Thursday, October 06, 2016

Rosário Breve nº 475 - in O RIBATEJO de 6 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



À vista armada (crónica a olho nu)



Agosto passado, voltei a perder os óculos. Até poder usar uns novos, o mundo volveu-se-me ilegível. Ilegível e ainda mais ininteligível do que de costume. Foram maus dias. Era como, sem ser peixe, habitar um aquário. Na rua, as pessoas (a)pareciam-me como espectros glaucos, o ar ardendo em aura à volta de nódoas escuras que eram as cabeças – um pouco à maneira do povo dos sonhos: adumbrações exiladas de qualquer esperança de nitidez. Da vizinha do quarto-andar, o gato tomou ameaçador & furtivo aparato de tigre. Foi mau. Livros, nem pensar. Internet, adeus. A minha assinatura em papel do noss’O RIBATEJO só trazia fotografias molhadas sob a tutela escarlate do título. O pior passou-se com a minha própria mulher.
Com a minha própria mulher, passou-se que, como eu não a distinguia das outras, comecei a chamar-lhe nomes que ela não tem nem merece. Conseguintemente, passei a dormir exilado na saleta de passar a roupa a ferro. Convivi com meias, pijamas, bonés & camisas que eu já não sabia que tinha ainda. A minha cabeceira foi uma caixa de sapatos sem sapatos mas plena de identidades (e de oportunidades) perdidas. Explico-me: era a caixa de cartões caídos (como eu nesta vida tantas vezes, hélas!) em inutilidade anacrónica por desuso. Revi então as minhas mocidades à-la-minuta:
o meu cartão de xadrezista aos 12 anos pela Académica;
aos 13, o meu passe de iniciado pelo futebol do União;
a quadrícula de director-auxiliar da Tuna, aos 16;
a cédula de pescador fluvial, que acabei por renegar ao descobrir que aquilo era, afinal, uma licença-para-matar;
o meu primeiro BI, amarelidão de documento autenticador mas falsário de uma filiação que por todo o lado, todos os dias & a toda a hora, com ou sem óculos, procuro entre os vivos mas não encontro: o meu Pai, a minha Mãe;
convenientemente roído, o meu certificado de sócio-fundador da Federação Portuguesa de Onicofagia;
o diploma-de-mérito da Sociedade Nacional de Fermentadas & Destiladas;
e ainda, também e finalmente, a certidão de utente da Sopa dos Pobres que ficava ali ao pé da Igreja do Deus-me-Livre.
Chegado o Setembro, a minha Graça condoeu-se. Era muito dia de eu desandar por este triste mundo tiquetaqueando as calçadas de bengalinha extensível de alumínio às risquinhas vermelhas-e-brancas com um cão também cego ao joelho. Comprou-me umas cangalhas novas e mais caras do que os olhos da cara. Lentes progressivas do-perto-ao-longe, muito fixolas, de finas hastes que configuram, no meu rosto de pergaminho, uma iluminura de artista-frade-&-copista. É com elas armadas que V. escrevo.
Olhai ali, por maravilha: beira-rio, os choupos translúcidos filtrafarfalhando a doce luz do novel Outubro. Vêde comigo, além: um maduro de calções pedalando a reforma gorda a cavalo da BTTcicleta de três mil euros, no mínimo três milenas do belo. Assisti Vós ao que ora assisto: pespontando a azul-ferrete a qualidade diáfana da aragem da manhã, uma rapariga clara como a transparência do mais lúcido acetato.
E ainda: o solícito senhor carteiro do meu bairro, portador desta mesma edição do noss’O RIBATEJO, miraculosamente & de novo repleto de palavras que me devolvem uma identidade chamada pertença, esse tipo de pertença ao meu Leitor & ao meu Jornal a partir da qual nem preciso de óculos, por ser, como sempre tem sido & há-de ser sempre, uma coisa de olhos nos olhos.

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