Thursday, April 05, 2018

FAUNA - Rosário Breve n.º 549 in O RIBATEJO de 5 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Fauna



Dois antigos na paragem do autocarro comentam a abertura da época da caça: IRS, IMI, recapitalização da banca privada à custa do contribuinte público. Envergam ambos roupa bem lavada, calçam com distinção. Um é de face rubicunda, que trai dele a vocação de merendas bem avinhadas. O outro é mais enxuto de carnes, perfil mais inteiriço, deve ter sido tropa de carreira.
A luz apaga-se, reacendendo-se instantes depois. No lugar dos dois maduros, duas idosas agora em cena. Uma, de saco com gerânios plásticos de campa fúnebre, quatro velas em bases roxas com furinhos crucifixos: ar de santa-viúva, lavadora extremosa do mármore de seu falecido, resignada adoradora de cinzas. A outra, de pernas arqueadas que a fazem gingar como barca ancorada em joanetes. Falam sem se ouvir uma à outra – de doenças, consultas, operações & demais deliciosas aflições.
Uma nuvem mais densa obscurece-as, dissolve-as, dissipa-as, rouba-no-las. Em lugar delas – e para nosso mor benefício -, uma moça se incorpora. Maravilhosa incorporação. Bonita de mais para ser alvo de cobiça sexual. “Ideal para namorar aos domingos”, como dizia um conhecido meu. Deveria ser emoldurada – mas só para exibir em sonhos. O senão desta bela é um defeito horrível no dedo: anel-de-noivado.
O projector estremece, esmaece, entenebrece: já na vez da formosa se insurge um arrumador de estacionamento. Avelhentado de muito pacote de vinho-de-cozinha & de muita sandes de pão-com-pão. Amarelidão de outono hipodérmico com garrote – mas rijo qual erva-daninha em interstício de calçada. Orgulhoso, é sem agradecer que me aceita o cigarro. Águia apeada que o vento não leva.
Mas que novo apagão de cena leva, sim. Quatro adolescentes, agora. Macambúzios. Autistas de smartphone, que matraquilham velocissimamente. Nenhum conversa com ninguém. Calças rotas de propósito, dentes agrafados por cremalheiras ortodônticas: arrumadores do futuro.
Um cavalheiro de lábio-leporino fende o ar da fala como a serpente assobia. Escuta-o mui solicitamente um que é solicitador, tirou o curso depois de reformado da Marinha Mercante, tem valor, aprender até morrer.
Dois bêbedos maravilhosos ziguezagueiam da esquerda-alta à direita-baixa da cena tablada. Um assegura Deus, o outro bebeu como o Diabo. Pertencem ambos a essa feliz eternidade d’inda-não-ser-amanhã. Um traz chapéu na cabeça mas é do amigo a cabeça, que aliás nem chapéu usa. O pior-da-vida é a gasosa no vinho e que as nossas mulheres fiquem viúvas. E que as nossas mulheres, ficando viúvas, nos lavem o mármore com água. E se auto-santifiquem e nos plastifiquem de gerânios.
Nisto, ressuscita em palco o arrumador-de-carros. Traz uma orelha murcha & uma narina esgalhada: algum tóxic’olega lhe bateu por vinte cêntimos que estavam no chão como Portugal também esteve entre 1926 e 1974. Não se queixa. Traz moedas q.b. para uma sandes de iscas & um martelo de branco. Quase exulta. Águia devoradora de vísceras.
E ainda: quatro vezes magra como quatro canas, uma senhora leva dois dedos à gaiola do peito, inquieta pelas intermitências arrítmicas do coração. A dois metros dela, sozinho no mundo como a Lua, um chulo de viela mijona escarra um esparadrapo amarelo da textura, da consistência & do volume de um ovo-estrelado.
Um casal de cegos (não-esmoleres) tirita o morse do chão com bengalas de alumínio extensível.
Uma mãe de gémeos em carrinho-duplo anuncia ao mundo a duplicação do mundo.
Foi produtiva, a manhã. Para que a solidão do espectador não seja tão vincada, água & sabão nas lentes oftálmicas: é tudo quanto o teatro do quotidiano requer. A fauna humana é inesgotável, haja lápis que a circo-inscreva. A grande maravilha não é o que as pessoas dizem – é o que pensam calar. Não é o que mostram – é o que julgam esconder. Qualquer lápis decente sabe isso.

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