Thursday, April 21, 2016

Rosário Breve n.º 453 - in O RIBATEJO de 21 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt

Então e de resto?

0. Se não toda, muita gente saberá que eu, enquanto cronista, só tenho dois assuntos: Ricardo Gonçalves & o Resto. Vou escrever-vos algo desse resto. E esse resto poderia ser maravilhoso, se a vida o fôra também. Não é.
1. Rio Maior, terça-feira, 19 de Abril de 2016, fábrica salsicheira da Nobre. Exaltação dos suinicultores nacionais. Um deles assim: “Enquanto houver um porco em Portugal, não podemos baixar os braços!” Cheira-me que esta malta vai passar o resto da vida de braços no ar como os sinaleiros cabeças-de-giz do antigamente nas peanhas rodoviárias do salazarentismo – pois que porcos, de toucinho ou de metáfora, são coisa que nunca nos faltou.
2. No Brasil também não – vistes Vós aquela degradante circo-instância da votação anti-“presidenta”? Aquele país supostamente irmão do nosso pode ser grande – mas não é grande coisa: como nós não somos. Digo mais: quanto maior o pano, maior a nódoa. Aquilo é uma Angola falando um Português pior. E é mais: a corrupção verd’amarela não é de Esquerda nem de Direita – é ambidextra. E não há (ou não tem) Gabriela que a des-jagunce. Por cá, nós ainda não (nos) imaginamos um José Sócrates presidindo à Mesa da Assembleia da República a “impeachmentar” o Marcel(l)o só por causa de ele alegadamente ler mais livros numa noite do que o dito Sócrates nos tempos felizes da filosofia de Paris à custa do dinheiro do amigo. Valha-nos isso. Mas, se calhar, já disso estivemos mais longe. Já, já.
3. Dr. Jekyll & Mr. Hyde: Bloco de Esquerda versus Bloco de Esguelha. O primeiro é decente, é capaz, tem coisas na cabeça e pernas para andar. Anda por ali humanismo. Anda por acolá decência. O segundo é todavia de uma puerilidade tão risível quão irrisória. Veio agora, o Hyde, com a cenaça/carraça do sexismo gramatical. No intervalo das ganzas, os rapazes do rabo-de-cavalo & as “bêibes” de t-shirt-Che-tàzaver -Guevara entretêm-se no MacDonald’s local a destruir o imperialismo & a escarninhar da heterossexualidade mercê da urgência do antigo BI passar a não sei quê anti-macho. Duas coisas, ó pessoal: a) Eu não quero nem aceito que o meu Cartão de Cidadão passe a ser de Cidadania porque cidadania é substantivo no feminino – e portanto isso é sexismo castrador; b) Sou totalmente a favor da total liberdade de orientação sexual – pelo que rejeito a homossexualidade obrigatória que parecem querer impingir-me-nos só porque é moda. Até por causa disto: com um cartão de cidadania nas unhas, um gajo passa a ter quantos pais? Mais até do que Cristo Ele-mesmo?
4. Já, se não todos, muito(s) nos rimos um bocadito. Chega de risota. O mundo não está para galhofas facetas. O mundo é triste. (A 13 do corrente, fui sepultar um primo-direito. Um primo-direito é um meio-irmão. Dia 13 pretérito, portanto, fui cerimoniar meia-morte minha. Mas adiante:)
5. Eu só quero que um cidadão possa ser mulher à homem sem ter de berrá-lo. Pretendo tão-só que a sexualidade não seja para usar a tiracolo. Ou então assim: que, como no Brasil, lula possa ser no masculino, por mais choco que ande com as berlaitadas sem vergonha do sinistro Cunha local. A corrupção é uma guitarra que só toca quem tem (c)unhas, é ou não é? É.
6. Esse tudo que há nas pequenas-coisas, esse nada tão frequente nas grandes – daí a portuguesíssima & exclama/deprecia/tiva expressão: “Grande coisa!” Olhai: ando pela berma fluvial escrevinhando-vos. Paro. Sou escolhido por um banco de ripas exaustas & falidas sobre que, há uns dias poucos, vi (e, confesso, fotografei) dormindo uma pessoa despojada. Era uma mulher (desculpa-me mas era, ó Hyde-de-Esguelha). Pela comissura ricto-labial dela, azulava ao ar um incisivo podre. No chão, perpendicular à gota de cera da mão pingona, boquiabria-se a caixa-de-sapatos das moedas esmoleres. Foi nesse banco mesmo que me sentei para retocar as últimas linhas, Vossas sempre, desta semana. Senti-me (ou sentei-me) como que em casa. Portugal acontecia de novo após o aguaceiro da média tarde. Esperei pelo fim da crónica. A minha esperança era que a terminação dela viesse feita de um lirismo forte, tinto de azul-azulejo de baixo-forno, de uma mor(t)al gentia, de uma espécie de solidariedade fora de TV-horários ditos nobres como as fábricas salsicheiras. Mas nada. A folha teimava em branco no trecho destinado (ou, no meu caso, destilado) ao derradeiro parágrafo numérico. Eis porém senão quando:
0 outra vez. Eis porém senão quando: algo espavorido, aparece-me crónic’adentro o Ricardo Gonçalves. E então ele assim para mim: “Mas que raio estou eu aqui a fazer?” E então eu assim para ele: “Pois isso é pergunta a que, até hoje, ninguém sabe dar resposta.”


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