Friday, March 11, 2016

Rosário Breve n.º 447 - in O RIBATEJO de 10 de Março de 2016

Às primeiras



1 Sétimo de sete, quando nasci o meu Pai era já tão velho, que às segundas-feiras estava fechado como os museus. E como os sapateiros. Esse meu involuntário bioanacronismo azedou-me, de pronto, o soro-doce do mamilo maternal, que amorangadamente virginal me seria, não fôra ele aleivosamente pré-chupado pelos prévios seis bacorinhos de minha irmandade. Mal-estremunhado, mais resinoso de remela do que a lagarta-do-pinheiro, dei por mim desta insensata maneira: quanto futuro o meu Pai pôde para mim ontem, hoje um de nós dois estou errado amanhã.
2 A crónica desta semana esteve para chamar-se “As Mulheres de Sócrates & As Minhas”. Acabei por decidir outra titulação. As minhas mulheres não são de abertura-fácil como a compal-de-pêssego. A senhora Mãe do senhor meu Pai foi Joaquina, Esquina em família. Morreu à beira-tempo do meu nascimento. Recordo-a em projecção: por via & de viés da fala do quinto filho dela, primeiro dos meus homens, sétimo & último que dele fui. A tuberculose levou demasiado cedo o marido dela, que foi José. Ela aguentou o barco. Morria-se muito, naquele quartel primeiro do século transacto, de pulmões que o bacilo-de-Koch obrigava a expectorar rosetas de sangue. Ela levou o barco dos sobreviventes à foz das vidas adultas. Gerou, criou, não esperou agradecimentos. A senhora Mãe da senhora minha Mãe foi Cândida – e não só de nome. Sofreu as do diabo amassador. Levou muita porrada, então legal, e natural até, do marido – a quem ainda hoje não chamo Avô. Nenhuma dessas Senhoras pediu milhares de tostões a ninguém. Daí que a crónica haja de sofrer outro título.
3 A realidade é triste por Paris já não ser o que nunca foi: o Montmartre dos pintores trocado manhosamente pela filosofia de um rapaz incapaz de candidatar-se a filho de meu Pai. Sou do tempo do bacalhau-a-pataco. Sou do tempo das conversas-em-família do Marcello com dois ll, aliás padrinho deste de agora só com um. Também sou do tempo em que a dignidade natural parecia o pêssego que não vem da estufa: por ser tão própria à carne como a pele à mesma.
4 Democraticamente falando, sinto-me saturado da pornografia mediática que impregna o Dossier-Sócrates. Sei que a presunção de inocência etc.. Também sei ir com o pai natal e o coelho ao circo. Também sei nascer outra vez. Vou tentar:
5 Quando nasci, a minha Mãe era tão nova, que o amanhã não tinha ainda sido baptizado ontem. As notícias apareciam emolduradas a lápis-lazúli: era a Censura Salazar-Cristã que, ao menos, morigerava as ignorâncias por assim dizer socráticas da ganância mais lerda. Não eram anos mais felizes. Eram dias de aprender a ler-escrever-contar. E as pessoas eram sérias da mesma maneira que as árvores acontecem pardais. A diferença radical entre o filho que vim ser e o Pai que merecer tive, é só esta: as mulheres dele são as minhas. E nunca vão para museus nem falam com sapateiros, ao contrário de coisas tão mal formadas como nem sei se vos falei já delas. Às segundas.


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