Thursday, July 14, 2016

Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



Crónica chocalhante



Raramente vou a hipersuperfícies comerciais. Aliás, nunca vou – levam-me. Não é por religião, não é por intelectualite – é só porque não & apenas porque sim. Quando quero ver rebanhos, vou à serra ou ao campo. A frívola transumância humana não me atrai. Na terça-feira, todavia, lá fui a uma hipercoisa dessas. Fui, não – levou-me a senhora minha mulher.
Era o que tinha de ser: um antro plástico cromado, espécie de nave colossal cujas entranhas estão fechadas ao sol. Roupa com palavras inglesas. Crianças clonadas a partir de matrizes tv-formatadas. Casais-carrinhos, todos com evidências de terceiras ou quartas-núpcias. Velhas pintadas como galos-de-Barcelos. Avôzinhos que vêm trocar dois meses de reforma por um par de sapatilhas xispêtêó para o netinho-nike. Máquinas rápidas. Salários-mínimos basbacando ante montras de inutilidades faustosas. Cuecas de marca mais caras do que o meu fato de casamento. Balões sem infância. Nenhuma igualdade, mas tudo igual. Tudo idêntico, mas sem identidade. Aborreci-me.
O paliativo foi ir para a zona dos fumadores, que é na rua. Os imortais, vulgo não-fumadores, ficaram todos lá dentro, enferrujando nos curros inoxidáveis. Cá fora, em torno & no subúrbio dos dois cinzeiros verticais de boca larga, éramos sete.
Éramos os sete: este Vosso servidor, a cavalo de um Camel; mais uma ruiva de mentira-coiffeur que chupava uma palhinha branca de filtro asséptico; mais um gordo de ar triste que levava a cigarrilha-creme à boca como se martelasse uma cavilha nos queixos; mais um magriço com ar de médico arrependido de não ter estudado poesia trovadoresca fumando Português Suave; mais um que trabalha como acordeonista numa escola de cegos & fumador de Kentucky; mais uma mulata esplendorosa (esplendor de rosa) de olhos verdes & de para aí uns sete metros de altura mais uns dois de peito fumando Dunhill; e ainda um rapazito inquieto que esperava acabássemos de fumar sem ser até à beata para poder fumegar, ele também, qualquer coisita.
Era a Modernidade. A Europa. A Social-Democracia-Cristã. O Futuro. O Bocejo. Valeu-me a volta da mulher minha senhora.
Era já o entardenoitecer. A brisa refrescava a visão de salgueiros beira-fluviais. Decidimos não ir logo para casa. Por um destes caprichos que de motivo não precisam & razão não usam, cirandámos a brando gasóleo pelas cercanias pós-municipais. Almejámos um tasco rural onde costumam acender carvão debaixo de peixe fresco. O vinho branco da casa, apalhetado de riscas oblíquas que ouriçam o palato, espuma de capitosa epilepsia pela boca bojuda do jarro de louça. Acampámos cá fora, entre grades vazias e operários cheios de fadiga sã.
Nisto, deu-se música natural. Espreitámos: balindo chocalhos, um rebanho tornava às cortes ao cabo de um dia de prado. Cão & pastor saudaram à passagem – o pastor levando indicador e médio à boina, o cão mijando na roda da carrinha do padeiro.
Pois. É mesmo verdade. Raramente me deixo hipercoisificar. E não é por religião, nem por intelectualite – é só porque nem mé nem meio mé.

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