Thursday, July 07, 2016

Rosário Breve nº 464 - in O RIBATEJO de 7 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt





Ver para querer



Revisito com regularidade o século passado. Faço-o menos por nostalgia do que por necessidade de uma arqueologia crítica do presente. É uma demanda – mas não uma demanda temerária ou templária. Chamemos-lhe curiosidade.
Num clarão, eis-me em pleno Terreiro do Paço. Mataram ainda agora o Rei. A barafunda silva de espadeiradas aleatórias da guarda, de desmaios de senhoras, do tropel caótico dos basbaques. A Rainha esbraceja o ramalhete de flores furiosas. A cena sossega depressa – como tudo neste País.
Noutro flash, ardem ao sol cru os latifúndios cerealíferos a Sul. O território refracta a luz intensíssima: é uma insolação de miragem, uma hipnose eléctrica, um estupor de sobrevivência. Freima de cigarras. Pouquíssima gente – e uma árvore solitária aqui, outra quase em Espanha já.
Amordaçadas as carbonárias e as maçonarias, resultou em pleno o contragolpe católico daquilo de Fátima. Ao frenesi esquizo da I República, sucede a paz podre do cinzentismo totalitário. Embarca-se muito para outros morredouros: áfricas, brasis, cus-de-judas sem retorno.
Mas: Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria? Lisboa. Cercar os mouros. Contemporaneidade de cravos & pides. Não matam o Rei, desta vez. Brandura. Ligeiro desassossego dUSAmericanos, que o Carlucci e o Soares consertam depressa. Europa nos Jerónimos. Primeiras hipersuperfícies. Jornais em sacas plásticas. Inteligências idem.
Ano 2000. Afinal não acaba o mundo. Nem a superstição. Acabam só o século & o milénio. Mais máquinas para comunicar, menos comunicação pessoal. Ensimesmamento da tecnojuventude, autismo dos explorados. Um por cento a lixar os restantes noventa e nove. Ná – melhor voltar ao ponto de partida.
Terreiro do Paço. Levaram já para o Arsenal o Rei, o Príncipe Herdeiro e os dois Matadores. Dão sais ressuscitadores às senhoras. Canadas de aguardente fervem nas tabernas. No Tejo, as barcaças amarradas quási não ondulam. Sabe-se difusamente que alguma coisa mudou para sempre. E essa coisa é o fim da inocência que nunca houve.
Vem a Grande Guerra. Mal preparada, mal equipada, lá vai a expedicionária carne-para-canhão. La Lys. Heroísmos de pandeireta. Anonimato dos mortos aos milheiros. Vem a nova Guerra Grande. Desta vez, a populaça abriga-se na frígida sacristia em que o País se tornou. No campanário, o Mocho-Mor treme: que (des)farão do meu fascismozito de missal? Nada. O penico ibérico das duas ditaduras pode continuar a receber a mijoca da indiferença mundial.
Mas: Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria?
Sim. É com regularidade que revisito as catacumbas. O histórico não é morto. Nem é palavra vã. É preciso saber como foi, como deveria não ter sido. E como pode ainda ser.
Estabelecido isso, é esfregar a vulgata da consciência nas fuças dos Alemães. A começar, pelos Alemães. E a continuar por onde quisermos.
Se quisermos.
Quando quisermos.
 




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