Saturday, February 20, 2016

Rosário Breve n.º 444 - in O RIBATEJO de 18 de Fevereiro de 2016

Lontra-metragem (I & II)

I
Temos aqui na parvónia um amigo que, há anos não estreitos já, passa por uma fase nada boa da e na vida: é macho, está sozinho e quanto mais anseia por fêmea, mais fede ao peixe estragado da falta de predação. Eu & o resto da pandilha passámos a tratá-lo por Laçubra, que é mimoso acrónimo para Lontra do Açude de Abrantes. É cruelzito, sabemo-lo bem – e por isso mesmo nunca mais lhe chamaremos Zé-Tó.
Ele já teve mulher, de quem se deslontrou por causa de ela ter passado de foca a leão-marinho ao cabo de parir cinco crias muito feias, muito cegas e todas desdentadas que só queriam era mamar a-vida-toda-e-mais-um-dia como as parcerias público-privadas. O ele não arranjar rocha nova em que se ponha ao sol(o), deve-se também ao facto de ele se banhar em fossas que, de tão turvas & emporcalhadas, são mais cépticas do que sépticas. Cada transição Inverno-Primavera, a coisa piora: o cio fá-lo chorar onanismos de leite derramado em vão. Nessas alturas de mor pranto, nós-os-amigalhaços nunca lhe falhamos, mimando-o & ninando-o com esta lengalenga: O Laçubra não tem quem cubra! O Laçubra não tem quem cubra! E depois fazemos como na creche: Na-na-na-nãn-nãn-na!-Na-na-na-nãn-nãn-na! E no fim rimo-nos muito dele sem ser p’ra ele e vamos beber copos para nos rirmos ainda mais e prontes.
Na mocidade, o ainda-Zé-Tó era muito bom em natação. Em águas então limpas, era gajo para nadar 4-minutos-4 seguidinhos antes de vir à tona. Agora, à tona é coisa a que ele não vai, por mais que se esganice em excruciantes uivos à lua privada das lontras. Hoje em dia, o Laçubra amostra ao mundo aquele ar de afogado roído pelos crustáceos, em vez de ser ao contrário. Seria de meter dó, caso percebêssemos alguma coisa de música.

II
Com isto tudo do Laçubra, acabei perdendo espaço para o arremedo de crónica que aqui me trazia. Era artigalhada sobre as primatas, perdão, primárias para as presidenciais dUSAmericanos de Novembro próximo. Aquele circo que opõe burros a burros e elefantes a burros. E a lontras. Sim – e a lontras.
É que, em amaricano, Zé-Tó diz-se Donald. Mas a trump é a mesma. Entre gente que se dá ao luxo & ao lixo de imitar em cegueira as crias do Laçubra ao eleger figuras como o Nixon, o Reagan e os dois Bush, a hílare Clinton ainda é capaz de não ter de que se rir – como nós temos do Zé-Tó, cujo traseiro apimentado é nosso refresco. 

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