Thursday, June 11, 2015

Rosário Breve n.º 411 - in O RIBATEJO de 11 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



A Escolha
(acta de consulta)



De seu/dela lado da mesa, a Senhora pergunta-me:
– Qual é a sua Primeira Recordação da/na vida?
É uma pergunta profissional. Clínica, não cínica. A mesa é de consultório.
Respondo:
– No Pátio da Casa dos Pais, 1967, tenho três anos, algo debaixo de um papel ou cartão, acho algo que me enche de alegria, alguma quinquilharia-tesouro, não consigo saber o quê, talvez uma carica de garrafa de laranjada para fazer um ciclista, talvez um cromo ainda bom de jogador da bola para a caderneta, só recordo o ter achado, não o achado em si, ou em mim, só o ter feito um descobrimento, a emoção intensa (chamam-lhe “adrenalina”, hoje em dia), o sapato direito garimpando aquela fortuna incalculável,  que, de facto, ficou por calcular.
A Senhora então assim para mim:
– É mesmo essa a sua Primeira?
Ardil. Tento esconder o gato sem mostrar o rabo. Em vão: ela sabe do ofício.
Eu assim para ela:
– Até que ponto, Doutora, são as recordações deveras factuais? Quanta ficção maquilhada pelo desejo as não emboneca? Quanto real é/há nelas? Quão sincero (nos) é o Passado (ou nós sinceros para com ele)? Quanto tem ele de fabricação?
Ela sossega-me:
– As recordações têm sempre algo de verdadeiro, de histórico, na origem. A essa verdade antiga costuma associar-se, inconscientemente embora, o contexto, a época, o ouvido, o falado, o que os mais Velhos disseram, o que a Criança apre(e)nde(u).
E insiste:
– É mesmo essa a sua Primeira Recordação?
Decido abrir o jogo:
– É. Mas há uma Segunda que é Primeira também. Ex-æquo, diria eu. E digo.
E ela:
– Conte-ma, por favor.
E eu:
– Tem de ser 1967 ou 1968, no máximo. Não pode ser mais perto no Tempo. Nem mais longe – eu sou dos de ’64. Ainda não ando na Escola. É na terra do meu Pai, não naquela onde moramos, que é a da minha Mãe. Levavam então as crianças a essas coisas fúnebres. Acho que ainda levam. De repente (é uma espécie de clarão na mente), num adro (árduo), vejo o Caixão. Já saiu da Igreja, ainda não chegou ao Cemitério. Terra seca. Está completamente só, o Morto. Como deve ser, s(up)onho eu agora. O Rosto é um lenço sobre o rosto. Brisa nenhuma. O Rosto-rosto não se mexe. Os homens pousaram-no ali. Talvez para descansarem um pouco. Os homens desapareceram. O séquito desapareceu. O Sol a pino. A pique. Absolutamente Só. Absolutamente Sol. Absolutamente ninguém em torno do esquife. Não me vejo a mim mesmo – sou Aquele-que-Olha.
A Doutora:
– De quem era o funeral?
Eu:
– Era de um homem já grande quando o meu Pai ainda era menino.
A Senhora:
– Muito calor?
Eu:
– Insuportável. Aquela luz irrespirável à García Márquez, sabe a Senhora? O negro acérrimo do ataúde. Ninguém à volta daquela Caixa-Preta. A força do calor açulada pela força do Ninguém-à-Volta, pela força do Nada-por-Todo-o-Lado. Nem o meu Pai à vista. Até hoje.
A Senhora:
– Há estudos que apontam no sentido de um maior pendor para a sobrevivência no caso das pessoas cujas primeiras recordações estão associadas à alegria, ao prazer, a sentimentos bons como a gratidão, a surpresa agradável etc. O senhor tem duas Primeiras.
Qual delas escolhe?
E eu:
– Mas eu posso escolher?
Então a Senhora assim:
– Pode. Pode sempre escolher. Fixe isso: pode escolher sempre. Creia nisso. Mas é bom que tenha sido franco com o acréscimo da “Segunda-também-Primeira”.
E eu:
– Então escolho a primeira-Primeira. A do Achado.
Então a Senhora assim:
– Como, ou o quê, são hoje para si os dias de muito calor?
Eu:
– Acho que compreendo a pergunta. São mortíferos e mortais e sozinhos. Olhe a Senhora que eu gosto de praia no Verão. Mas prefiro-a de Inverno. Ao Estio, prefiro de longe o Outono temperado. Até a Invernosa mais álgida lhe prefiro.
A Senhora:
– Compreender é bom. Ajuda a escolher. Não muda o Passado. Mas muda qualquer coisa (para) hoje.
Eu:
– Mas nunca saberei o que estava sob o papel/cartão, o que achei, o que me alegrou tanto.
A Senhora:
– Escolha o tesouro que quiser. Mesmo que esteja calor a mais.

Consulta acabada, sozinho na paragem de autocarros. Sol forte, implacável, daquele de enegrecer rosas. Mas, perto, há uma orla de sombra viva: como uma gaze fresca atirada pela Mãe. Acolho-me a ela. O autocarro vem a horas. E, uma vez na vida ao menos, eu também.
Obrigado, minha Senhora.
Obrigado, acho eu.
Ou escolho.




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