Thursday, March 09, 2017

ENDECHAS ORGULHOSAMENTE SÓ PARA PORTUGUESES - Rosário Breve nº 496 - in O RIBATEJO de 9 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt



Endechas orgulhosamente só para Portugueses



1 Havia a Caixa das bolachas e havia a Lata das bolachas.

As da Lata eram para os filhos.
As da Caixa eram para quando a Avó vinha.
Seguíamos a Mãe: nós filhos nunca tocávamos nas da Caixa.
É talvez isto que é preciso dizer à ladroagem bancária destes dias.
Pena é terem Avó & Mãe morrido já.
Continua a ser preciso ter lata, todavia.


2 Outra coisa que havia, ou passou a haver desde 1975, era Angola independente. Ao empate técnico da guerra, sucedeu-se o reconhecimento, inevitável aliás, da auto-determinação. Mas o povo Angolano não é independente, nada disso, longe disso. O colono de agora é apenas da mesma cor da pele. Uma família com uma quadrilha de “generais” – e está a plutocracia consumada. Mais me custa ter morrido cada homem, preto ou branco, entre 1961 e 1974 – para esta nefanda cleptocracia.

3 Daria dinheirinho, que nunca tive, para ler o mural do Facebook em, digamos, 1940, ano da Exposição do Mundo Português. Gozão, saborearia a preceito os dislates de pasmo, baba & ranho dos meus compatrícios ante as maravilhas de gesso & papelão dos pavilhões imperiais. Em secreto ficheiro, faria copy-paste das hashtags tributárias da magnificência do nosso “Império”, do nosso messiânico Salazar, do nosso nunca desmentido fascismozito-de-paróquia, do nosso Portugal-dos-Pequenitos-do-Minho-a-Timor. Mas quando éramos miúdos não havia Facebook. Havia os nossos Pais vivos. Aprendia-se muita coisa na mesma, que carago.

4 Parece que escrevi um palavrãozito. Já não vou a tempo de substituí-lo por alguma interjeição mais branda. Fica assim. No devido contexto, o calão é-nos tão natural quão uma tachada de feijoada, uma travessazorra a transbordar de cozido, o contentor inchado de lixo a deitar p’ra fora – ou uma écloga definitiva de Camões. Repare-se nisto de o reeleito presidente do Sporting Clube de Portugal ter blasfemado – ou bardamerdado os infiéis ao Leão. Mal nenhum, acho eu. Francamente: mal nenhum. É português, é só nosso. Antes isso do que ser gago. Independentemente de qualquer contexto, a portuguesíssima palavra "bardamerda" não tem rival. Aquilo da "saudade"? A saudade que vá bardamerda.

5 Não faço a mínima ideia do que sejam dez mil milhões de euros.

Não faço a mínima ideia do que sejam mil milhões.
Não faço a mínima ideia do que seja um milhão.
Mas de um gatuno, ah sim, tenho ideia.
De um vezes dez milhões deles.

Porquê? Fácil: porque somos dez milhões de pequenitos que, podendo, roubaríamos também o nosso naco em detrimento do vizinho, quiçá do próprio irmão. Ou do nosso filho, roubando-lhe o neto. Se vos parecer cru isto que digo, ainda bem. A factura falsa é a nossa vocação, não a reivindicação de um fisco mais justo, mais equilibrado, mais pertinente. É como dar uma moeda de dois euros para a-fome-em-Angola. É ou não é? É pois. Ou como ter saudade do tempo em que já tínhamos ido bardamerda mas não sabíamos, como ainda hoje não sabemos e como amanhã nos não lembraremos.
Que carago.




No comments: