Friday, May 27, 2016

Rosário Breve nº 458 - in O RIBATEJO de 26 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

A sangue-frio e sem anestesia

1 A edição passada do noss’ O RIBATEJO deu justo destaque, de capa e tudo, ao intolerável arrastamento do problema relativo ao bloco operatório do Hospital de Santarém. Escuso de sumariar aqui a matéria exposta pelo Jornal: a peça de João Baptista é plenamente clara e demonstrativa. Se volto porém à carga do assunto, é por um pormenor que, como popularmente se diz, me fez espécie.
Trata-se de uma declaração do senhor presidente do Conselho de Administração do Hospital Distrital de Santarém, José Josué. Disse ele: “As dificuldades na actividade cirúrgica prendem-se fundamentalmente com a falta de anestesistas. É o que mais desconforto tem provocado. Podemos ter muitas salas, mas, se não tivermos anestesistas, as cirurgias não se fazem.
Quero dizer isto: há falta de anestesistas porque os médicos não se vêem a si mesmos como servidores públicos. O sistema permite-lhes a concentração faustosa em Coimbra, Lisboa e Porto – e a Província que se lixe. Se fossem professores, teriam de concorrer aonde vagas houvesse – mesmo que a centenas de quilómetros da própria residência. Se fossem futebolistas, treinariam onde o clube contratante tivesse o recinto para tal. Se fossem canalizadores, canalizariam onde fosse a obra. Mas não, eles não: é-lhes difícil suportar o anátema do João Semana. Digo isto assim por ser exactamente assim que vejo, penso e caustico a realidade. Não serão todos assim – pode ser-me objectado. Claro que não. As generalizações são perigosas: mas eu sei do que falo. E os médicos também.
Coimbra, Lisboa e Porto não esgotam o País. Servem muita gente – mas não servem toda a gente. As populações do maltratado Interior merecem ser servidas com o mesmo grau qualitativo de serviço público que as do Litoral e as das grandes aglomerações urbanas. E insisto: os médicos são servidores públicos. Caso o não queiram ser, que se dediquem em exclusivo ao privado, deixando em paz a teta da vaca estatal. Tenho dito.
2 Passo agora a mais doce assunto. Vinha na edição passada também: “Abrantes tem dois campeões de cálculo mental”. João Bento, Rita Mascate, Matilde Santos Lourenço e Miguel Diogo Ruivo foram magníficos nas provas prestadas no âmbito do cálculo matemático. Campeões do mundo, nem menos. Estes meninos e estas meninas são mais do que o orgulho das respectivas famílias. São-no também das escolas que representaram – e nosso orgulho ainda. Na balbúrdia quotidiana de crimes escabrosos, de escândalos roubalheira-financeiros, de desertificação de lugares & ideias, o João, a Rita, a Matilde e o Miguel florescem como excepções de contracorrente. Daqui os saúdo. Quanto mais não fosse, pelo sorriso grato que se me colou à expressão no acto de leitura dos seus elevados feitos. Concluo assim: se algum destes quatro vier a formar-se em Medicina, primeiro, especializando-se em Anestesia depois, que se lembre, sei lá, de que o Hospital de Abrantes pode precisar dele/dela.
Já nem digo o de Santarém – Abrantes também é gente.

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