Thursday, April 14, 2016

Rosário Breve n.º 452 - in O RIBATEJO de 14 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt

Tudo e menos alguma coisa

1 Não é por ter descoberto ou inventado a gravidade que Newton não possa jamais ter-se rido de algo ou de alguém. Sensível a maçãs na tola e propenso a sestas à sombra vegetal de macieiras, aquele homem arguto tornou-se definitivamente num verbete incontornável da voragem enciclopédica do Tempo e do Conhecimento.
2 Cervantes, o Miguel espanhol, é outro. Inventou (sem itálico) a figura-gigante do D. Quixote de La Mancha, o inesquecível magriço do elmo de barbeiro que via nos moinhos os papões do vento – coisa que de facto & deveras eles eram & são. A par do seu camarada portuga Luiz Vaz, Miguel, como o Isaac ali de cima e como o Toyota de antigamente, veio para ficar, rastreando na lembrança, a lápis-lazúli, certo trilho imorredouro que acrisola em púrpura essa dimensão esquisita chamada eternidade-até-mais-ver.
3 Cristo, o Emanuel libertário, involuntário rabi voluntariamente não onzeneiro, consta dos pergaminhos e dos mares mortos como utópico salvador de quem, afinal, salvação carece de merecer – a humana espécie fabriqueira de tanto mal, esse erro descomunal do Pai dEle.
4 Bernardo Santareno, de óculos de massa grossa & escura, sobreviveu ao & do labor clínico-dispensário do Dr. António Martinho do Rosário (não breve). Povoou palcos multitudinários a partir da sua solidão escriba & atroz, própria dos Newtons-Cervantes-Camõezes-&-Jesuses. O precoce desaparecimento físico livrou-o, afinal & enfim, do desamparo: há lá maior companhia do que a oferecida pela multidão incontável dos mortos? Não há, nesta vida.
5 Ana de Castro Osório, a digníssima & proficientíssima senhora de quem Camilo Pessanha era, mas não foi, cativo – que grande pessoa, Ana. Chá & mesa-de-camilha. Biscoitos filológicos. Instrução literária & moral das crianças que nascem velhas. E vice-versa. Paladina de metade-do-mundo + outro-tanto: mulheres & homens. Sábia. Ledora. Escriba. E na linhagem ancestral do mais nítido, do mais formoso Poeta Português vivo: António Osório, Autor de Luz Fraterna e de Aldeia de Irmãos, além de, por azar e/ou por acaso, antigo Bastonário da Ordem dos Advogados. Ana, Camilo (o de Macau, não agora o de Castelo Branco), António – três bandeiras que o meu/nosso Portugal não sabe desfrad’hastear, coitado.
6 Eusébio da Silva Ferreira & Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro: dois miúdos que, nascidos embora em aparato de pobreza, vingaram (inatamente, primeiro; trabalhosamente, depois) na ludopédica arte da bola a enredar. Alpinistas-sísifos, mergulhadores-tântalos, são dois bravos de calções que espalham alegria como nenhuma feira-popular há-de alguma vez ser capaz de. Eles & a senhora minha Mãe. E o senhor vosso Pai. E o senhor meu Pai. E a senhora vossa Mãe.
7 Carlos Paredes. José Afonso. Carlos Seixas. Aristides de Sousa Mendes. O Infante D. Henrique. Carlos Lopes. João Roiz de Castelo Branco. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro.
8 Tido em rol o exposto onomástico de 1 a 7, que direi dos corruptos pró-droga da (ou na) PJ recentemente indiciados? E dos catatuas-chefes das Finanças trazidos à força de azeite policial ao lume da água jurídica? Que deles todos direi? Direi o mesmo que o peixe faz & o mesmo que eles são: nada. 

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