Thursday, February 11, 2016

Rosário Breve n.º 443 - in O RIBATEJO de 11 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt

Isto se eu fingisse lembrar-me, disfarçasse saber do que falo

1. Das minhas felizes surtidas cometidas às terras de arriba-Tejo, uma assaz recorrente gravura que em retenção memorial se me impõe – é essa de o céu ser mais alto do que em outras (p)aragens do meu País inicial & terminal – vulgo Portugal. É mais alto, esse céu das lezírias subido. Ou mais chã, de diversos chãos, a perspectiva. Outro lance: o da lezíria de húmus-água-verde formosamente perlada a negro pelo touro ainda não chacinado em nome da barbárie chamada “tradição” tão característica de marialvas-monárquicos sem um livro na vida. Outra: as colunas de silêncio vertical subindo o imo da Igreja de Santa Clara, ali à santarena Avenida-de-Gago-Coutinho-e-Sacadura-Cabral, em tri-nave clarissa-gótico-mendicante. Sim: a memória dá-se-me a arquivoltas & a colunelos de rosácea. O esquecimento não usa pintura, nem usa azulejaria, nem sabe o que talha seja – por isso mesmo que a Morte, que nos não esquece, só ao Diabo lembra. Uma retenção mais, com V.ª licença: a de auferir, ao menos, metade da máxima doméstico-epigráfico-heráldica do senhor José Relvas (1858-1929), que “Glória e Vinhos” era. Fico-me pela segunda parte, incapaz da primeira. Assim seja, que assim é. Incontornável lembrança de subido cénico aparato é, ainda, a do Castelo de Almourol (Almorolan em 1129). Dele, as nove torres arredondam outros tantos aparatos de lançamento rumo-espacial – e tantos séculos antes do Cabo Canaveral dUSAmericanos.
(Intervalo agora para nótula romântica: Foi na nabantina Ilhota onde roda a madeira hidráulica do Mouchão que de amor se mutuamente irrigaram & irroraram o senhor Arménio Tomé & sua doravante gentil senhora Lucrécia Vasques. Foi em 1950. Ela era de boa-família, não sendo má a dele. Casaram-se de electrodoméstica vontade, pós o inócuo ósculo semiamorangado de beiços virginalíssimos, na Igreja de Santa Maria dos Olivais que, nos Mil-Centos-&-Tais, Gualdim Pais de propósito reconstruiu para eles-Lucrécia-&-Arménio. O preto-e-branco das fotos esponsais perpetua a mocidade do amor emoldurado pelo pétreo veludo do púlpito de Quinhentos, pelo sorriso transparente de Nossa Senhora da Anunciação & pela sacristia manuelinamente ajanelada. E foram felizes para sempre – durante o sempre até 1981, ano da morte dele, e 1982, marca terminal dela, que sem ele podia mas não queria nem quis.)
2. De Abrantes (a recordação não é minha, é tomada de empréstimo a um pater-avoengo meu, vivo no Ano n.º 130 a.C., que era de gaio nome Caio como o poeta Valério Catulo e que integrou a horda milícia de Décimo Júnio, geralcentudecurião Bruto a valer), isto: o castro lusitano que então Roma tomou à força valia o chão do Castelo abrantino subsequente. A tais politeístas de excelente Língua & Direito forte sucedeu o monofásico Cristianismo, dedicando a Cidade à égide de Vicente & João, santos, as igrejas maiores do rincão.
3. No retorno a Norte (a que sou obrigado por falta de carcanhóis que me permitam aquisição de choupana palafita nas avieiras Caneiras), passo pela Batalha. Já Ribatejo não é, eu sei. Mas é: se arriba, tágide há-de ’inda ser a musa escrita. Ou assim: assim a morte de Mestre Afonso Domingues causa, por obra suplente do catalão Huguet, a derivação de mendicante para flamejante do soberbo estilo gótico, ora já sem Clarissas como no Louriçal. Mas é que já escrevi(vi) sobre essa epifania. Fi-lo assim:
4. - A Secreta Vitória
Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.


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