Thursday, November 12, 2015

Rosário Breve n.º 431 - in O RIBATEJO de 12 de Novembro de 2015

Quarenta anos menos quinze dias depois

A Terça-Feira/10 de Novembro de 2015 foi uma jornada irrevogável.
O Sol do Verão de São Martinho dourou graciosamente a nossa parte do mundo. A luz alta, dando esmalte alto nos verdes perpendiculares, todo o santo dia nos animou o simples facto de estarmos vivos pela mercê de brilhos à mesma vez minuciosos e amplos, como óptima e opticamente acontece na senda de ouro em perspectiva que vai mar afora da praia ao horizonte. Nem parecia haver nervosismo dos mercados internacionais.
A Natália devassou a Praça de chapèuzinho fofo cintado a tira azul-bebé de velcro no feltro da copa, a Natália muito branca por dentro do vestido de gaze cor-de-violeta-macerada, a Natalinha todo certi’aprumadi’nha nos sapatinhos rasos de freira-noiva. Nem nos lembrou que acabava de morrer, felizmente longe, o ex-chanceler amigo e alemão do Soares, um tal Helmut Schmidt de 96 anos que a Natália obliterou de vez & sem remorso logo que nasceu, há dezoito.
Obliquando os ígneos cabelos ruivos que são de sua natura e nossa loucura, a Filomena, que é muito dada de dar, dava água fresca de beber às crianças peregrinas de romagem à Senhora da Infância, cujo santuário é ubíquo e alveja, tal um beijo de cal, nos filhos com que fomos capazes de refazer-nos a nós mesmos à imagem e semelhança de nossos pais. Filomen’apaziaguada aquela sede pueril, a ninguém ocorreu angustiar-se com a perfídia do PSI20 que entretanto baldeava para baixo a Bolsa.
Molhados de sombra enxuta sob os eólicos plátanos farfalhantes do Largo, os jogadores-de-cartas, à maneira de monarcas exilados na própria pátria, biscavam & trunfavam em total alheamento dos ministros de economias & finanças àquela hora aquadrilhados em Bruxelas para mais um sinédrio de roubalheiras & comezainas de igreja & gamela.
Por faltarem então dois dias para a saída do Jornal, foi sem provisão de leitura que levei o ácido úrico a passear pelos arrabaldes-de-nenhures que são a paisagem ambulatória do povoamento fixo da minha vida. Talvez por isso não puderam, eles, juntar-me a Paulo Lalanda de Castro, ex-patrão de Sócrates na Octapharma, no rol de arguidos dos processos Marquês + Visa Gold: sem O Ribatejo, faltava-me a capa-falsa.
Quando, pela tardinha já, já o ouro-velho fulgia faíscas nas derradeiras vidraças inteiras da fábrica ao abandono, abandonei-me sem estrebuchos à miragem verídica da passagem da Dolores pela azinhaga do fontanário, a Dolores Maria macia & maciça como azulejo de chacota-viva, a Doloreira solteira & feliz como a perdiz de petisqueira. É do ser singela que a ela-Dolores não dolorosamente imputam qualquer quebra de lealdade, como a que se diz teve Jesus (o Jorge, não o INRI) para com o Éssélbê.  
A noite amansou de vez as ilusões de perpetuidade a todos nós cães, búfalos, hienas, gatos, hidrómetras, hidrófobos, abstémios, abstencionistas, pensadores, pensionistas, apostadores, apóstatas, ratos, iconoclastas, ginastas & moscas. Em Lisboa, parece que apearam o desGoverno.
De modo que, no dia seguinte, onde estiveram e por onde passaram a Dolores, a Filomena & a Natália, há-de passar também, que é bem senhora para isso, a Esperança.


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