Thursday, June 01, 2017

COISAS SIMPLICÍSSIMAS - Rosário Breve n.º 508 in O RIBATEJO de 1 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Coisas simplicíssimas



1 Junho, aí o temos. Era antigamente um mês claro, lavado, propedêutico da disciplina do Verão. Actualmente, é, como os outros onze seus irmãos, uma época híbrida. As quatro estações, todos o sabemos e reconhecemos, extinguiram-se. Dantes, quase se podia acertar o relógio por elas. Hoje, o gelo e o fogo partilham o mesmo dia em uma espécie de desconcerto global que tanto pode provir da degradação do ozono como das bebedeiras de São Pedro. Tanto dá para tiritar em Agosto como para estrelar ovos no capot do carro em Janeiro. Todavia, não me queixo. O que não tem remédio, remediado está. Suporta-se o que vem. Há coisas que nem a mais fantasiosa imaginação pode contornar. E nós somos criaturas meteorológicas: um luto faz-nos chover os olhos, uma euforia faz-nos dardejar canículas ingénuas e inconsequentes. É como se fôssemos todos, por assim dizer mas não desfazendo, uma espécie de passos-coelhos irremediáveis.

2 Não só o tempo natural é insensato. Santarém faz-lhe companhia, voluntária e/ou não. Agora, é o acesso à rotunda do Cnema. O corte do trânsito na Rua O entre o Retail Park e a sede física deste Jornal parece não ter merecido, aos milhares de “engenheiros” que desmandam cá na chafarica, qualquer veleidade de sinalização. Para quem é, nem bacalhau basta. Estas coisas sérias são tratadas como criancices inimputáveis. A propósito, lembro-me de uma coisa que aprendi quando andava a ganhar o dia nas obras da construção civil. O patrão da obra, verificando que alguém, por desleixo ou preguiça ou incúria ou por tudo isto junto, procedia incorrectamente, atirou a moralidade antes que houvesse mais história: “Ó carago, olha que demora mais tempo o fazer mal do que o fazer bem logo à primeira!”. Infelizmente, não me consta que ele concorra às autárquicas scalabitanas próximas.

3 Enfim. Se calhar, tudo isto é embirranço meu. Talvez seja. Não é grave. Eu nem costumo andar de carro pela formosa e desprezada capital do Ribatejo. Quando aí vou, vou de cavalo rodoviário. À saída da gare, boto-me a pé por praças e vielas. Vou gostando muito daquilo ali e tendo muita pena daqueloutra acolá. Aproveito os grandes ares do planalto. Sinto lá longe a pulsação do Tejo. Encontro gente que é como eu, ao mesmo tempo que faço por ser gente como ela. E confesso: tenho tido muita e muito boa sorte com o maralhal de Santarém. Como não frequento as sessões camarárias, o mais é pessoal decente, malta bípede que pensa de pé pela própria cabeça, usando a boca para dar janela ao que na cabeça se congemina. É mesmo assim como digo. Nas horas mais sós, ambulo sem pressa nem acertado destino em périplo aleatório. Vou no vento, gracejo nas tabernas, cheiro a fruta da hora, miro as esplendorosas mulheres dos outros. Sinto-me português em portuguesa terra: português para o bem e para o assim-assim, que o mal, como dizia o patrão da obra, leva mais tempo a fazer.
Leva mais tempo a fazer – e é tempo perdido. Bastar-nos-iam, a todos nós, estas duas coisas simplicíssimas: sinalizar aquela porra do acesso à rotunda do Cnema – carago! – e obrigar Junho a voltar a ser a criança alta e loira que já foi. E outro Verão nos assoalharia sem tempo a perder.

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