Thursday, July 21, 2016

Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



De milhões & anos aos trinta de cada vez



1 Se, como desde sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os 77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser, isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já deste Excel muito giro de 30 milhões/30 anos.
Quê? 929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril irresponsabilidade dos miúdos camarários.

2 Entrementes, Passos Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos & da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.

3 Mas por ora, aí o temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa conjuração de violetas à la pintor paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar & platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.

4 Por falar em vida, não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas & milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa & finalmente, em branco.  

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