Thursday, January 12, 2017

ANDAR AOS PAPÉIS - Rosário Breve nº 488 - in O RIBATEJO de 12 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt




Andar aos papéis


1 Até que enfim fui capaz de sintetizar na perfeição a minha vida: relê o título desta crónica, Leitor(a). Sem mais nem menos, é o que lá está. Talvez eu nem devesse confessar-me assim tão ingenuamente. Quiçá. Não (me) importa. Eu ando aos papéis. Toda a vida and(ar)ei. Daí (e daqui vai outra ingenuidade confessional) o meu cagaço de algum badagaio que um destes dias se me dê na rua, um daqueles fulminantes que fazem a boca ficar ao lado de mais lado nenhum, sabes, um ai-mãezinha do tipo desta-p’ra-muito-melhor-que-pior-também-há-de-ser-fácil. Mas olha: não cuides tu que é por eu ter medo da morte. Não é. Não tenho. Se muito não erro, há-de ser tão irrisória a morte que me leve quão a vida que tenho levado. Não hei-de ser desses grandes mortos de funerais de três dias. Não é por aí. É por aqui: o meu cagaço do badagaio é que pela rua se me espalhem os papéis enquanto se me estica o perfil, perdão, o pernil. Os papéis? Estes a partir dos que aranho & emaranho as babas & os fios da teia de (escre)viver. Exemplos? Muitos. Posso (e vou) referir-te alguns – embora a vergonha me torne escarlate a bochecha do lado são que o chilique ainda não tolheu. São gatafunhos de inquilino de dispensário psicodoido, daqueles de camisa-de-onze-forças-de-varas, de perpétuo desatarraxado ao nível do parafuso neuro-sináptico. Pois serão. Mas sei que os queres ler. Lê, pois:
2 27/3/2011, Taça INATEL, Campo da Esc. Sup. Agrária Santarém / Jogo Juventude de S. Domingos-Raposense (2-1 no final) / S. Domingos é Abrantes, pop. aprox. 1006 hab., freg.ª Carvalhal / Na bancada: sr. Alfredo Duarte, velho, adepto da Juve, foi vendedor peixe congelado, quando jogador levou pontapé num dedo na Azambuja / Ao pé dele, sr. João Canaverde (cunhado?) / No tempo moço deles, prémio-jogo era duas bolachas-maria + copo vinho / Alfredo cozinhou há dias cabeça corvina c/ grêlos / Equipamento da Juve SD: camisola branca, calção encarnado, meia branca / Do Raposense: todo cor-de-laranja (nota poetizante: dizer que é, conforme o topónimo, “de imitação ígnea da raposa natural”) / São Domingos-Abrantes – distâncias aproximadas: Lisboa-160 km, Porto-270 km / Mais pessoal ao jogo: Pedro Sousa (explora rulote de comes-e-bebes como profissão) / Alexandre Branco (come bifana e bebe cerveja e mastigando diz que “crise há sempre crise, mas quando há 49 mil na Luz a ver um jogo então mas q’ais crise?”) Fátima Amaral (vendedora de rifas, prémios: 1 bicicleta, 1 telemóvel, 1 viagem aonde é que ainda não sabe dizer mas há-de ser a sítio lindo) / Artur Francisco, adepto Raposense, “acredito q’ainda empatamos” / Artesão Herculano Abreu, foi barbeiro, hoje em dia faz fisgas “para atirar engodo na pesca, não é para atirar aos árbitros”, um euro cada fisga. Referir fonte: programa TV “Liga dos Últimos”, report. Ricardo Garrido + Filipe Gomes (imagem).
3 Mais talvez-crónicas: a) Aquela senhoria doida que tive em 1999/00, a dos gatos remelosos que me batia à porta à meia-noite para esconjuro das almas-depenadas & e depois me levava mais 500 paus dos antigos pela botija de gás; b) inventar paleio para dicionário de vidro que, caído ao chão, se estilhaça em o’neill, perdão, mil palavidrinhas; c) inventar guarda-chuva para resguardo da água-dos-olhos que cai sempre quando nos morre alguém (aproveitar sobras estilísticas para crónica do funeral do Avô Carlos); d) gozar c’o Ricardo-pós-Moita da Câmara a pretexto seja do que for; e) citar o Antero naquilo da imitação implicar abdicação: “Um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida”; f) irritar-me mesmo a sério e ladrar mesmo a sério contra a mania inglesóide de coisas portuguesas para portugueses (como os corredores da noite em Santarém se chamarem coiso Night Runners); g) fingir que pedi a um amigo rico que pagasse uma capa-falsa a O Ribatejo mas ao Mirante e ao Correio não; h) em Abril que vem, centenário do nascimento do senhor meu Pai; i) no Maio seguinte, arranjar maneira não egocêntrica de assinalar dez anos de Rosário Breve; j) arranjar maneira airosa de manter viva a memória dos cronistas José Niza, Luís Eugénio Ferreira e Eurico Heitor Consciência mas sem cair no ridículo de imitar de um a acutilância, de outro a candura e de outro a graça; k) aplicar palavras ainda mais difíceis do que às vezes o abrantino & plumitivo tribuno Dr. João Salvador Fernandes; l) referir este par de mamas que ainda agora passou como “bolbosa sugestão dupla do leite de figo cristalizado em morango de bolo-rei” mas de maneira a que a minha mulher não perceba; m) velório do Avô Carlos: a álea de pereiras-de-inverno, as mulheres fazendo café e canja na cozinha da casa senhorial, eu com menos de oito anos a pensar nesta crónica sem saber que também como ele, também a um 3 de Março, a senhora minha Mãe andando por aí, ai-mãezinha, aos papéis.
Ou então, senhor Herculano Abreu, fisgas-canhoto.

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