Thursday, February 01, 2018

Como quem não rói a corda ou Não é A ou B mas A & B - Rosário Breve n.º 540 in O RIBATEJO de 1 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Como quem não rói a corda
ou
Não é A ou B mas A & B



1 Reza um provérbio árabe que os homens se parecem com o seu tempo. Se o Tempo é um Rio e o Tejo é outro, com que se parecerá, pois, o senhor ministro do Ambiente quando diz que o estado do t(r)ágico caudal é que é o responsável pela coisa toda, ao ser caudalosamente insuficiente para “depurar” (o termo técnico foi usado por ele) “a descarga A ou a descarga B” (cuja responsabilidade facílima de apurar continua, até hoje, precisamente, por apurar – ou por depurar…)?

2 A morte é a mais democrática das leis. Não conheço outra que a supere nisto do igual-para-todos. Mais, ante Vós, me reitero linhas escritas & caminhos pisados: 1) O tempo todo nunca é muito; 2) Os anos acabam sempre por roer a corda. (Sabemos que a água é vida. Sabemos que, no plural, as águas podem ser mortíferas. Desconhecíamos, parece, que elas mesmas eram morta(i)s: cf. Festival da Lampreia de Mação.)

3 O RIBATEJO não é um seminário: é um semanário. Não há por aqui prédicas pró-evangelizadoras do infiel, nem sermões pró-aculturação do indígena. O que há, é gente que pensa a terra sobre que é vertical como horizonte identitário – e quem isto não souber ler, também não saberá ver, posto que ser não sabe, quanto menos estar.

4 Coimbrão que nasci & hei-de morrer, interessa-me muito a iniludível geminação geo-histórico-portuguesa Coimbra-Santarém. Nem sequer é por também, , haver uma Académica; nem sequer é por também, , haver fados & guitarradas ao modo daqui. É mais por termos feito corpo unitário da trinitária divisão da Península Ibérica em Tarraconense (de que Bracara Augusta/Braga), Bética & Lusitana (de que Scallabis, Conimbriga/Aeminium & Pax Julia/Beja). Sim, é isto. Fica dito & feito.

5 Mansidão dos semiloucos por aquestas esplanadas: ao sol não-tíbio de Janeiro, envernizada a verdura pelas chuvas recentes, os esfacelados sociais perambulam seus itinerários de formiga-sem-formigueiro. Ainda agora (10 & picos da manhã claríssima), um deles soliloquou qualquer coisa a ver com talvez-fátima-talvez-futebol – e em/com voz de fado o fez. Tudo certo, portanto, debaixo do sol januário-português. Entretanto, na mesa mais a oriente da minha, quatro mãos envelhecidas. Pertencem a Osvaldo R., aposentado do comércio retalhista, e a Esmeralda T., que foi mulher de Jerónimo B. mas já não é, embora oficialmente Osvaldo continue marido de Estela S., que não entra nesta história (salvé, Carlos Drummond de Andrade!). O atravessado casal meu vizinho de mesa poderia ser apresentado, para V.º mais luminar entendimento, como Osvaldo Descarga A & Esmeralda Descarga B. Com V.ª licença, os sobreditos e não de todo ausentes Jerónimo & Estela farão de descargas C & D.

6 Aquilo da manchete da edição anterior (cf. ponto 3) – “Cabras sapadoras chegam a Alcobertas 8 anos antes de o Governo as descobrir” – fez-me o que a vida nem sempre me faz bem: pensar. Vi-me desejando as bravas & bravias cornúpetas alpinistas como devoradoras não só do naturalíssimo combustível florestal de mais raso chão como de certas práticas autárquicas do tipo deixa-arder-que-não-fui-eu-quem-soprou. E recordei, também a propósito, a mais intelectual anedota que conheço. Esta aqui:

7 Omnívoras, duas cabras pastam em um monturo de lixo. Uma delas caça & abocanha o DVD do filme E Tudo o Vento Levou. Já nos dentes dela se estilhaça a furta-cores o redondel digital quando a outra, curiosa, lhe demanda: Então, estás a gostar?” Ao que a outra, ruminantemente plácida, lhe redargue: Hmmm, gostei mais do livro…”

8 Fico-me por aqui, desta feita. Desconheço de que gostará mais o senhor ministro do Ambiente – se da Descarga A, se da Descarga B. Do Tejo propriamente dito é que parece não ser, ó cabrinhas sapadoras que destas águas não bebereis, roendo porém, como os anos, a corda toda. 

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