Friday, December 26, 2014

Rosário Breve n.º 388 - in O RIBATEJO de 25 de Dezembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Stock

Não digo que seja total a ruptura de stock. Tanto, não digo – mas que seja indesmentível a vigente escassez de anjos, lá isso é e digo.
Há meses-anos na minha vida que não topo um. Perambulo muito à cata deles. Por vãos & por reentrâncias de prédios devolutos & de teatros sem actores, toco com a ponta da bota os hirtos corpos encartonados: volumes pessoais reduzidos a uma marca de frigorífico japonês. Gente, enfim: hirtos seres autodeserdados, tropa a que a vida, assobiando para o lado, estropiou sem solfejo nem grande remorso.
Antigamente, eu sitiava-os, aos meus anjos, sem acuidade nem esforço. Eles aconteciam-me. Talvez fosse da idade. Da idade deles, digo. Ou, digo, da minha, que nem idade quase tinha. Recordo aqui, e aqui o assento, aquele anjo do Novembro de 1981. Foi à saída do Teatro do Príncipe Real. Era um espécimen apardalado de figura. Magro, quase alto – e entre o cinza e o castanho: assimétrica envergadura – e molhado de pés como um veneziano sem barca. Cumprimentei-o sem recorrer a sílabas. Paguei-lhe um ponche quente no bufete do Teatro frio. Separámo-nos, depois, no vão das escadas da Previdência, ali-onde-ainda-agora aquele homem registava sociedades de totobola manuscritas a bic-cristal-cor-de-pombo e aquecia a frio o café-com-leite da solidão vitalícia em púcaro de folha sobre língua azul de gás-estearina. Esse anjo ainda me deu para alguns meses de consumo sem remédio: como o tudo o que se consome sem poder remediar-se.
Tive outros anjos entretanto-tão-pouco, valha a verdade. Por exemplo, aquele de coisa alguns anos depois de coisa afinal nenhuma, esse de um ano algures & alhures entre os nascimentos da minha Primeira e da minha Segunda filhas. Esse, sim: foi por um Outubro.
Apareceu-me ele no espelho do barbeiro – e era do meu mesmo cabelo que ele se perdia à lancetada bífida. Trazia ele consigo meio papo-seco de mortadela quase transparente, dessa que dão aos pobres às portas de Santa Apolónia, a Ferroviária, em desobrigas de catolicismo esmoler por calendário à hora-TV. E sim, o olhar dele tinia. Tinia coruscâncias à maneira das tesouradas recebidas em espelho: olhos que dava para escutar.
Eu cá por mim, ter tempo – tenho. Espaço para V. contar de muito(s) mais anjos é que não. Leitor meu: isto é só, e tão-só, uma página de jornal: só não é a minha vida. (A páginas tantas, é melhor do que a minha vida. Seja. Não discuto isso. Estou aqui mais por causa dos anjos que já não há. Ou que não hei. Ele há-de haver ainda alguns, que não sei eu?)
Alguma coisa sei. Vi a cabeleireira sair foríssima de horas sem ser por véspera de casamento. Ainda agora foi: uma reles terça-feira, reles antevéspera do Nascimento do Deus-Menino-da-Coca-Cola-Paz-na-Terra-Prometida-aos-Judeus-de-Boa-Vontade. Nove da noite. Dez euros por umas madeixas que até ficam mal à freguesa. Dizem até que o gajo dela (da freguesa) lhe bate. Mas o anjo de hoje: esse?
Parece-me tê-lo vislumbrado na fila do desemprego. Não o confundi. Os outros todos eram só gente. Desandei. Ele há menos gente do que anjos, se calhar.
Isto não anda fácil entre Novembro e Outubro.

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