Thursday, June 23, 2016

Rosário Breve nº 462 - in O RIBATEJO de 23 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Querendo, leiam só o ponto 6

1 “Recapitalização”. É novo eufemismo para “reiteração de roubalheira”. Aplica-se, agora, à Caixa Geral de Depósitos. A coisa pública. Até agora, parecia coisa exclusiva dos bancos privados. Aqueles que, havendo outrora lucros, gozavam privadamente deles. Aqueles que, havendo agora prejuízos, gozam publicamente da tal “recapitalização”. Um vento de insanidade devasta sem obstáculos a banca à portuguesa. E vai tudo dar ao mesmo. E vai tudo dar aos mesmos.
2 Uma mulher desconfia de andar a ser corneada pelo marido. Vai daí, afoga o próprio filho de ambos. Não consigo descortinar a relação causa-efeito. É como se, de repente, a realidade portuguesa se tenha posto toda a imitar o Correio da Manhã.
3 Recentemente, uma senhora apontou-me o dedo indicador: “O senhor só escreve coisas pessimistas.” Foi o que o dedo me disse. E eu, que tenho por norma não chamar “idiota” a uma senhora, acabei sofrendo a desconfiança de ter começado este mesmo ponto 3 chamando “senhora” a uma idiota.
4 Sem convite, uma recordação irrompe-me redacção adentro: a daquele dia em que a minha Senhora & eu fomos a Santarém visitar o meu cunhado Zé Carlos. Dei uma volta anónima pelo burgo. Fixou-se-me à retina o lixo, o mesmo que agora é bárbara moda incendiar nos contentores. Pelas ruas, as imundícies voavam baixinho como os crocodilos. Garrafas de plástico. Sacos da mesma matéria. Cascas de melão. Fotografias rasgadas. Livros do Rodrigues dos Santos e do Paulo Coelho. Alarmes internos da Caixa Geral de Depósitos. Classificados de massagistas do tal Correio da Manhã. Esse dia já lá vai e cá não volta. Recordo todavia o regresso: deu-se por terras mais limpas, mais lavadas, menos sujeitas à incúria insensata que propicia comportamentos de intolerável vandalismo anti-cívico.
5 Devagarinho e silencioso como um gato, o Verão acabou chegando. É como se o nosso vizinho Norte de África tivesse de repente escancarado o portal do forno. Toda a gente sabe que Outono & Primavera são coisas que já não existem. A Madre-Natura já só exerce o maniqueísmo: ou invernia agreste, ou estiagem canicular. A moderação temperada esticou o pernil. Sofro pena disso. À brutalidade centígrada, prefiro o que já não podemos ter: a sombra humanista da rendilhada latada de cachos, o suavíssimo favónio beira-fluvial de ir ali com a mulher às cerejas. Mas o real não é dado a versos. Nem para eles caminha.
6 Caminho eu para sábado próximo. Será 25 de Junho. Pelas quatro da tarde dessa jornada, procederei à apresentação pública de um livro chamado Júlio Dinis – As Pupilas do Senhor Escritor. A obra tem autoria do nosso Joaquim Jorge Carvalho, que no também nosso O RIBATEJO assina semanalmente, a páginas cinco, a coluna Zona dos Perecíveis. É a tese de doutoramento deste meu máximo Amigo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acontecerá no esplendoroso Café Santa Cruz, paredes-meias com o vetusto templo do mesmo nome. Em boa hora, por bom motivo. E por à meia-dúzia ser mais barato, neste exacto ponto 6 dou provimento de fecho à crónica – quanto menos não fosse, para contrariar a senhoril idiota do ponto 3.




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