Coisas
simplicíssimas
1 Junho, aí o temos.
Era antigamente um mês claro, lavado, propedêutico da disciplina do Verão.
Actualmente, é, como os outros onze seus irmãos, uma época híbrida. As quatro
estações, todos o sabemos e reconhecemos, extinguiram-se. Dantes, quase se
podia acertar o relógio por elas. Hoje, o gelo e o fogo partilham o mesmo dia
em uma espécie de desconcerto global que tanto pode provir da degradação do
ozono como das bebedeiras de São Pedro. Tanto dá para tiritar em Agosto como
para estrelar ovos no capot do carro
em Janeiro. Todavia, não me queixo. O que não tem remédio, remediado está. Suporta-se
o que vem. Há coisas que nem a mais fantasiosa imaginação pode contornar. E nós
somos criaturas meteorológicas: um luto faz-nos chover os olhos, uma euforia
faz-nos dardejar canículas ingénuas e inconsequentes. É como se fôssemos todos,
por assim dizer mas não desfazendo, uma espécie de passos-coelhos irremediáveis.
2 Não só o tempo
natural é insensato. Santarém faz-lhe companhia, voluntária e/ou não. Agora, é
o acesso à rotunda do Cnema. O corte do trânsito na Rua O entre o Retail Park e
a sede física deste Jornal parece não ter merecido, aos milhares de
“engenheiros” que desmandam cá na chafarica, qualquer veleidade de sinalização.
Para quem é, nem bacalhau basta. Estas coisas sérias são tratadas como
criancices inimputáveis. A propósito, lembro-me de uma coisa que aprendi quando
andava a ganhar o dia nas obras da construção civil. O patrão da obra,
verificando que alguém, por desleixo ou preguiça ou incúria ou por tudo isto
junto, procedia incorrectamente, atirou a moralidade antes que houvesse mais
história: “Ó carago, olha que demora mais
tempo o fazer mal do que o fazer bem logo à primeira!”. Infelizmente, não
me consta que ele concorra às autárquicas scalabitanas próximas.
3 Enfim. Se calhar,
tudo isto é embirranço meu. Talvez seja. Não é grave. Eu nem costumo andar de
carro pela formosa e desprezada capital do Ribatejo. Quando aí vou, vou de
cavalo rodoviário. À saída da gare, boto-me a pé por praças e vielas. Vou
gostando muito daquilo ali e tendo muita pena daqueloutra acolá. Aproveito os
grandes ares do planalto. Sinto lá longe a pulsação do Tejo. Encontro gente que
é como eu, ao mesmo tempo que faço por ser gente como ela. E confesso: tenho
tido muita e muito boa sorte com o maralhal de Santarém. Como não frequento as
sessões camarárias, o mais é pessoal decente, malta bípede que pensa de pé pela
própria cabeça, usando a boca para dar janela ao que na cabeça se congemina. É
mesmo assim como digo. Nas horas mais sós, ambulo sem pressa nem acertado
destino em périplo aleatório. Vou no vento, gracejo nas tabernas, cheiro a
fruta da hora, miro as esplendorosas mulheres dos outros. Sinto-me português em
portuguesa terra: português para o bem e para o assim-assim, que o mal, como
dizia o patrão da obra, leva mais tempo a fazer.
Leva
mais tempo a fazer – e é tempo perdido. Bastar-nos-iam, a todos nós, estas duas
coisas simplicíssimas: sinalizar aquela porra do acesso à rotunda do Cnema –
carago! – e obrigar Junho a voltar a ser a criança alta e loira que já foi. E
outro Verão nos assoalharia sem tempo a perder.
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