Thursday, November 19, 2015

Comemorando os 30 anos de O RIBATEJO - Rosário Breve n.º 432 - 19 de Novembro de 2015





(…) dum’ assentada/que eu pago já

Nos alvores do ano 1985 d.C., fui recipiente do desastroso e dolorosíssimo apodrecimento de um incisivo. A violenta e virulenta catástrofe dentária abcess’intumesceu-me a metade esquerda da boca de tal maneira, que até o olho do mesmo hemilado da cara se me semicerrou em presidência pitosga da abóbora-pouco-menina que o espelho me retornava e reflectia em ros’amarelo-pus. A fio, dias moles duramente penei. Inabilitado de rua civil (quanto menos não fosse, por razão de estética mínima), repugnei de suores-frios o pijama de solteiro, envelheci de chinelos os tacos do quarto singelo, canjengalinhei fastios famélicos sem retorno, adoeci as cortinas de tule da janela glauca e desesperei sem ilusões & com borato morno a degradação irreversível da minha cremalheira maxilamandibular.
Até então & desde então, houvera & houve Janeiros melhores. Desse mau januário 85/XX, não me esqueço. Todavia & naturalmente, o resto do ano foi também de coisas boas & de coisas nem-por-isso. Antes delas, porém, permiti-me V. que repesque pérolas de outros Oitenta&Cincos. (Faço-o via a História de Portugal em Datas, Círculo de Leitores, 1994.)
No 85/XII, nascia Évora enquanto diocese cristã (a consagrar 19 anos depois) e morria o cristão D. Afonso Henriques, rex primus de Portugal, sucedendo-lhe no ceptro o seu primogénito Sancho.
Em 1285, houve Cortes em Lisboa. Danada e furibunda, a nobreza de então ladrava em acirrado desfavor das Inquirições, que lhes tolhiam as imunidades senhoriais. Deve ter sido feio: Filho (infante D. Afonso) contra Pai (D. Dinis). Veio a Rainha Santa com pão & rosas – e pronto: tudo pobre e tudo amigo na mesma.
No 85 da centúria XIV, muita acção também – as Cortes são em Coimbra. O jurista João das Regras diz, a coisa faz-se: em detrimento de outros (a menina Beatriz e os rapazes de D. Pedro I, João e Dinis), é aclamado regiamente o Mestre de Avis, também João e também Dom e também Primeiro. E ainda: damos porrada aos Castelhanos em Aljubarrota, em Trancoso e em Valverde.
Em 1485, Diogo Cão retorna à costa africana, logrando atingir a Serra Parda. Os sabões da caboverdeana Ilha de Santiago são concedidos ao senhor daquele arquipélago, um tal Rodrigo Afonso. E o por assim dizer nosso D. João II trata de aliar-se ao oitavo dos Carlos de França.
Os dígitos 85 do século seguinte são já espanhóis por cá. Manda há cinco anos Filipe II de lá, I aqui. Nota artística-imperial: é proibido o comércio com a inimiga & arquirrival Holanda. Os anos de Seiscentos são os do grande e glorioso plumitivo & sermonista padre António Vieira. O ano 85/XVII propriamente dito é o de vinda a lume de uma obra importante: a Arte de Criar Bem os Filhos na Idade da Puerícia, de Alexandre de Gusmão.
Cem anos & muita solidão depois, há casórios realengos entre as Casas Ibéricas: os infantes tugas João e Mariana Vitória enlaçam-se, respectivamente, com os castelões Carlota Joaquina e Gabriel de Bourbon. É também o ano da morte da célebre amante de D. João V, a pouco casta Madre Paula.
Antefinalmente, chegados somos ao século do gigante Eça. Há 40 anos é ele nascido (em 1845, na Póvoa de Varzim, de amor não matrimoniado ainda entre um senhor juiz e uma senhora ajuizada) quando um tal Bernardino Machado, futuro Presidente da futura República, cria na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra as cadeiras de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica. Noutro plano, um Acto Adicional à Carta Constitucional visava a progressiva democratização do sistema político: menos Rei e nenhuma hereditariedade no pariato camarário. Já o Partido Progressista (de figuras como Oliveira Martins, António Cândido e Lobo de Ávila, entusiastas no encómio ao cesarista modelo alemão à la Bismarck) preconizava, por seu lado, o projecto Vida Nova: mais Rei e mais Executivo.
No triste século XX do nosso nascimento físico, o ano 85 é de aluviões contraditórios: em Janeiro, aquilo mau do meu dente; em Fevereiro (8), morte do Poeta José Gomes Ferreira; em Março (29), inauguração da Mesquita de Lisboa para os (talvez) 15 mil seguidores locais de Mafoma; a 10 de Abril, debate na AR sobre a adesão sim-ou-não à CEE; a 19 de Maio, dá-se, na Figueira da Foz, a Cavacada da revisão do carro; a 15 de Junho, Tomar acolhe a 1.ª Convenção Nacional do novel PRD de inspiração & tutela eanistas; a 12 de Julho, Eanes dissolve presidencialmente a AR e fixa as Legislativas para 6 de Outubro seguinte; a 11 de Agosto, chegada das supostas relíquias de D. Nuno Álvares Pereira ao lisbonense Convento do Carmo, no âmbito comemorativo do hexacentenário da Batalha de Aljubarrota; a 5 de Setembro, enquanto o PS atribui ao PSD a paternidade da crise política, os meus Irmãos Fernando & Jorge geminam entre si o 31.º aniversário natalício (último do Jorge, mas não o sabíamos então); a 16 de Outubro, as ossadas de uma multidão chamada Fernando Pessoa são trasladadas para os Jerónimos; a 6 de Novembro, Cavaco é indigitado por Eanes para formar Governo; e dois dias depois chega às bancas o número primeiro do jornal O Ribatejo. Um tridecénio depois, o dito semanário é o meu avesso: nunca lhe doeram os dentes, nem jamais trincou a língua.
Venham mais trinta (…)


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