de hotel, fait-divers
parolos sobre aquele rincão da Rússia a partir do qual os nossos jogadores recebem uma escandalosa batelada de euros por dia
etc. etc. etc.
Sim,
estou doente. Reitero: a paciência, que nos dias normais me é já tão pouca, só
me dá para vir aqui enfermar, não para informar. Tenho canja nova ao lume.
Consegui um ramito de hortelã para ela. Todavia, a própria água-mineral me sabe
a xarope rançoso. Os professores deste País são roubados pelo Governo do mesmo.
Ainda tenho mel para a infusão de camomila. Desconheço qual foi o bocado de
parede que tenha caído hoje no centro velho da Capital do Ribatejo. Caio eu. De
cama, claro – e tendo por única luzinha-ao-fundo-do-túnel a vela acesa ante o
benévolo & milagreiro rosto do Santo Irmão Doutor Souza Martins, esse sim nosso, muito mais nosso do que Marcelos
feirantes de cá perto e do que Croquetes
& Batatinhas de lá, felizmente, longe.
08/06/2018
ANDAMENTO DO RESULTADO (SEM TEMPO PARA DESCONTOS) - Rosário Breve n.º 558 in O RIBATEJO de 7 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt
Andamento do resultado
(sem tempo para descontos)
Foi
há quarenta anos. Era partida de futebol a contar para a Zona Centro da Segunda
Divisão Nacional. No entretanto demolido estádio municipal cá do sítio, União
de Coimbra 0 – União de Santarém 0. Resultado justo para o que se passou em
campo. Estive na bancada. Começava eu então a deixar de ser menino. Foram
noventa minutos contemporâneos do princípio do (meu) mundo – pois que ninguém
grave me havia então morrido.
Dezoito
anos volvidos sobre esse manso empate, fui eu a deslocar-me à capital do
Ribatejo. Movia-me lá o propósito de uma entrevista com determinado familiar
directo do maravilhoso doutor António Martinho do Rosário, vulgo Bernardo
Santareno. Obtive a entrevista, que depois radiodifundi para memória, que eu
saiba, de ninguém. Santarém 1 – Coimbra 1.
Bem.
Passados que foram oito anos mais, e algures nas imediações da tão
mal-aproveitada Scalabis, jantei com
& a convite de duas jovens senhoras muito bem-postas: Santarém 3 – Coimbra
2. Nesse mesmo anuário, comemorei livrescamente o 30.º aniversário do 25 de
Abril no jardim-feito-Casa do doutor Pedro Canavarro (cujo recente livro ainda
não tenho mas hei-de ter). Tal foi lá em cima, onde o Sol abre de si as Portas
– Santarém 4 – Coimbra 3.
Do
tudo disto, (re)tiro & (res)guardo o pequeno-nada de ser verdade tudo. Não
me acrescento nem me subtraio: são coisas que, minhas, a outros pertencem
também. O ponto está em esta crónica me devir rectilineamente da edição passada
(31-5-18) dO RIBATEJO. A manchete desse
fértil & festivo número foi: “A Feira
está mais ribatejana”. Bom. Ainda bem. Entretanto, e na página 14 da mesma
publicação, o meu amigo Arnaldo Vasques cronicava, a benigno preceito como
sempre, sob este título: “A nossa Feira”.
Como na comum & global vida, presente & pretérito mesclaram-se. Ninguém
conhece o porvir – mas o presente é iluminável sem dor mercê de lâmpadas
passadas, cuja luz é incapaz de fazer mal a quem não ande aqui só para usar na
moleirinha um daqueles chapéus-há-muitos-ó-palerma!
Eis pois que, portanto, Santarém 5 – Coimbra 4.
A
presente & corrente crónica poderia, já & por aqui, dobrar a finados de
si mesma – mas não dobra, que eu não deixo. Tenho mais dela, e por ela, a
dizer. Digo: não fui este ano à Feira do Ribatejo. Não pôde ser. Outro ano
será, espero. Perda minha: Santarém 6 – Coimbra 4. O facto é eu viver, hoje em
dia, outras feiras. Mormente, a feira-do-quotidiano. Hoje mesmo, ao
rés-vés (e ao revés) do primeiro autocarro da manhã, uma rapariga branca como
um lírio & grávida como um pote deixado à chuva, desmaiou na paragem dos
autocarros. Socorremo-la todos, atrapalhando-nos de aflição uns aos outros. A
em-breve-mãe recuperou sangue, tensão & consciência, agradecendo-nos a todos
o susto & o préstimo. Santarém 6 – Coimbra 6 (o feto também conta).
Termino
sem cansativo prolongamento. Assim: pela mesma edição passada deste V.º Jornal,
fiquei a saber, a páginas 41, que a União Desportiva de Santarém (UDS) “segue em frente rumo à subida”. Muito
bom. Muito bem. Já o recorrente, atento & atencioso leitor Rudi B.
comentava, a propósito, que “vamos lá a
ver se será desta que a UDS ganha asas para pousar nos campeonatos nacionais”.
Oxalá. Nota daqui: o meu emblema local foi rebaptizado Clube União 1919. Tem a ver com a bancarrota a que alguém (ou alguéns) levou o mui formoso & mui
operário Clube de Futebol União de Coimbra. Ainda não temos equipa sénior, só
camadas jovens – mas lá iremos. Cá estarei, nos entretantos, para novo
vitorioso empate entre a Santarém que é minha & a Coimbra que faço Vossa.
Parafraseando: cidades que, minhas, vos a Vós pertencem também, ainda, desde
& para sempre. Ninguém perde. Ganhamos todos.
02/06/2018
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