Thursday, March 01, 2018

MARIA & MAIS NINGUÉM - Rosário Breve n.º 544 in O RIBATEJO de 1 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt








Maria & mais ninguém



Entre princípios & fins do século passado, nasceu, viveu & morreu a senhora minha Tia-Avó Maria da Conceição dos Santos.
Morreu de fome – esclareço. Atenção: de fome, sim – todavia não por miséria, pois que um cancro gástrico a extinguiu, condenando-a à impossibilidade de absorção nutritiva & queimando-a, por dentro, de carvões frios cuja brasa gelada a filtrou até à última transparência da cera. Eu vi isso acontecer, foi mesmo assim, acreditai-me Vós por uma vez na vida.
Herdei dela a cama-de-ferro em que dormi a adolescência, essa terra-de-mais-ninguém daquela idade em que todos somos a única pessoa viva & importante do mundo.
A minha Tia-Avó Maria era uma proscrita: nascida virgem & solteira, solteira morreu mas sem já o outro atributo hímen-original. Consta que namorou fisicamente algum inconsequente aproveitador de seus/dela mucosos vinténs. A família (minha: mas anterior ao meu nascimento) soube dessa cópula infeliz & estéril – e nunca lhe perdoou o devaneio, ostracizando-a inexoravelmente sem sombra de perdão: o fascismo vestia chita.
Morreu sozinha como um cão feminino numa casita miniatural de sem-marido, ou tugúrio de boneca sem príncipe, que eu visitava aos sábados dos meus 17 anos sem atender a cadastro sexual, sem inquisição católica & sem resquício sequer de censura moralóide. Talvez me atraísse nela o meu próprio retrato futuro: este de cão masculino auto-exilado em casota mental.
O irmão dela, pai da senhora minha Mãe, nunca a visitou sequer uma vez, como eu tantas vezes fiz: que a terra lhe seja, a ele tal bruto, pesada como chumbo.
E no entanto a minha pobre Tia Maria permanece como a mais alta glória cinematográfica do meu clã: é dela a voz agudinha que se ouve, em pregão cantado, no filme portuguesíssimo chamado Capas Negras [de 1947, com realização de Armando de Miranda e protagonizado pelas maravilhosas pessoas & vozes de Alberto Ribeiro & Amália Rodrigues, naquela cena da Estação Velha (ferroviariamente falando, Coimbra-B actual)]: era ela, na vida dita real, a vendedeira de arrufadas de quem, na dita película, se escuta o chilreio de ave fininha.
Recordo ante Vós a casa-de-boneca que era a dela: ao fundo do Lagar Velho, na propriedade dos Rodrigues, e à esquerda de quem desce a caminho do Cardal cemiterial onde há muito dormem (o sono de que se não acorda) os meus Pais & o meu Irmão, dava para uma eira gretada de ervas sem jardineiro – mas além da qual vicejava uma horta farta miraculada pelas humílimas verduras da terra nutriente & portuguesa: couves, nabos, o episcopal & rubicundo tomate, a terna & tenra alface, a leira de batata gorda que os porcos adoram e os humanos não desestimam.
Entrava-se naquele casinhoto celibatário pela cozinha imediata, acabando-se de imediato a visita no quarto-de-dormir mais sozinho do mundo, esse onde branquejava, qual cisne negro da solidão mais irremediável, a tal cama-de-ferro lacrada a branco-cor-de-asa-de-anjo que depois herdei mas hoje pertence ao meu Irmão Fernando, gémeo do extinto Jorge nosso.
Na cozinha de livro infanto-juvenil para duendes, gnomos invisíveis haviam pregado ripas de pinho, das quais se penduricavam utensílios cozinheiros de menina-velha: o pucarito esmaltado (como esmaltado no quarto o bacio), o tachito breve para aqueles arrozes-brancos que provisionam o jaquim frito, a panela mínima em que ela, da horta, fervia a couve em ração de anã, a faiança cromada de rosas cerâmicas abrilhantada pelo filete-de-ouro do pintor-porcelanista anónimo que o senhor meu Pai toda a vida foi – e a colher-de-pau do tempo da Senhora Dona Maria II. A todo este enxoval presidia a litografia glauca que perpetuava a efígie do senhor Papa Paulo VI.
Paulo VI veio à Cova da Iria em 1967. Foi pelo meio-século da falcatrua fatimista. Na cozinha da minha Tia, porém, e sem que sumopontificemente o pudesse ele augurar, o Papa presidia também ao vero pretexto que a casa de Maria da Conceição dos Santos me levava cada sábado: namorar T., sobrinha do senhorio. Essa adorável T. era uma rosa vertical erguida a partir de dois caules-pernas, factor anatómico que a volvia flora ambulatória. De olhos enormes como lagoas expostas a um luar de prata para que ainda não fora inventado adequado firmamento noctívago, manteve-se pura & ilusória à maneira daqueles natalícios globos de cristal que basta agitar para que a neve & o Natal suspendam perpetuamente os sais e os flocos da mais pueril felicidade eterna. (É certo porém que, no viço nubente, T. acabou casando-se numa cidade estranha com um rapaz fininho, católico como ela, cujas presteza & decência até hoje eu seria incapaz de emular – de modo que.)
Tinha-lhe passado a fome terminal: de modo que inumámos entretanto a senhora minha Tia-Avó em tão campa tão rasa (ou tão rosa) quão os já nonagenários três nomes dela para ninguém. Levei-lhe papoilas ao mármore.
Tenho pensado entretanto na casita que ela deixou devoluta. Talvez se T. voltar desquitada, não sei, sobrinha que continua do senhorio, ali ao Lagar Velho, não sei, sei lá, lá onde a eira, a horta, os fantasmas das bonecas e o pucarito de esmalte, tudo a que eu aporia logo a cama-de-ferro que um dia destes o meu Irmão Fernando vai ter de me devolver, talvez, não sei bem, Maria.


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