Thursday, March 17, 2016

Rosário Breve n.º 448 - in O RIBATEJO de 17 de Março de 2016

Vale mais dizer isto do que andar no gamanço ou na droga




O mundo é depressivo porque o planeta é bipolar.
Depressivo e deprimente. É, é. Foi o que me ocorreu de imediato, esta tarde, ao içar da leitura de um livro maravilhoso o olhar para a circunstância real-terrena. (Cronicar-vos-ei em breve essa leitura e esse livro: foi escrito por um gigante meu Amigo.) Ímpio e míope, o olhar devolveu-me a existência desfocada do derredor: dois velhotes grasnando que “o Tondela facilitou aquilo tudo aos gajos, olha quem é o Petit”; uma solteirona mais encarquilhada do que uma laranja com celulite tripulando à arreata um caniche feio como o susto e incapaz de perder um pneu para mictório; dois toxiarrumadores filhodaputando-se mutuamente a pretexto, et pour cause, do território a explo’esportu’lar; e, ainda, a minha mesma (má-)consciência de algumas obras & algumas pessoas só serem imortais enquanto eu próprio não esticar o pernil.
Voltei logo que pude à leitura – mas o interlúdio pisara-me as vísceras da desesperança. Pedi outro café, incendiei outro fumante e resignei-me a reiterar o desconcerto sem conserto do triste mundo além-óculos.
Olhai comigo aquele autarcazito: se a honestidade pesasse quilos, este gajito seria um ás da levitação à faquir. E ali, vêde-me bem o mal que parece: um energúmeno elegante (e jovem), que não sou eu, a tiracolo de uma moçoila de peito oblíquo-a-subir que não me conhece nem do jornal, a ignorante da boazona.
Entristeci qual círio em derradeiro soluço de cera. Mirrei como outonal parra de vide pós-colheita. Agravamento: começou a chover do quebrado cântaro de Deus que a dava. Mas não era morrinha melancólica, não era poalha-spray: era diluviosa, a precipitação apressada. Considerei taciturnamente que quando a chuva se excede, é pluviolação que se chama. Mandei vir brandy. Dando de beber a mim mesmo, cometi autogolo. Longo, beijoqueiro, macieiro, tipo mil-nove-e-vinte. Já não perdi tudo. A bebida tisnou-me o sobrecenho, porém. Fui ver, a neve não caía: quedava, isso sim, a evidência de as minhas alegrias maiores serem todas do século passado. Ai que caraças. As maiores tristezas também. Por exemplo: tenho mais vinte anos do que o meu Irmão nascido uma década antes de mim. E eu que sempre, só, a sós, só quis que a minha vida fosse oficina com horta ajardinada à porta. E o periquito da Dona Aurora/repenica a fauna/debica a flora.
A minha vida? Enfim: tenho muita pena mas não tenho pena nenhuma. Se não tenho cartão partidário é porque nenhum partido me passa cartão. E gajas? E gajas? Não frequento talhos-de-alterne. E o resto do mulherio é muito mas não é burro. Olhai-me o casaco. Estão-me a ver o casaco? Não me fica mal de todo, verdade? Pois sabei que me custou 130 euros. Custou-me 130 euros mas deram-me 118 de troco. Foi naqueles da etnia egipsya, não se pode dizer sem eufemismo senão é racismo, numa daquelas contrafeiras de marcas com o crocodilo e assim. Olhai agora, agor’olhai: eu deveria ter tirado o brevet de piloto – aquilo que ali vai não é uma mulher, é um avião. Chiça-penico, ó filho pobre do meu pai nunca rico. Enfim: ante o mar, não procuro a torneira. Deus quer, o homem sonha, a mulher pira-se.
A Maçonaria? Nunca experimentei. É para usar avental? Ora, isso faço eu há quarentas & tais anos sem recurso nem ao Grande Arquitecto nem ao Tomás Taveira, que não é, nunca foi, será nunca, nem arquitecto nem grande coisa.
A Ornitologia? Sim, gosto muito de passarada. Até sei um truque verídico que V. transmito com todo o gosto: sabe-se que o periquito não é periquita pela cor que debrua os orifícios respiratórios a norte do bico. Se for azul, é macho. Se não for, é periquita como aquela pinga maravilhosa de que só ouvi beber os outros.
À visão e aos quatro outros sentidos, vi-me compelido a acrescentar o sexto da memória & o sétimo do esquecimento: aquele para remediar a insuficiência do real, este para perdoar a mim mesmo a ilusão de tão irremediável remédio.
Bem, adeus. Quem gosta muito do Islão são os porcos – entenda-se isto como se quiser. Já os alambiqueiros de bagaço não gostam nada dele. Mundo difícil.
Deprimente. Depressivo. Bipolar. No Pólo Norte, geme o esquimó. No Pólo Sul, é eufórico o pinguim.
E no meio dos dois, vossemecês & mim.  

No comments: